Como a pecuária brasileira virou epicentro do debate ambiental

O Brasil sediou, em novembro de 2025, a COP30 em Belém, a conferência do clima da ONU que fechou o chamado Pacote de Belém, aprovado por 195 países. O evento reforçou compromissos como a promessa de triplicar o financiamento global para adaptação até 2035 e viu 122 países apresentarem novas metas de redução de emissões (NDCs) para 2035. Mas, dentro de casa, o desafio segue de pé: segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, o Brasil deve fechar 2025 com cerca de 1,44 bilhão de toneladas líquidas de CO2 equivalente, 9% acima da meta de 1,32 bilhão fixada por sua própria NDC.

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O motivo, segundo o coordenador do SEEG, David Tsai, é que, mesmo com o desmatamento em queda, todos os demais setores da economia brasileira seguem aumentando suas emissões. E, entre eles, a pecuária ocupa posição central. Em 2024, ano mais recente com inventário fechado, a atividade, somando emissões diretas de metano entérico, desmatamento associado e uso de energia, respondeu por 51% de tudo o que o Brasil emitiu, o equivalente a 1,1 bilhão de toneladas de CO2 equivalente. Se fosse um país, “o boi brasileiro” seria o sétimo maior poluidor do planeta em termos climáticos, à frente do Japão.

Um levantamento do Observatório do Clima, divulgado às vésperas da COP30, mostrou que as emissões de metano no Brasil bateram recorde em 2023, atingindo 20,8 milhões de toneladas, alta de cerca de 6% em relação ao ano anterior. O país responde hoje por 5,5% de todo o metano liberado na atmosfera globalmente, e cerca de 75% desse volume nacional vem da fermentação entérica, o processo digestivo dos bovinos. Pesquisadores ouvidos pelo Jornal da Unesp destacaram que o Brasil está se distanciando da meta que assumiu em 2021, no Compromisso Global do Metano, de reduzir em 30% as emissões desse gás até 2030.

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O tamanho do rebanho nacional, um dos maiores do mundo (o IBGE contabilizou 238,2 milhões de cabeças de gado no país no último levantamento), explica boa parte do problema, ainda que alguns pesquisadores questionem a precisão da metodologia usada para calcular esse número.

Enquanto isso, entidades e pesquisas ligadas ao agronegócio têm reforçado um argumento técnico: o de que a pecuária brasileira já vem conseguindo produzir mais carne sem expandir a área de pastagem, um fenômeno chamado de “efeito poupa-terra”. Um estudo da FGV Agro, apresentado em junho de 2026 na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma, mostrou que, entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina cresceu mais de 240%, enquanto a área total de pastagens encolheu 11%, caindo de 181 milhões para 160 milhões de hectares. Segundo a pesquisa, batizada “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil 2025 a 2050”, esse ganho de eficiência já evitou o uso de 397 milhões de hectares que seriam necessários caso o país mantivesse os índices de produtividade de 1990.

O modelo elaborado pelos pesquisadores aponta que as tendências que o setor já vem executando podem reduzir em até 60% as emissões absolutas da pecuária de corte até 2050, e a intensidade de carbono por quilo de carne produzido poderia cair de 80 kg para 16 kg de CO2 equivalente.

Em cenários mais otimistas de adoção tecnológica, a redução de emissões chegaria a 92,6% até 2050, segundo o estudo. Entre as tecnologias citadas estão o melhoramento genético do rebanho, o manejo intensivo de pastagens e a integração lavoura-pecuária-floresta, sistema que já ocupa cerca de 17 milhões de hectares no país, segundo dados apresentados pela missão brasileira na FAO.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) chegou à COP30 com um documento de posicionamento entregue a autoridades como o enviado especial da Agricultura para a conferência, Roberto Rodrigues, e a presidente da Embrapa, Sílvia Massruhá. O texto reforça a defesa histórica do setor de ser tratado como “parte da solução” climática, citando o Plano ABC+ (Agricultura de Baixo Carbono) e a manutenção de vegetação nativa em propriedades rurais.

A entidade também defende que o setor seja reconhecido como capaz de gerar créditos de carbono, de forma que produtores sejam remunerados por práticas de baixo carbono já adotadas, e pede cautela em relação a medidas de defesa comercial de outros países que usem a pauta climática como justificativa, um tema sensível para as exportações brasileiras de carne.

Para organizações ambientalistas e cientistas do clima, o problema segue sendo de escala e de tempo. Mesmo que ganhos de produtividade sejam reais, a projeção de redução de emissões da pecuária depende de décadas de investimento em tecnologia, financiamento e assistência técnica, especialmente para pequenos produtores, que representam a maioria dos pecuaristas do país e muitas vezes enfrentam limitações de infraestrutura.

Há também a questão da contabilidade climática: o Observatório do Clima reforça que remoções de carbono por vegetação nativa mantida em propriedades rurais ainda carecem de metodologia consolidada para entrar nos inventários oficiais brasileiros, o que dificulta reconhecer, em números, o crédito ambiental que o setor reivindica.

Com o Brasil na presidência da COP até novembro de 2026 e o país mirando sua nova meta climática para 2035 (redução de 59% a 67% das emissões em relação a 2005, com neutralidade prevista para 2050), a pressão sobre a pecuária tende a crescer nos próximos ciclos de negociação. O setor chega a esse período com dados técnicos inéditos sobre seu potencial de descarbonização, mas também com o desafio de transformar promessas de longo prazo, como os cenários projetados até 2050, em resultados mensuráveis já nos próximos inventários do SEEG.

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