De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis pessoas no mercado de trabalho enfrentará algum transtorno mental nos próximos doze meses. A mesma entidade indica que depressão e ansiedade provocam a perda de aproximadamente 12 bilhões de dias laborais por ano em todo o globo, com um prejuízo estimado em US$ 1 trilhão em produtividade. Se isso já não fosse preocupante, o Brasil ainda ocupa a liderança mundial em ansiedade e está entre os cinco países com maior prevalência de depressão.
Nesse contexto, cresce o interesse das organizações por programas de Primeiros Socorros em Saúde Mental (PSSM), que capacitam líderes, profissionais de RH e colaboradores a identificar indicadores de sofrimento emocional, oferecer acolhimento inicial e direcionar a pessoa para atendimento especializado adequado.
“A crise emocional nem sempre se manifesta de modo evidente. Muitas vezes, aparece em alterações sutis de comportamento, como atrasos frequentes, isolamento, irritabilidade, desengajamento ou queda no rendimento”, aponta Luis Gonzales, CEO e cofundador da Vidalink. “Quando esses sinais passam despercebidos, o sofrimento pode se intensificar e os efeitos negativos atingem tanto o indivíduo quanto a empresa”.
A proposta não é substituir terapia
Segundo o executivo, o PSSM não visa transformar gestores em terapeutas, mas prepará-los para intervir com segurança e empatia em situações delicadas. “Há um receio comum entre líderes: o medo de dizer algo inadequado. Mas, em muitos casos, o silêncio causa mais danos que uma abordagem acolhedora”, esclarece. “O papel da organização não é substituir psicólogos ou psiquiatras, mas criar um ambiente em que o sofrimento seja detectado precocemente e as pessoas saibam a quem recorrer quando precisam de auxílio”.
O treinamento também deve considerar uma expansão escalonada dentro das corporações. Ele explica que, em empresas com até 20 funcionários, recomenda-se ao menos uma pessoa capacitada em PSSM; entre 20 e 40 profissionais, pelo menos duas. Em estruturas maiores, a proporção aumenta, chegando a cerca de 50 pessoas treinadas em uma companhia de até 1.000 colaboradores.
Na prática, as capacitações incluem protocolos como o I.A.O.E.E, sigla que resume o passo a passo da intervenção: (i)dentificar sinais e crises, (a)bordar, (o)uvir sem julgar, (e)ncorajar a buscar auxílio e (e)ncaminhar para suporte especializado. Entre os indícios que merecem atenção, Luis cita ataques de pânico, crises de ansiedade, falas de desesperança, isolamento excessivo e alterações bruscas de comportamento.
Uma cultura com menos estigma
Para Gisele Caleffi, psicóloga e especialista em saúde mental corporativa, um dos maiores desafios nessa área é construir uma cultura organizacional que diminua o estigma em relação ao sofrimento psíquico. “Muitas pessoas ainda evitam procurar ajuda por medo, vergonha ou receio de julgamento”, afirma. “Por isso, é essencial que o ambiente de trabalho esteja preparado para ouvir, acolher e respeitar. Escutar é mais importante do que tentar solucionar o problema imediatamente”.
Ela ressalta que a abordagem inicial deve ser feita com cautela, em espaços reservados, com escuta ativa, sem pressa nem interrupções. Perguntas simples e abertas, como “você gostaria de conversar?” ou “como você está se sentindo?”, podem ser mais eficazes do que tentativas de solução imediata. Gisele acrescenta que, em situações como luto, separação ou sobrecarga evidente, o tema é ainda mais sensível e exige maior preparo de quem intervém. Para a especialista, delicadeza e empatia são fundamentais ao perguntar: “Como você está lidando com tudo isso?”.
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“Escutar é mais relevante do que resolver. Esse é um ponto crucial, especialmente para lideranças, que frequentemente sentem a necessidade de agir rápido ou dar respostas”, enfatiza a psicóloga. “A escuta ativa e sem julgamento é um dos pilares desse processo. Muitas vezes, a pessoa só precisa ser acolhida com presença genuína”.
Cuidado com excessos e exposição
Gisele também adverte que, em períodos de crise, o excesso de estímulos pode agravar o quadro emocional. Aglomerar muitas pessoas ao redor, insistir em instruções, oferecer estimulantes como café ou pressionar pela retomada imediata da rotina são ações que devem ser evitadas. O foco, segundo ela, deve estar em reduzir a sensação de ameaça e promover segurança emocional.
Existem ainda situações que demandam atenção imediata e encaminhamento urgente para suporte especializado, como falas sobre morte ou suicídio, crises intensas de pânico, delírios, alucinações, insônia prolongada com sofrimento intenso ou comportamentos altamente desorganizados. “Nesses casos, acolher é importante, mas acionar ajuda especializada é indispensável”, destaca a psicóloga, que também orienta preservar o sigilo e a privacidade da pessoa, evitando qualquer exposição desnecessária.
Outro ponto é respeitar os limites de atuação dos profissionais da empresa: líderes e RHs não são terapeutas e não devem realizar diagnósticos ou intervenções clínicas. “O papel organizacional é identificar, acolher e encaminhar”, reforça a especialista em saúde mental corporativa. “Quando há resistência em buscar ajuda profissional, a orientação é compreender os motivos da recusa, que podem estar ligados a custo, experiências negativas anteriores ou estigmas, e evitar insistência excessiva, exceto em casos de risco iminente à vida”.
O avanço da discussão sobre o tema, de acordo com Gisele, reflete uma mudança ampla na forma como as empresas encaram o bem-estar dos colaboradores. Para ela, o sofrimento emocional foi tratado por muito tempo como uma questão individual. “Hoje, sabemos que ambientes tóxicos, excesso de pressão e culturas de silêncio contribuem para o adoecimento das pessoas”, afirma, ressaltando que falar sobre primeiros socorros em saúde mental não significa fragilizar o ambiente corporativo, mas torná-lo mais humano, seguro e sustentável. “Afinal, as pessoas se lembram, acima de tudo, de como foram tratadas”, conclui.






