“Qual é a pena máxima no Brasil? Não são 30 anos? Pois eu já estou há mais de 40 anos cumprindo e ninguém esquece. Se eu fosse um criminoso vulgar, eu entenderia. Mas qual foi o meu crime? Qual foi o meu pecado?”, disse o ex-goleiro Moacyr Barbosa Nascimento para Helvídio Mattos, em 1993.
Um final de semana, mas um final de semana especial. O tempo parece se acelerar, tudo está em ritmo de preparação, a animação e a crença na vitória tomam conta dos lugares e das pessoas. Segunda-feira será o dia do “valeu a pena esperar”: para gritar, festejar e comemorar. Temos o Brasil enfrentando o Japão às 14 horas de Brasília, no Estádio NRG, em Houston.
Nesse clima de espera e preparação, mesmo diante de todos os desafios, problemas e dilemas do futebol brasileiro, seguimos fechando ruas, avenidas, vielas e becos; instalando telas; montando churrasqueiras; abastecendo freezers e geladeiras; arrumando cadeiras; ligando para amizades, parentes e familiares; combinando com as chefes e colegas de trabalho. Formamos multidões, lotamos bares, restaurantes, orlas, clubes e boates em busca de assistir ao melhor lance, ao gol, à vitória que abre nova fase.
Em todo e qualquer lugar aparece alguém torcendo, acompanhando o jogo até com o clássico radinho de pilha, lembrando as observações de Norbert Elias, que aponta como os jogos organizam rivalidades, expectativas e emoções dentro de uma rede social complexa que impede ação individualizada dos torcedores, grupos sociais e instituições esportivas.
Nesse movimento frenético, ninguém se lembra de derrota, ninguém acredita que o Brasil irá perder. Tudo transcorre como em 1950, quando o clima de derrota apenas se instalou nos últimos minutos de jogo na Copa do Mundo realizada no Brasil e o Uruguai marcou o gol decisivo da partida em 16 de julho de 1950, no segundo tempo, com gol de Ghiggia, fazendo 2 a 1.
O que provocou o silêncio em todo o Maracanã, com quase 200 mil presentes, foi a responsabilização individualizada de Moacyr Barbosa, que foi culpabilizado pela derrota, por parte da opinião pública nacional organizada e não organizada, como o maior culpado do “Maracanazo”-, como ficou conhecido o grande episódio futebolístico e a traumática decepção nacionalista brasileira (Ronaldo George Helal). O Silêncio do Maracanã foi de algumas horas, o silêncio imposto a Moacyr Barbosa durou a vida inteira.
O goleiro Moacyr Barbosa foi transformado em grande bode expiatório (René Girard) da trágica derrota e frustração brasileira, tornando-se, também, vítima de racismo e de todas as práticas possíveis de humilhação, discriminação e imposição de culpa. Em sua condição de negro, evidencia a virulência, persistência e duração dirigidas ao goleiro da seleção brasileira (a pena eterna e a destituição social, econômica e política interseccional). Tal condenação, mesmo hoje, diante da glória e da fama de Vini Junior, ainda é, de forma assombrosa, presente sobre a seleção brasileira, mesmo diante do paternalismo futebolístico em torno de Neymar.
De fato, esperamos sempre para perder a esperança no último minuto, eis o jeito de alguns brasileiros e brasileiras, entendido pelas visões racionalistas como loucura ou uso do futebol como alucinógeno. Mas isso não explica nada do que se assiste na cidade de Vitória e no Brasil.
Toda essa euforia move os lugares e quase todas as pessoas da cidade: um entusiasmo e otimismo voluntários — também estimulados e planejados — em torno do espírito de realização, da vitória e da conquista, aos quais podemos nos entregar, pois temos a possibilidade de ganhar, assim como alimentamos a crença coletiva na efetivação dessa certeza futebolística.
Nessa perspectiva, é justamente isso que move a cidade em verde e amarelo: um conhecimento compartilhado mínimo que lhe garante a certeza da possibilidade de êxito da seleção brasileira, mesmo com ela atravessada pelas forças do mercado — espontaneidade ou planejamento, talento ou relações de poder, lazer ou entretenimento, acumulação ou alegria, paixão ou profissão.
