A busca por experiências mais genuínas e o cansaço com os destinos tradicionais estão transformando os hábitos dos viajantes no Brasil. Dados do Ministério do Turismo mostram um aumento constante nas viagens para municípios de pequeno e médio porte, especialmente os ligados à cultura, à natureza e à produção regional. Esse comportamento reflete uma tendência mundial, o slow travel – ou “turismo lento” –, que valoriza estadias mais longas, interações pessoais e um menor impacto ambiental.
Estudos da Embratur e do Sebrae indicam que locais fora dos circuitos tradicionais tiveram um crescimento de até 32% na demanda nos últimos dois anos. Esse movimento é impulsionado por turistas que desejam vivências menos comerciais, uma conexão mais profunda com o local e a emoção de descobrir algo novo.
Para a consultora de turismo Santuza Macedo, diretora da Diamond Viagens, esse é um fenômeno que altera a base do setor. “O viajante não busca mais apenas os marcos famosos. Ele quer compreender o destino, conhecer os produtores e moradores, vivenciar o cotidiano local. Isso transforma completamente a lógica dos pacotes e valoriza áreas que sempre existiram, mas nunca foram o foco da oferta turística”, avalia.
Sul Fluminense ganha destaque com turismo ligado à produção e identidade local
No estado do Rio de Janeiro, a região do Sul Fluminense se consolida como um dos casos mais expressivos dessa nova modalidade. A área, historicamente ligada à indústria, agora se destaca por seus roteiros rurais, artesanato e pelas paisagens preservadas da Serra da Mantiqueira.
Entre as principais atrações estão circuitos como a Rota do Café, que recupera fazendas antigas, pequenos agricultores e técnicas tradicionais de torrefação; a Rota do Queijo, com queijarias familiares e produções autorais; e a ainda incipiente cadeia da macadâmia, que se estabelece na região com cultivo sustentável e visitas monitoradas.
“O Sul Fluminense possui um valor singular: produção ativa, história autêntica e escala próxima. Quando organizamos passeios, o objetivo não é simplesmente transportar pessoas, mas revelar o território com sua história, mostrando o que é produzido, as razões por trás daquela produção e seu efeito na economia local”, detalha Santuza, que também atua na criação de roteiros e excursões na região.
Segundo ela, o grande atrativo está na seleção cuidadosa das experiências. “O turista encontra propriedades em funcionamento, produtores no local, comida preparada na hora. Não é uma simulação. É uma experiência real.”
Norte e Nordeste apresentam destinos pouco convencionais
Na região Norte do Brasil, locais como a área do Tapajós, no Pará, e comunidades ribeirinhas no Amazonas passam a receber visitantes interessados em turismo de base comunitária. Números do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade mostram maior fluxo de pessoas em unidades de conservação com gestão local, onde a atividade turística gera renda diretamente para os habitantes.
No Nordeste, o interior do Piauí, particularmente áreas próximas ao Parque Nacional da Serra da Capivara, une sítios arqueológicos, belezas naturais e turismo científico. Enquanto isso, no sertão pernambucano, municípios de pequeno porte investem em cultura, gastronomia típica e hospedagem em casas de família, distanciando-se do litoral superlotado.
“O Nordeste possui muito mais do que belas praias. Existe uma riqueza cultural e histórica no interior que está sendo redescoberta por quem busca viagens com mais significado”, observa Santuza.
Centro-Oeste e Sudeste focam em contato com a natureza e tranquilidade
No Centro-Oeste, áreas do Pantanal fora da alta temporada e partes menos visitadas da Chapada dos Veadeiros atraem viajantes em busca de observação de animais, trilhas e quietude. Conforme a Secretaria de Turismo de Goiás, cidades menores ao redor da Chapada tiveram alta significativa na ocupação de pousadas independentes.
No Sudeste, além do Sul Fluminense, municípios da Serra da Mantiqueira em Minas Gerais e São Paulo se fortalecem com o turismo gastronômico, caminhadas e experiências de relaxamento.
Sul fortalece enoturismo e turismo rural
Na região Sul, para além do consagrado Vale dos Vinhedos, pequenos circuitos no interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina começam a chamar a atenção de quem se interessa por vinícolas familiares, fabricação de azeite e estadias no campo. O turismo de vivência responde atualmente por uma fatia cada vez maior da receita do setor na região, de acordo com o Observatório do Turismo do RS.
Excursões atuam como introdução a novos lugares
Na visão de Santuza Macedo, os passeios organizados desempenham um papel importante nessa nova fase, sobretudo para quem quer explorar destinos incomuns sem se preocupar com o planejamento da viagem.
“Muitas pessoas desejam fugir do óbvio, mas não sabem como dar o primeiro passo. Uma excursão bem planejada traz confiança, entendimento e acesso a locais que o turista isolado provavelmente não descobriria. É uma maneira de tornar o turismo de descoberta mais acessível”, esclarece.
Ela ressalta que, diferente do modelo antigo, as excursões atuais focam em grupos reduzidos, ritmo tranquilo e vivências locais, distantes do turismo de massa.
Um panorama renovado para o turismo nacional
A ascensão de destinos menos explorados indica uma mudança mais profunda na forma de viajar. O Brasil, com sua imensa variedade territorial e cultural, começa a ser percebido não só como um país de grandes pontos turísticos, mas como um conjunto diverso de experiências a serem vividas.
“Viajar deixou de ser sobre colecionar visitas. Tornou-se uma forma de compreender regiões. E isso transforma completamente a experiência”, conclui Santuza Macedo.







