Seu cafezinho está gourmet? Entenda a quarta onda do café e suas mudanças para o consumidor

Os brasileiros mantêm o hábito de consumir café apressadamente. A diferença é que, progressivamente, buscam informações sobre o que estão bebendo. Enquanto o tradicional cafezinho ainda se faz presente nas mesas do café da manhã, observa-se um aumento nas redes sociais de consumidores que desejam saber sobre a origem do grão, o processo de torra, os melhores métodos de preparo e as razões pelas quais alguns cafés apresentam sabores ou aromas que lembram chocolate, caramelo, frutas ou flores.

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Esse interesse se manifesta em vídeos no TikTok, Instagram e outras plataformas, onde influenciadores compartilham desde receitas práticas até métodos mais sofisticados de preparação. Contenções de pessoas moendo grãos na hora, testando diferentes temperaturas de água, comparando formas de extração e até apresentando experiências de cultivo e torra caseira não são raras. Para os apaixonados por café, isso parece um verdadeiro paraíso. Para quem está atrasado para o trabalho às 7h30, pode ser apenas mais uma tarefa na lista.

É justamente nessa discrepância entre a vontade de apreciar um café de qualidade e a falta de tempo para transformar a cozinha em uma cafeteria que surge um dos principais debates do mercado: a quarta onda do café. Embora o conceito ainda não seja unânime entre os especialistas, tem sido relacionado ao crescimento dos cafés de qualidade, à utilização de tecnologias domésticas, à influência das redes sociais e à busca por proporcionar a um público maior uma experiência que, por muito tempo, foi restrita a cafeterias especializadas.

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Uma análise realizada pela consultoria Mintel, divulgada em março de 2026, indica que o mercado norte-americano está adentrando uma quarta onda, caracterizada pela junção das preferências da Geração Z, pelo aumento da preparação de cafés especiais em casa e pela influência das redes sociais. De acordo com a consultoria, criadores de conteúdo do “CoffeeTok” estão moldando receitas, métodos e rituais de preparo, levando os consumidores a reproduzirem em suas cozinhas bebidas que conheceram nas plataformas digitais.

No Brasil, os dados também sugerem um espaço promissor para o crescimento de categorias de maior valor agregado. Informações da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) revelam que, entre os produtos certificados pela instituição em 2025, 23,7% eram considerados gourmet e 2,3% especiais. A categoria de cafés especiais cresceu mais de 300%, embora ainda represente uma parcela reduzida do volume total comercializado no varejo.

Esse crescimento não significa que os brasileiros estejam abandonando o café tradicional. Ao contrário, a tendência parece apontar que o consumidor está se deparando com mais opções e tornando-se mais curioso sobre o que coloca em sua xícara.

Mas o que é a quarta onda do café?

Antes de abordar a quarta onda, é pertinente uma breve retrospectiva. A segmentação do mercado em “ondas” não é uma classificação oficial do setor, mas sim uma forma que especialistas utilizam para explicar as transformações significativas na relação das pessoas com o café. E uma onda não necessariamente anula a anterior: elas coexistem.

A primeira onda está ligada à popularização do café como um produto de massa. O intuito era tornar a bebida acessível, prática e disponível para o maior número de pessoas. Foi nesse período que o café se consolidou como um item quase essencial nas cozinhas e rotinas domésticas.

A segunda onda trouxe, principalmente, uma mudança em relação ao local de consumo do café. As cafeterias se tornaram mais populares, o espresso ganhou destaque e bebidas como cappuccino e latte passaram a fazer parte do dia a dia. Grandes redes transformaram as cafeterias em espaços de encontro, trabalho, estudo ou mero lazer. Os consumidores deixaram de adquirir apenas uma bebida e começaram a buscar também uma experiência.

A terceira onda, que surgiu nos finais dos anos 1990 e nas primeiras duas décadas de 2000, trouxe a discussão para a própria xícara. Os consumidores passaram a questionar a origem do café, a variedade plantada, a região de produção, o método de processamento e o perfil da torra. Cafeterias especializadas passaram a valorizar métodos filtrados, informações sobre os produtores e descrições sensoriais.

