O esporte de remo, cada vez mais reconhecido pelos seus efeitos positivos na saúde mental, tem se mostrado uma ferramenta poderosa para indivíduos que buscam superar traumas profundos e reconstruir suas trajetórias de vida.
Na modalidade, que cresce em todo o território brasileiro, milhares de praticantes são integrados ao contato direto com o mar e a natureza.
O remo como caminho para recomeçar
Para o fundador da Associação Brasileira de Canoas Havaianas (ABRACHA), Fábio Paiva, essa percepção foi se consolidando com o desenvolvimento do esporte no país.
Ele observa que, com o passar do tempo, passou a notar um impacto ainda mais significativo naquelas que encontravam na remada uma nova perspectiva de existir.
Eu comecei a receber inúmeros testemunhos de pessoas que tiveram suas vidas transformadas. Entendi que o esporte funciona como uma terapia completa. Hoje eu digo que a coisa mais importante da nossa vida é a saúde mental. Sem ela, todo o resto perde sentido. E eu vejo que a remada ajuda as pessoas justamente a encontrarem esse equilíbrio
Quando tudo parecia perdido
Entre essas narrativas, destaca-se a do quiropraxista Fabiano de Almeida Affonso, residente em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
Sempre apaixonado pela canoagem, ele construiu uma carreira vitoriosa, chegando a conquistar o título de campeão brasileiro.
Contudo, sua existência sofreu uma reviravolta drástica em 2012, quando foi vítima de um assalto e levou um tiro na cabeça.
O projétil atravessou seu rosto, resultando na perda completa da visão. Além disso, Fabiano já possuía deficiência auditiva severa.
Para muitos, aquele episódio poderia representar o encerramento de uma trajetória esportiva. Para ele, no entanto, significava o começo de um novo obstáculo.
Quando meus amigos me convidaram para voltar a remar, achei impossível. Eu usava a visão para tudo dentro da canoa. Sem enxergar e com audição limitada, parecia que não havia mais como continuar
Entretanto, a desistência nunca foi uma alternativa. Após diversas tentativas e experimentos criados por ele próprio, Fabiano descobriu maneiras de retornar ao mar.
A volta ao mar e aos títulos
Depois de desenvolver sistemas de comunicação, refinar suas técnicas de orientação e passar a remar guiado por parceiros, o resultado superou todas as expectativas.
Atualmente, o atleta acumula 11 títulos brasileiros e dois títulos mundiais de canoagem oceânica, todos conquistados após a perda da visão.
Mais relevante do que as medalhas, ele enfatiza a transformação de mentalidade proporcionada pela remada.
As pessoas não podem ficar esperando que alguém crie oportunidades para elas. É preciso criar as próprias oportunidades. Se eu tivesse esperado, estaria limitado a uma cama até hoje. As dificuldades existem para nos impulsionar a ir mais longe, não para nos fazer desistir.
Histórias que inspiram outras vidas
Para Fábio Paiva, relatos como o de Fabiano ajudam a compreender por que a remada atrai pessoas de diferentes idades e contextos.
Segundo ele, a meta atual é dar visibilidade a exemplos que possam motivar outras pessoas que atravessam momentos difíceis.
Em um país onde os índices de ansiedade, depressão e sofrimento emocional continuam aumentando, as experiências de Fabiano transmitem uma mensagem simples, mas impactante: por vezes, um novo rumo pode se iniciar com uma remada, um desafio e a decisão de prosseguir adiante.