Todas essas qualidades, de consciência pública e coletiva, permitem a todas as pessoas se lançarem no sonho da Copa e na possibilidade da vitória do Brasil. Mesmo com o espírito pessimista e crítico do brasileiro, a grande maioria se percebe e se vê, sem se preocupar com hierarquia, como quem treina e joga: há o desejo coletivo de opinar e se fazer participante.
Uma prática social brasileira que assustou Carlo Ancelotti, certamente, e que aborreceu tantos outros técnicos da seleção: a opinião pública futebolística, direta, apaixonada, rebelde e indiscreta. Talvez seja, por isso, que ele tenha postado às vésperas da abertura da Copa, no dia 12/06, sexta-feira: “é uma responsabilidade e uma honra estrear em uma Copa comandando o Brasil”. “Vamos viver esse momento com alegria e entusiasmo, porque é um capítulo muito especial da minha história”. “Vamos, Brasil!” (@MrAncelotti)
Enfim, independentemente do processo de elitização, da falta de transparência e da homogeneização, o futebol continua sendo um esporte que aprendemos a ver, a jogar e a nos envolver coletivamente. As Copas, influenciadas pelas forças de mercado, continuam a evidenciar a força dessa aposta interpretativa, que se encanta com a cidade de Vitória, repleta de alegria e entusiasmo pelo futebol. Por isso, sempre diante do futebol e dos grandes eventos, persiste a grande pergunta a quem observa e se recusa a ser apenas parte do jogo ou público: “O que está se passando ali?”, “O que significa isso?” E “O que, realmente, está em jogo nesses jogos esportivos?”
Com isso, apesar de todos os interesses econômicos, financeiros e políticos em torno do futebol e dos jogos da Copa, não se pode minimizar a participação voluntária e afetiva das pessoas e dos grupos sociais. Essa mobilização se vê na cidade de Vitória, na região metropolitana de Vitória-ES (Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Viana, Guarapari e Fundão) e em todo o estado do Espírito Santo. Diante da raridade e da excepcionalidade do que acontece e irá acontecer, essa energia converge em uma grande celebração coletiva que pode fazer de toda a gente grandes testemunhas da história — a história da conquista do Hexacampeonato.
Festa, testemunho, excelência esportiva e espírito de parceria e colaboração. O grande desejo de ver o Brasil e seus jogadores preferidos campeões, mesmo depois de cinco campeonatos comemorados. Está tudo preparado para segunda-feira. Vitória-ES segue mobilizada; as apostas começaram e cada segundo conta até as 14h do dia 29 de junho de 2026.
Para encerrarmos, não podemos deixar de comentar algumas ambiguidades sobre a Copa para efeitos de registro ético, político e social. A Copa produz festa, mas também gera conta a pagar, e os problemas e os desafios se manifestam em várias frentes. No campo econômico, há o custo bilionário com estádios que viram, muitas vezes, “elefantes brancos”, remoções e gentrificação para obras de embelezamento, e o eterno debate entre dinheiro público na Copa e a falta dele na saúde, educação e transporte. Esse, infelizmente, é um tema que nunca passa!
No campo social e trabalhista, pesam as jornadas exaustivas nas obras, os casos de violência e de abuso de autoridade, o aumento do risco de exploração laboral e sexual e de tráficos em cidades-sede. Politicamente, marcam a história os escândalos de corrupção na FIFA, a dependência das marcas, as interferências das empresas de tecnologia e inovação, a perda de soberania imposta pela “Lei Geral da Copa” e o uso do evento como sportswashing por países com histórico de violação de direitos (Inside FIFA (site oficial): https://inside.fifa.com).
Além disso, no plano esportivo e cultural, o futebol se transforma em produto caro e padronizado, com cidades homogeneizadas, e a torcida comum, em grande maioria, fica excluída do estádio. Enquanto no Brasil a cobrança pelo “hexa” alimenta uma pressão psicológica e um drama coletivo que parece retomar a Copa de 1950, em que vencer a qualquer preço é a grande ordem coletiva dominante e desejo nacional.