O café deixou de ser apenas uma commodity e passou a ser visto como um produto artesanal, com sua origem, identidade e características individuais. No entanto, essa sofisticação criou uma barreira: para uma parte do público, mergulhar no mundo do café começou a se assemelhar à escolha de um vinho.

Em entrevista ao Perfect Daily Grind, Vanusia Nogueira, atual diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC), que na época presidia a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), destacou esse problema. Segundo ela, “demasiada sofisticação pode ser intimidadora” para o consumidor comum. Em outra declaração, resumiu a questão afirmando: “O preço não é o entrave. A exclusividade é.” É nesse ponto que se insere a quarta onda.

A ideia, conforme especialistas ouvidos pelo Perfect Daily Grind, tem menos a ver com a introdução de uma nova camada de complexidade e mais com a ampliação do acesso ao café de qualidade. Hernan Manson, do International Trade Centre, descreve o movimento como uma espécie de “comercialização da especialidade”, visando levar o produto para além do restrito grupo de frequentadores de cafeterias especializadas.

Em outras palavras: enquanto na terceira onda o consumidor precisava buscar o café especial, na quarta é o café que procura alcançá-lo. Isso pode ocorrer em supermercados, através de cápsulas, em clubes de assinatura, em cafeterias de bairro, por meio de bebidas prontas ou através de equipamentos domésticos que possibilitam a criação de uma bebida mais semelhante àquela das cafeterias especializadas.

 

O café gourmet vai sair da cafeteria e chegar ao supermercado?

Existe uma diferença significativa entre a produção de pequenos lotes de cafés de altíssima qualidade para um público disposto a pagar mais e a necessidade de incorporar cafés melhores à rotina de centenas de milhares de consumidores. Para que a democratização ocorra, é essencial conseguir escala sem deixar de lado os critérios de qualidade.

Vanusia Nogueira enfatiza esse desafio ao afirmar que os produtores precisam trabalhar com volume. Segundo ela, cooperativas podem facilitar a organização dessa produção e a redução de custos de comercialização, o que tornaria mais viável a chegada de cafés de qualidade ao mercado.

Este debate é crucial, pois o café gourmet não começa na prateleira do supermercado. Antes de ser embalado, uma cadeia complexa envolve cultivo, variedade, clima, maturação dos frutos, colheita, processamento, secagem, armazenamento e torra.

Arábica ou conilon: qual é o melhor?

Essa é uma das perguntas mais frequentes quando o consumidor começa a se interessar por café. No entanto, a resposta não é tão simples quanto um “este é o melhor”.

As duas espécies mais relevantes da produção de café no Brasil são o Coffea arabica, conhecido como arábica, e o Coffea canephora, que inclui variedades como conilon e robusta. Cada uma delas apresenta características distintas em relação ao cultivo, composição e perfil sensorial.

O arábica tende a ter uma complexidade aromática maior, com diferentes possibilidades de doçura, acidez e notas sensoriais. O conilon, por outro lado, geralmente possui um teor de cafeína superior e características de corpo e intensidade, tornando-se um ingrediente valioso em blends, espressos e outros produtos.

Um estudo realizado pela Embrapa revelou, em uma coleção de genótipos de conilon analisada, um teor de cafeína de 2,939%, comparado a uma referência de 1,50% utilizada para o arábica. Contudo, é importante ressaltar para quem está começando a explorar o universo dos cafés que conilon não é sinônimo de café de baixa qualidade.

O Incaper salienta que a qualidade do conilon depende de fatores genéticos, ambientais e, especialmente, dos cuidados durante a colheita e pós-colheita. O instituto também observa um aumento na busca por cafés especiais e defende que o conilon deve ser avaliado de acordo com sua própria identidade sensorial, ao invés de ser simplesmente comparado ao arábica.

A ABIC, por sua vez, começou a considerar arábicas e canéforas sob a mesma metodologia de avaliação sensorial, afirmando que cafés canéforas podem oferecer altíssima qualidade, mesmo quando produzidos exclusivamente dessa espécie.

Portanto, talvez a pergunta mais relevante não seja “arábica ou conilon?”, mas sim: como esse café foi produzido e o que ele oferece na xícara?

Afinal, o que é café gourmet?

