O Caminho dos Santos Mártires marcará presença na 8ª edição do Fórum Nacional de Turismo Religioso, evento programado entre os dias 24 e 26 de novembro na cidade de Congonhas, em Minas Gerais. A participação desse roteiro, no entanto, ganha destaque por um motivo que ultrapassa a simples divulgação do destino: sua ida ao encontro será custeada unicamente por aportes da iniciativa privada.
Esse cenário reaviva um debate significativo acerca do Turismo Religioso no Rio Grande do Norte. Apesar de o estado ser reconhecido como aquele com o maior número de leis dedicadas ao setor em todo o país, o protagonismo institucional por parte da gestão pública ainda não reflete o imenso potencial que seu território oferece.
Enquanto diversos estados e municípios aproveitam eventos nacionais para exibir seus destinos, atrair visitantes, firmar parcerias e consolidar a governança turística, o Rio Grande do Norte, mais uma vez, ficará de fora da participação institucional da gestão pública estadual e da maioria das cidades com aptidão para o Turismo Religioso.
O principal palco do Turismo Religioso brasileiro
Mais que um congresso, o Fórum Nacional de Turismo Religioso se firmou como o mais relevante ambiente brasileiro inteiramente voltado ao segmento. A edição de 2026 reunirá representantes da Igreja, reitores de santuários, gestores públicos, empresários, pesquisadores, universidades, guias de turismo, operadoras, agências de viagens e profissionais do trade turístico em um espaço dedicado à governança, capacitação e geração de negócios. O evento ainda contará com área de exposição, apresentações de destinos, rodada de negócios e a elaboração da Carta Magna de Congonhas para o Turismo Religioso.
Reconhecido como o único evento nacional com foco exclusivo no Turismo Religioso, o Fórum também agrega instituições públicas e privadas para debater estratégias de desenvolvimento do setor, fortalecendo políticas públicas e conectando destinos aos mercados emissores.
É precisamente nesse contexto que o Caminho dos Santos Mártires representará o Rio Grande do Norte.
Quando a iniciativa privada assume o protagonismo
A ida do roteiro a Congonhas evidencia o empenho da iniciativa privada na promoção do Turismo Religioso potiguar. Empresas parceiras entenderam que participar de um ambiente nacional de negócios significa divulgar o destino, ampliar sua visibilidade, criar contatos comerciais e fortalecer o roteiro junto às principais lideranças do setor no Brasil.
Simultaneamente, a ausência do poder público provoca uma reflexão inevitável. Se o Rio Grande do Norte possui um dos maiores patrimônios religiosos do Nordeste e o maior conjunto de leis voltadas ao Turismo Religioso do Brasil, por que continua distante dos principais foros onde o segmento é discutido e promovido?
Muitas leis, poucos resultados práticos
Nos últimos anos, o Rio Grande do Norte aprovou diversas legislações relacionadas ao turismo religioso. Entre elas está a Lei Estadual nº 12.748/2026, que instituiu oficialmente o Caminho dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu no âmbito estadual. Também faz parte desse conjunto a Lei da Rota da Fé, além de outras iniciativas legislativas voltadas ao fortalecimento do setor.
As leis representam políticas públicas relevantes. Todavia, permanecem alguns questionamentos. Quantas delas foram efetivamente implementadas? Quantos projetos estruturantes nasceram a partir dessas legislações? Quantos destinos receberam investimentos contínuos em promoção, qualificação, comercialização e governança? O turismo religioso exige planejamento constante. Leis são instrumentos importantes, mas, quando não acompanhadas por ações concretas, acabam gerando resultados limitados.
Um estado repleto de destinos de fé
O potencial do Rio Grande do Norte vai muito além do Caminho dos Santos Mártires. O estado abriga a imponente imagem do Santuário de Santa Rita de Cássia, um dos maiores monumentos católicos do mundo e importante centro de peregrinação no Nordeste. Na Serra do Lima encontra-se o Santuário de Nossa Senhora dos Impossíveis, que recebe milhares de romeiros durante todo o ano. Em Carnaúba dos Dantas, o Monte do Galo mantém viva uma das mais tradicionais romarias do estado. A capital, Natal, reúne um importante conjunto de igrejas históricas que narram parte significativa da formação religiosa potiguar.
O estado também acompanha a construção de uma réplica da Capela das Aparições de Fátima, iniciativa que deverá ampliar ainda mais a oferta de atrativos religiosos para peregrinos e visitantes. Somam-se ainda dezenas de festas de padroeiros, romarias, santuários, monumentos religiosos, patrimônios históricos e manifestações de fé distribuídas por todas as regiões do estado.
O Caminho dos Santos Mártires nasceu antes da lei
Outro aspecto que merece atenção é a própria origem do Caminho dos Santos Mártires. Muito antes da instituição oficial por meio de legislação estadual, o roteiro já vinha sendo estruturado desde 2021 graças ao protagonismo de lideranças leigas, pesquisadores, profissionais do turismo e instituições comprometidas com a valorização da história dos Protomártires do Brasil. A legislação veio reconhecer oficialmente uma iniciativa que já estava em construção e que agora busca consolidar-se como um dos principais roteiros de peregrinação do Nordeste.
O desafio continua sendo a governança
Participar do Fórum Nacional de Turismo Religioso significa muito mais do que ocupar um estande. É estar presente no ambiente onde se discutem políticas públicas, tendências de mercado, qualificação profissional, comercialização de roteiros, integração entre destinos e fortalecimento da governança turística. É justamente essa ausência que desperta preocupação. Se o Rio Grande do Norte possui uma das maiores riquezas religiosas do Brasil, por que seus destinos ainda participam tão pouco dos espaços onde o futuro do setor está sendo construído?
Essa pergunta não representa uma crítica ao patrimônio religioso potiguar, muito menos às comunidades de fé que mantêm viva essa tradição. É um convite à reflexão. Porque turismo religioso não se fortalece apenas com leis. Fortalece-se com presença, planejamento, promoção, governança, qualificação e participação.
Neste ano, graças ao apoio da iniciativa privada, o Caminho dos Santos Mártires levará o nome do Rio Grande do Norte ao principal evento de Turismo Religioso do Brasil. Talvez seja o momento de transformar essa participação em inspiração para que, nos próximos anos, todo o potencial religioso potiguar esteja representado de forma institucional, permanente e estratégica, ocupando o espaço que, pela riqueza de sua fé e de seu patrimônio, já deveria ocupar há muito tempo.