Somam-se ainda os impactos ambientais, dimensão que a Copa de 2026 acentua de forma inédita na história do torneio, segundo organizações ambientais e pesquisadores críticos dos megaeventos esportivos. Segundo análise da Carbon Market Watch (2024), as emissões estimadas para esta edição situam-se entre 7,8 milhões e 9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, mais que o dobro do valor de 3,6 milhões de toneladas alegado pela FIFA para o Catar em 2022, cifra contestada por auditores independentes, entre eles o New Climate Institute. O principal vetor desse crescimento são as viagens aéreas, que podem responder por até 87% do total de emissões do torneio, decorrência direta da logística de 16 cidades-sede distribuídas por três países, com deslocamentos que podem superar 4.000 quilômetros entre uma partida e outra.
Esse modelo de Copa geograficamente dispersa contrasta estruturalmente com a concentração de estádios adotada em 2022. Ele transforma a promessa de “neutralidade de carbono” — anunciada pela FIFA como compromisso institucional — em uma meta de credibilidade cada vez mais questionável. Isso é o que apontam organizações como a Carbon Market Watch, a Global Witness e o New Climate Institute. A isso se somam as emissões digitais, sistematicamente desconsideradas pela FIFA nos seus relatórios de sustentabilidade: a pegada de carbono das transmissões ao vivo e dos data centers que sustentam o consumo global do evento representa uma externalidade crescente e ainda sem contabilização oficial nos documentos da entidade.
Agrava ainda esse quadro o fato de a FIFA manter parcerias comerciais ativas com grandes emissores corporativos de gases de efeito estufa, entre eles empresas do setor de petróleo, gás e aviação, o que coloca em dúvida não apenas a eficácia, mas a seriedade do compromisso climático da entidade, aproximando-a do que a literatura especializada denomina greenwashing. Tudo isso ocorre em um contexto em que a literatura científica — do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) ao conceito de Antropoceno, cunhado por Paul Crutzen e Eugene Stoermer em 2000 — já não deixa margem para a retórica de compensação voluntária como substituto de redução real de emissões (Carbon Market Watch, Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC, 2023; Paul J. Crutzen&Eugene F. Stoermer).
Ainda assim, existe o contraponto à defesa política e econômica dos grandes eventos globais: a Copa gera emprego, turismo, infraestrutura e visibilidade, mantendo aceso o debate entre custo e benefício, que explica por que, mesmo diante de todos os dilemas e questões, as cidades se pintam de verde e amarelo e parte da população segue acreditando na vitória, especialmente no Brasil.
A quem lê este texto e chegou até aqui, apenas posso afirmar que não se trata de alienação, esquizofrenia ou falta de informação — sabemos, em diversos níveis, o que acontece entre nós —, mas de um desejo coletivo, individual e pessoal de fazer parte de uma história de vitória, de conquista e de sucesso.
Assim como de pertencer e de se fazer presente em um roteiro e em uma narrativa compartilhados, de uma vontade coletiva, afetiva e racional de ver a si mesmo na seleção que não representa apenas uma federação ou um país formal, mas os homens e as mulheres que se compreendem como brasileiros e se percebem com direito a, pelo menos por um segundo, vencer e ser campeão sob condições, saberes e técnicas que garantam, de certa forma, a igualdade de oportunidades e de saberes tão defendida ao longo da história republicana brasileira.
Com tudo isso, ser parte da história é o que movimenta as cidades e a população brasileira na segunda-feira, levando-os a encontrar um tempo para participar da festa nacional, gritar a cada lance e a cada gol perdido e se emocionar com o possível — e com cada gol brasileiro, dando materialidade à comunidade sensível, estética e afetiva que Michel Maffesoli categoriza como “comunidade emocional”. Não estamos diante de uma multidão informe, irracional, alienada e homogênea, mas da “tribalização” em torno da afirmação do “estar juntos”, revelando, nesse caso, o festivo, comunitário e emotivo da adesão coletiva, como também pode revelar o seu contrário, tais como as rivalidades, as guerras e violências coletivas.







