Psicóloga alerta para avanço de dependências comportamentais e jogos on-line

O conceito de dependência já não se restringe ao consumo de álcool e outras substâncias. O crescimento da tecnologia, a difusão das apostas esportivas e o uso intenso de celulares e redes sociais têm impulsionado um novo perfil de comportamento compulsivo, capaz de afetar crianças, adolescentes e adultos, gerando prejuízos à saúde mental, à convivência familiar e ao rendimento profissional. O aviso é da psicóloga Daiana da Roza Custodio, que atua na Regional Sorocaba do Serviço Social da Construção Civil do Estado de São Paulo (Seconci-SP), durante entrevista concedida à rádio Cruzeiro FM 92,3.

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Conforme a psicóloga, é essencial distinguir vício de dependência. O vício está ligado a um comportamento repetitivo, enquanto a dependência configura um quadro mais grave, marcado pela dificuldade de interromper uma ação mesmo diante de consequências negativas. “O vício é um hábito. A dependência já é crônica, torna-se uma doença. É quando a pessoa tenta parar aquele comportamento e não consegue”.

Além das drogas

Daiana ressalta que, apesar de muitas pessoas associarem a dependência unicamente ao uso de substâncias químicas, atualmente os comportamentos compulsivos estão presentes em várias situações cotidianas.

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Ela aponta que compras por impulso, consumo de pornografia, uso de redes sociais e, sobretudo, os jogos de apostas online passaram a integrar a rotina de inúmeros indivíduos. “Hoje o vício está na palma das nossas mãos. Os jogos de azar, as compras compulsivas e outros comportamentos estão muito mais acessíveis por meio do celular”.

Para a especialista, essa facilidade de acesso eleva o risco de desenvolvimento da dependência, já que o estímulo permanece disponível praticamente o dia inteiro.

Sinais

Outro ponto abordado na entrevista foi a dificuldade que muitas pessoas enfrentam para reconhecer que adquiriram uma dependência.

Segundo Daiana, geralmente são parentes, amigos ou colegas de trabalho que notam as primeiras alterações comportamentais. “Quem está à volta costuma perceber antes. A pessoa passa muito tempo no celular, muda a rotina, chega atrasada ou permanece longos períodos isolada”.

Ela esclarece que, ao tentar interromper o comportamento compulsivo, podem surgir sintomas como ansiedade, tremores, suor excessivo e insônia, sinais típicos de quadros de abstinência.

Apostas

Durante a entrevista, Daiana também chamou a atenção para o crescimento das apostas esportivas e dos jogos online, impulsionados principalmente pela forte divulgação em redes sociais, plataformas digitais e transmissões esportivas.

Conforme ela, a exposição contínua a esse tipo de publicidade desperta o interesse das pessoas e pode favorecer o surgimento de comportamentos compulsivos. “É tentador. Você olha para todos os lados e vê propaganda. Nos atendimentos, é cada vez mais comum ouvir relatos de pessoas dizendo que todo mundo ao redor está jogando”.

A psicóloga adverte que um dos indicadores de preocupação é quando a pessoa passa a gastar valores superiores aos planejados e não consegue interromper as apostas.

Crianças

A profissional também manifestou inquietação quanto ao uso precoce de telas por crianças e adolescentes.

Segundo Daiana, o cérebro infantil ainda está em formação e o excesso de estímulos pode prejudicar a capacidade de concentração, o aprendizado e até levar a diagnósticos incorretos. “Nem sempre é TDAH. Muitas vezes é o uso excessivo das telas. Elas funcionam como uma droga no cérebro da criança”.

Ela afirma que o acompanhamento dos pais é fundamental para estabelecer limites e reduzir o tempo de exposição aos dispositivos eletrônicos.

Saúde mental

Ao abordar a importância do tratamento, Daiana enfatizou que buscar ajuda psicológica não deve ser motivo de vergonha.

Segundo ela, o debate sobre saúde mental tem diminuído preconceitos e estimulado cada vez mais pessoas a procurar acompanhamento profissional. “Mesmo quando existe acompanhamento psiquiátrico, a terapia continua sendo essencial para o autoconhecimento e para alcançar melhores resultados”.

Ela também destacou que as empresas têm ampliado a atenção ao tema, especialmente após a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforça a necessidade de prevenção dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

Prevenção

Durante a entrevista, Daiana explicou que o Seconci-SP promove ações contínuas de orientação junto aos trabalhadores da construção civil por meio dos Diálogos Diários de Segurança (DDS).

Conforme a psicóloga, os encontros abordam temas ligados à saúde mental, prevenção das dependências e identificação precoce de comportamentos que possam indicar necessidade de acompanhamento especializado. “A ideia é aproximar os trabalhadores do Seconci para que eles busquem ajuda e recebam a orientação adequada. Todos nós estamos suscetíveis ao desenvolvimento de algum tipo de dependência”.

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Redação
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