Outra questão comum surge quando o consumidor observa as embalagens de maneira mais criteriosa: afinal, o que significa “gourmet”? Não se trata apenas de um café caro. E também não implica automaticamente em “100% arábica”.

O Protocolo Brasileiro de Avaliação Sensorial da ABIC estabelece que um café gourmet pode incluir como matéria-prima arábica, canéfora ou uma mistura das duas espécies. A categoria está associada a fatores como baixo amargor, doçura equilibrada ou intensa e acidez equilibrada ou elevada. Entre as notas sensoriais que podem ser perceptíveis estão caramelo, mel, amêndoas, florais e frutadas. Dessa forma, o nome da espécie não determina por si só a qualidade.

Um café arábica pode apresentar problemas relacionados ao cultivo, colheita, armazenamento ou torra, resultando em uma bebida de baixa qualidade. Analogamente, um café conilon pode receber os cuidados necessários e entregar um resultado de alta qualidade.

Por isso, a avaliação considera uma série de características da bebida. O novo protocolo da ABIC busca descrever melhor os atributos sensoriais do café, aproximando a avaliação daquilo que o consumidor efetivamente percebe na xícara.

O café virou conteúdo nas redes sociais

Se a terceira onda colocou o café nas mãos do barista, a quarta parece estar proporcionando aos consumidores mais controle. Grande parte desse fenômeno ocorre nas redes sociais. No TikTok e no Instagram, a preparação do café ganhou uma estética própria. Moedores, filtros, chaleiras, máquinas de espresso e estações de café aparecem em vídeos que ensinam receitas e métodos de preparo.

Segundo a Mintel, 49% dos consumidores da Geração Z entrevistados aprenderam sobre café e temas relacionados à bebida no TikTok. A consultoria sinaliza uma mudança significativa: as cafeterias deixaram de ser as únicas responsáveis por lançar tendências, enquanto criadores de conteúdo começaram a influenciar diretamente aquilo que os consumidores desejam experimentar em casa.

Esse comportamento se alinha especialmente às preferências das gerações mais jovens, que frequentemente buscam produtos personalizados e experiências únicas. O café pode ser quente ou gelado, mais doce ou menos doce, com leite ou sem leite, filtrado ou preparado como espresso. Pode integrar um ritual calmo ou ser apenas uma bebida visualmente atraente para postagens nas redes sociais. E há uma tendência curiosa: o interesse nas etapas que vão do cultivo do café à xícara.

Nas redes sociais, é comum encontrar influenciadores e entusiastas compartilhando experiências sobre cultivo, processamento e torra em casa. Para esse público, o café se transforma em um processo completo, quase como uma versão cafeinada do “faça você mesmo”. Porém, um detalhe é relevante: a maioria das pessoas não tem tempo.

A experiência pode ser fascinante, mas inevitavelmente se choca com a realidade cotidiana. Observar alguém moendo grãos, controlando a temperatura da água e realizando uma extração cuidadosa pode ser encantador. No entanto, realizar isso diariamente é outra história. A rotina da maioria envolve trabalho, deslocamentos, estudos, filhos, tarefas domésticas e um sem-fim de compromissos. Por isso, a quarta onda precisa encontrar um equilíbrio: como oferecer uma experiência melhor sem tornar o café mais uma obrigação?

É aqui que entram as cápsulas, cafés premium de preparo rápido, bebidas prontas, concentrados e equipamentos domésticos simplificados. A Mintel destaca o crescimento do preparo premium em casa e as oportunidades para marcas que conseguem unir qualidade, praticidade e personalização.

O consumidor pode até se interessar por torra e moagem. Contudo, numa segunda-feira às 6h45, é bem provável que a prioridade seja um café rapidamente feito, antes que a criança se lembre de que esqueceu a mochila.

E os cafés aromatizados?

Há ainda uma porta de entrada para o universo dos cafés diferenciados que pode ser mais divertida e, em alguns casos, mais acessível: os cafés aromatizados.

Chocolate, avelã, caramelo, baunilha, menta e outros sabores aparecem em produtos que buscam transformar o café em uma experiência semelhante a uma sobremesa. Essa alternativa pode ser especialmente atrativa para aqueles habituados ao café convencional que desejam experimentar algo diferente, sem se aventurar imediatamente em cafés especiais com perfis sensoriais mais sutis. Entretanto, segundo os especialistas, fazer uma distinção é crucial.

