Novos Padrões Cerebrais Identificados em Pessoas Autistas

Um estudo publicado na Nature Neuroscience revela que o cérebro de pessoas com Transtorno do Espectro Autista pode ser categorizado em subtipos hipo ou hiperconectados, o que influencia a forma como o transtorno se manifesta. A descoberta tem potencial para impulsionar o que os autores chamam de psiquiatria de precisão, melhorando tanto o diagnóstico quanto as abordagens terapêuticas, hoje baseadas unicamente em sinais clínicos observáveis.

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Ao examinar cérebros de modelos animais e compará-los com ressonâncias magnéticas de quase 2 mil pessoas neurotípicas e neurodivergentes, os pesquisadores identificaram que o cérebro de indivíduos no espectro autista se divide em dois subtipos principais de conectividade, hipo ou hiperconectados. Essa classificação sugere que essas redes neurais se comunicam mais ou menos entre si, o que impacta diretamente a expressão do autismo em cada pessoa.

Segundo Anita Brito, coordenadora do Centro de Neurodesenvolvimento e Reabilitação do Instituto Jô Clemente, essa investigação abre caminho para o que os autores chamam de psiquiatria de precisão, e no futuro é provável que sejam desenvolvidas ferramentas de neuroimagem e biomarcadores capazes de complementar a avaliação clínica.

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Segundo o IBGE, 2,4 milhões de brasileiros estão no espectro autista. Atualmente, o diagnóstico se baseia exclusivamente nos sinais manifestados pelos pacientes, mas médicos acreditam que, com o tempo, novas metodologias de avaliação devem trazer mais precisão e permitir intervenções terapêuticas mais bem direcionadas. Para isso, porém, ainda são necessárias mais pesquisas, já que a aplicação clínica desses achados exige validação mais detalhada, segundo Brito.

De acordo com o estudo, a hipoconectividade está relacionada a dificuldades na abertura socioemocional, no processamento da linguagem e na percepção auditiva. Já a hiperconectividade aparece associada a circuitos ligados ao hiperfoco, ao raciocínio lógico-visual e à hipersensibilidade sensorial.

Segundo Anita Brito, o diagnóstico do TEA hoje depende em grande parte do conhecimento dos profissionais envolvidos na avaliação e é fundamentado em critérios definidos por diretrizes médicas, com foco na identificação de déficits persistentes na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, sem exigir biomarcadores neurológicos ou genéticos específicos.

Os sinais precisam estar presentes desde a infância e não podem ser explicados por outra condição, mas a grande heterogeneidade do TEA tem levado pesquisadores a buscar fundamentos neurobiológicos capazes de explicar essa diversidade de manifestações clínicas. Para ela, esse tipo de investigação é promissor para o desenvolvimento de modelos de estratificação diagnóstica no futuro, já que identifica subtipos de conectividade funcional associados a vias biológicas distintas, alinhando-se ao modelo da chamada medicina de precisão.

Sobre a relação entre padrões de conectividade e perfis comportamentais, Brito explica que o tema é complexo e segue em debate na literatura científica. Historicamente, a hipoconectividade, especialmente a redução na comunicação ao longo do eixo anteroposterior e na Rede de Modo Padrão, tem sido associada a dificuldades na cognição social, déficits na reciprocidade socioemocional e desafios no processamento da linguagem e na percepção auditiva.

O estudo relaciona esse padrão a disfunções nas vias sinápticas, sugerindo um comprometimento na comunicação neuronal eficiente, o que possivelmente reflete nas dificuldades centrais de interação social observadas no TEA. Já a hiperconectividade costuma aparecer em redes locais e em circuitos ligados a processos sensoriais, atenção e memória, e evidências indicam que esse aumento pode estar relacionado a comportamentos como hiperfoco, habilidades aprimoradas em tarefas de raciocínio lógico-visual e sensibilidade atípica a estímulos sensoriais, características comuns no espectro autista. Brito reforça, porém, que essa relação não é determinística, e muitas pessoas podem apresentar um mosaico de hipo e hiperconectividade em diferentes redes cerebrais.

Sobre a importância dos testes em modelos animais, a especialista explica que o uso de camundongos geneticamente modificados é fundamental na neurociência translacional e na pesquisa sobre o TEA, condição de etiologia complexa, que envolve interação entre múltiplos fatores genéticos e ambientais. Essa complexidade torna difícil isolar mecanismos biológicos causais apenas a partir de estudos com populações humanas, e os modelos animais permitem contornar essa limitação, oferecendo controle experimental rigoroso sobre ambiente e genética.

Segundo Brito, os modelos murinos funcionam como uma espécie de referência biológica, permitindo mapear mecanismos em animais e depois buscar assinaturas de conectividade semelhantes em grandes bancos de dados de neuroimagem humana. Assim, os testes em animais não têm como objetivo reproduzir toda a experiência autista humana, mas sim dissecar mecanismos biológicos fundamentais, testar hipóteses e preparar terreno para intervenções terapêuticas voltadas a alvos moleculares específicos.

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