11 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Porto Rico e sua relação com os Estados Unidos

Com 8,9 mil quilômetros quadrados, uma área equivalente a uma vez e meia o Distrito Federal, a ilha de Porto Rico — terra natal do artista Bad Bunny — vive uma condição política indefinida.

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Oficialmente, é um território dos Estados Unidos localizado no Caribe, com cerca de 3,2 milhões de habitantes, onde predominam a língua espanhola e a herança cultural latino-americana.

Embora os porto-riquenhos possam circular livremente pelos EUA e eleger seu governador, Porto Rico não é um estado norte-americano. Por isso, seus eleitores não participam das eleições presidenciais e não têm representação com direito a voto no Congresso dos Estados Unidos.

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Ao mesmo tempo, Porto Rico deve acatar as leis federais do país, seus habitantes servem nas Forças Armadas dos EUA e o território abriga bases militares de Washington, mas não toma parte nas relações internacionais.

Essa situação leva especialistas e grupos políticos a enxergarem a ilha como uma colônia de Washington, e não como um “Estado livre associado”, termo usado formalmente para descrever a condição jurídico-política desse território latino que integra os EUA.

Para as Nações Unidas (ONU), a autonomia administrativa existente impede que Porto Rico seja classificado como uma colônia clássica, conforme explicou à reportagem o professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB), Gustavo Menon.

O especialista em América Latina, no entanto, avalia que a ilha caribenha, mesmo possuindo certos mecanismos de autogoverno, continua subordinada às decisões de Washington sem usufruir de todos os direitos dos demais residentes dos EUA. Gustavo Menon define isso como uma forma de colônia dos Estados Unidos, ainda que com soberania administrativa limitada.

“Os porto-riquenhos não votam para presidente, não têm representação política no Congresso dos EUA, mas estão sujeitos às leis federais e às decisões de Washington, sendo frequentemente descritos como uma verdadeira colônia. É um resquício neocolonial que persiste nesta primeira metade do século 21”, concluiu o especialista.

Localização de Porto Rico no mapa das AméricasBad Bunny no Super Bowl

Neste domingo (9), Bad Bunny, um dos artistas mais renomados do mundo, fez o show do intervalo do Super Bowl em São Francisco, EUA, marcando a primeira vez que o evento teve uma apresentação majoritariamente em espanhol. Em sua performance, o cantor celebrou as culturas latino-americanas dos imigrantes.

O Super Bowl é a partida anual que decide o campeão da principal liga de futebol americano dos EUA. O evento tradicionalmente atrai a maior audiência televisiva do país, reunindo dezenas de milhões de espectadores.

Reconhecido por suas críticas à política anti-imigração do ex-presidente dos EUA Donald Trump, o porto-riquenho Bad Bunny usou no espetáculo o slogan “Deus abençoe a América”, presente nas notas de dólar, para depois enumerar todos os países latino-americanos, estendendo assim a bênção a todas as nações das Américas.

Bandeiras de Porto Rico, Cuba, Brasil, Venezuela e de todos os países das Américas foram agitadas no estádio ao lado da bandeira estadunidense. A apresentação de Bad Bunny desagradou o ex-presidente Donald Trump, que a classificou como “absolutamente terrível”.

“Não faz sentido algum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência. Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é repugnante”, afirmou Trump em uma rede social.

Porto Rico e Havaí

A música de Bad Bunny se destaca pela defesa da cultura latina de Porto Rico e pela denúncia da influência dos EUA na ilha. Em uma canção apresentada no Super Bowl, Bad Bunny cita o exemplo do Havaí, que se tornou um estado dos EUA, mas que, segundo ele, teria perdido sua identidade indígena original.

“Eles querem tirar meu rio e minha praia também. Eles querem meu bairro e que a vovó vá embora. Não, não solte a bandeira nem se esqueça do lelolai [técnica vocal da música folclórica porto-riquenha]. Porque eu não quero que façam com vocês o que aconteceu com o Havaí”, diz a letra do cantor.

