Otávio Kaxixó, que cresceu em Capão do Zezinho, aldeia com cerca de 89 indígenas às margens do rio Pará, em Martinho Campos, Minas Gerais, enfrentou diversas reprovações no vestibular antes de ser admitido na UFMG em 2019 e finalizar o curso seis anos depois.
Aos 30 anos, Otávio Kaxixó tornou-se o primeiro indígena Kaxixó a graduar-se em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, conforme reportagem publicada. Sua origem na aldeia Capão do Zezinho, composta por aproximadamente 89 indígenas, ressalta a importância dessa conquista.
O momento da formatura ilustra bem sua jornada. Ao ser chamado ao palco para receber o diploma, Otávio entrou com um cocar na cabeça e um maracá na mão esquerda, levantou o instrumento e exclamou: “É nosso!”. O público aplaudiu de pé. Na aldeia, a celebração se assemelhou à de 2019, quando a conquista do vestibular já havia sido considerada uma vitória coletiva.
A aldeia de 89 pessoas às margens do rio Pará
Capão do Zezinho é uma comunidade pequena. Com cerca de 89 indígenas, todos conhecem quem ingressou na faculdade, quem está estudando e quem retornou à aldeia. Essa localidade, situada na margem esquerda do rio Pará, é o berço do primeiro médico Kaxixó graduado pela UFMG.
O pequeno tamanho da aldeia demonstra por que a formatura e a aprovação foram vistas como vitórias compartilhadas. Em uma comunidade com 89 pessoas, um único diploma de Medicina altera completamente as estatísticas locais. Antes de Otávio, não existia médico Kaxixó graduado pela universidade federal em Minas; após sua formatura, um novo caminho se abre, mostrando que o sonho é alcançável.
As reprovações antes da aprovação de 2019
A jornada para garantir uma vaga não foi simples nem direta. Desde cedo, Otávio sonhava em ser médico, mas o vestibular o trouxe diversos reveses. Não foi apenas uma única tentativa frustrada: foram múltiplas. Tal sequência frequentemente leva candidatos a desistirem de seus planos ou mudarem de ramo.
Otávio chegou a considerar essa possibilidade. Ele relatou que cogitou desistir várias vezes, não por falta de determinação. Além da competição pelas vagas mais disputadas do país, havia também os desafios enfrentados por um indígena no Brasil diariamente, uma barreira adicional que não aparece nas notas do vestibular. Por um período, seu sentimento foi claro e desalentador: a Medicina parecia um sonho distante.
No entanto, em 2019, após anos de esforço e tentativas sem êxito, a aprovação chegou. A aldeia reagiu com grande alegria, reconhecendo o resultado como uma conquista coletiva, não um mero sucesso individual.
Ocupar uma cadeira e chamar isso de resistência

No último ano do curso, Otávio refletiu sobre o que significava estar lá. Sua consideração não girava em torno de notas, currículo ou mercado de trabalho. Era sobre a presença: estar no curso considerado o mais elitizado da universidade não se limitava a ocupar um lugar, mas representava resistência.
Ele enfatizou que estar ali servia para demonstrar que a origem de alguém não define suas conquistas, e que o acesso à universidade é um direito. A forma como descreveu sua matrícula não foi como uma conquista ou sorte, mas sim como um direito. Essa diferenciação é significativa: conquistas são celebradas e podem ser esquecidas, enquanto direitos devem ser reivindicados e ampliados para os que virão a seguir.
Essa percepção se manifestou em outra declaração sua no Instagram, concisa e clara: “Nunca mais uma medicina sem nós”. Essa frase posiciona o diploma dentro de um projeto maior, que não se limita à formatura de um estudante de Medicina ou à história de uma aldeia de 89 indígenas.
Seis anos de curso e o internato no Xingu
Durante a graduação de seis anos, Otávio não deixou sua origem de lado. Ao entrar no curso, já tinha a intenção de realizar um internato em território indígena, o que conseguiu. O estágio ocorreu no Parque Indígena do Xingu, onde atendeu a população indígena.
A experiência foi marcada por um componente único. Ser indígena e fazer parte de uma equipe não indígena que atende indígenas colocava Otávio em uma posição dupla no atendimento. Ele acredita que essa vivência aprimorou seu cuidado em relação à saúde dos povos tradicionais, algo que nenhuma aula teórica consegue ensinar. A prática de campo não foi um simples complemento, mas a parte que conferiu sentido ao restante da formação.
Vale a pena considerar a jornada percorrida. A criança que cresceu em uma aldeia de 89 pessoas em Martinho Campos concluiu o ensino em um dos territórios indígenas mais renomados do Brasil, como estudante de Medicina de uma universidade federal. Entre esse marco e o outro, houve reprovações no vestibular, a aprovação em 2019 e seis anos de faculdade.
Cocar, maracá e o grito no palco
A cerimônia de colação de grau poderia ter sido apenas um ato formal, mas não foi. Ao ser chamado para receber seu diploma, Otávio subiu ao palco com um cocar na cabeça e um maracá na mão esquerda, elementos que raramente aparecem em uma formatura de Medicina.
Ele levantou o maracá e gritou “É nosso!”. A plateia reagiu com aplausos. O uso do plural na frase é um detalhe que explica toda a cena: o diploma estava em suas mãos, mas o pronome escolhido foi coletivo. Na aldeia, a celebração foi semelhante à de cinco anos anteriores, quando a aprovação ocorreu.
A escolha dos objetos também carrega significado. O cocar e o maracá não são meros adereços, mas símbolos de identidade que foram intencionalmente levados a um espaço historicamente restrito para quem vem de sua origem. Em vez de deixar sua identidade à porta ao entrar, o jovem médico a trouxe com orgulho, diante de todos os presentes.
“Que eu não seja o único”
Após a formatura, o desejo de Otávio não se resume a sua trajetória profissional. É sobre continuidade. Ele almeja se tornar uma referência e abrir portas para outros indígenas, ressumando isso em uma frase que encerra a história e a mantém em aberto: que ele não seja o único, mas sim um símbolo de continuidade.
O recado tem um destinatário claro. Ser o primeiro só se torna uma conquista verdadeira quando deixa de ser uma exceção, e é exatamente essa a reflexão que ele compartilha. O primeiro médico Kaxixó formado pela UFMG demonstra maior interesse pelo segundo, pelo terceiro e pelo décimo, do que apenas pelo pioneirismo, pois é a repetição que transforma um caso isolado em um caminho conhecido.
Para uma aldeia de 89 indivíduos, isso possui repercussões práticas. Jovens que até então apenas sonhavam com a Medicina agora têm um integrante da própria comunidade que passou pelo vestibular, enfrentou reprovações, ingressou em 2019, vivem a graduação e, finalmente, conseguiu seu diploma com cocar e maracá. O percurso deixou de ser uma mera hipótese.
O que essa história deixa
Otávio Kaxixó não apenas traçou uma trajetória pessoal de sucesso, mas estabeleceu um precedente. Seu nome agora responde prontamente àqueles que duvidam da possibilidade de um jovem indígena originário de uma aldeia de 89 habitantes no interior de Minas se formar em Medicina em uma universidade federal.
O que ele deseja é que essa resposta não tenha que ser sempre a mesma. A frase escolhida para finalizar seu ciclo não celebra um feito isolado, mas exige continuidade. Um médico Kaxixó graduado pela UFMG é uma notícia importante. Vários, com o tempo, deixariam de ser novas, e essa é, de fato, a aspiração que ele possui.