Quando um café especial apresenta “notas de chocolate”, por exemplo, isso não indica que chocolate foi adicionado ao produto. Essas características podem derivar naturalmente da variedade do café, da região de produção, do processamento e da torra. Cafés aromatizados, por outro lado, têm aromas ou ingredientes adicionados para conferir essas características à bebida. Para os curiosos, há opções disponíveis em diferentes faixas de preço.

Cafés para começar a experimentar

Para aqueles que desejam experimentar opções mais em conta: o Café Floresta Aromatizado oferece variantes como creme brûlée, baunilha com nozes, caramelo salgado e trufas de chocolate. Algumas embalagens de 100 g eram vendidas a R$ 16,30 no site da marca, sendo descrito como café gourmet 100% arábica.

O Café Italle também se apresenta como uma escolha para quem deseja degustar aromas sem comprometer o bolso. A marca disponibiliza versões de 250 g, como caramelo, chocolate com avelã, chocolate com menta e chocolate trufado, por R$ 24,90 no site oficial consultado. A empresa informa que esses produtos são cafés gourmet 100% arábica, com torra média.

O Café Ananias figura numa faixa de preço semelhante, oferecendo, entre outras opções, café 100% arábica com aroma de “nut coffee” por R$ 24,42, além de cafés gourmet em grãos e versões premium.

Para quem quer experimentar um café gourmet sem precisar entrar na faixa de preço mais elevada, o 3 Corações Gourmet pode ser outra alternativa. Versões de 250 g, como Cerrado Mineiro e Sul de Minas, são encontradas no varejo entre R$ 24 e R$ 26, dependendo do local. A marca ainda conta com uma linha de cafés especiais e microlotes, demonstrando como diferentes níveis de qualidade podem coexistir no mercado.

Por sua vez, o Café Floresta Gourmet apresenta opções de origem, como a edição Amazônia de 250 g, que é vendida por R$ 35 no site da marca. Essa versão é descrita como 100% arábica, com sabor suave e notas de frutas vermelhas e caramelo.

O Café do Ponto também merece destaque para aqueles que desejam comparar diferentes perfis de café. A marca oferece diversos blends e é reconhecida por sua história de mais de 60 anos, destacando a seleção de grãos, aromas e sabores intensos.

Para quem já quer um passo a mais na experiência, a Veroo disponibiliza cafés especiais em embalagens de 250 g. Um exemplo é o Chocolatudo, vendido por R$ 44,90 na pesquisa realizada, descrito como 100% arábica, com 84 pontos na avaliação SCA e notas de chocolate e cacau. A marca também oferece uma versão Caramelícia, com notas de caramelo e a mesma pontuação informada. Os preços apresentados correspondem aos encontrados nas lojas consultadas e podem variar conforme promoções, regiões, frete e estabelecimentos.

A Baggio, uma marca bem conhecida entre os cafés aromatizados, também pode fazer parte dessa degustação. A linha de aromas inclui opções como chocolate com avelã, chocolate com menta e outras variantes, com embalagens de 250 g encontradas na faixa de aproximadamente R$ 33 a R$ 39, dependendo da versão.

Então o café gourmet vai virar rotina?

É provável que o café gourmet se torne mais popular, mas é prematuro afirmar que substituirá o tradicional. Os dados da ABIC indicam que o café convencional ainda prevalece no mercado. Entre os produtos certificados pela entidade em 2025, 38,5% eram tradicionais e 20,7% extrafortes, enquanto os gourmets representavam 23,7% e os especiais, 2,3%.

O cenário mais plausível sugere uma crescente divisão do mercado em diferentes perfis de consumo. Haverá quem continue adquirindo o café tradicional de 500 g para a família, quem opte por um gourmet para o café da manhã, quem compre um especial para os fins de semana, quem prefira uma cápsula pela praticidade e quem busque um café aromatizado de chocolate ou caramelo para transformar sua pausa à tarde em uma verdadeira sobremesa líquida. Todas essas opções podem coexistir.

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