De colônia espanhola a território dos EUA

Com o declínio do Império Espanhol e as guerras de independência na América Latina ao longo do século XIX, o governo de Madri chegou ao final daquele século mantendo apenas Cuba e Porto Rico como colônias na região.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos emergiam como uma nova potência global. A guerra hispano-americana, travada entre EUA e Espanha em 1898, resultou na expulsão dos espanhóis de seus últimos territórios no continente.

Assim, Porto Rico, Cuba e Filipinas passaram a ser colônias dos EUA. Em 1917, os porto-riquenhos obtiveram a cidadania estadunidense. Em 1952, a ilha adquiriu um novo status político ao se tornar um Estado Livre Associado, conquistando autonomia administrativa interna.

O professor Gustavo Menon complementou que, para a elite política de Washington, o território é um “protetorado” dos EUA. Ele lembra que Porto Rico nunca foi independente e avalia que Bad Bunny exerce uma espécie de soft power, termo que se refere a uma influência política “branda”, geralmente no campo simbólico.

“É por isso que, nessas representações artísticas, do ponto de vista do soft power, há uma tentativa de Porto Rico de se associar às mais de 30 nações latino-americanas. Cada vez mais Porto Rico vem sendo uma pedra no sapato para o governo de Donald Trump”, completou.

Posição da ONU

A Ilha de Porto Rico não consta atualmente na lista de “Territórios Não Autônomos” da ONU, o que significa que a Assembleia Geral da ONU e o direito internacional não consideram o território uma colônia formal desde 1952, quando foi declarado “Estado Livre Associado”.

No total, a ONU reconhece 17 colônias, muitas no Caribe, como Bermudas, Ilhas Virgens Britânicas e Ilhas Cayman, sob controle do Reino Unido, além das Malvinas (Ilhas Falkland), também sob administração britânica, mas reivindicadas pela Argentina.

Por outro lado, o Comitê Especial sobre Descolonização da ONU, um órgão independente, tem classificado Porto Rico como um caso de “situação colonial”. O relator especial do Comitê, Koussay Aldahhak, em relatório divulgado em março de 2025, afirma que a dominação colonial é exercida mediante a imposição de uma estrutura de governo civil sob leis adotadas nos EUA.

“A dominação tem sido exercida e continua a ser exercida através da subordinação às disposições da Constituição dos Estados Unidos. O chamado autogoverno do Estado Livre Associado, incluindo os processos eleitorais, é controlado pelas disposições da Constituição dos Estados Unidos e pelas decisões tomadas pelo Congresso dos Estados Unidos no exercício da soberania sobre Porto Rico”, explicou o especialista da ONU.

Ainda de acordo com Aldahhak, o estabelecimento do governo constitucional em Porto Rico na década de 1950 manteve a autoridade dos EUA sobre a ilha caribenha.

“O Congresso dos EUA detém plenos poderes sobre Porto Rico, inclusive nas áreas de defesa, relações internacionais, comércio exterior, assuntos monetários e outros, enquanto a ilha detém autoridade local sobre um número limitado de áreas designadas”, diz o informe.

Referendos de Porto Rico

A ilha caribenha de Porto Rico realizou sete referendos de natureza consultiva desde 1967 para sondar a opinião pública sobre o status político do território.

Na última consulta, em 2024, 58% dos votantes optaram pela transformação em um estado dos EUA, 29% escolheram o status de “livre associação com os EUA” e 11% votaram pela independência política.

No referendo anterior, de 2020, os eleitores tiveram de escolher entre ser a favor ou contra a anexação de Porto Rico como Estado dos EUA, com 52% votando a favor de se tornar um estado, e 47% votando contra.

As consultas populares em Porto Rico não produzem efeitos práticos, pois não são reconhecidas como vinculantes pelo Congresso norte-americano. Elas servem apenas para conhecer a posição dos habitantes da ilha sobre seu status legal, mas são frequentemente questionadas devido à baixa participação ou ao formato das perguntas apresentadas à população.

Por Agência Brasil

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