A fabricante de semicondutores Micron reportou um crescimento de aproximadamente 15 vezes em seus lucros trimestrais, levando suas ações — que representam uma empresa avaliada em US$ 1,3 trilhão (R$ 6,7 trilhões) — a disparar e impulsionar os mercados internacionais na última quinta-feira (25).
A companhia norte-americana revelou que seu lucro líquido subiu para US$ 28,2 bilhões (R$ 144,7 bilhões) no trimestre fiscal finalizado em 28 de maio, contra US$ 1,9 bilhão (R$ 9,8 bilhões) no mesmo intervalo do ano passado, superando as expectativas de Wall Street em aproximadamente US$ 4 bilhões (R$ 20,6 bilhões), impulsionado pela expansão de suas margens de receita.
Os números favoráveis provocaram uma alta de mais de 16% nas ações da Micron na Bolsa de Nova York na tarde de quinta-feira, levando seu valor de mercado a aproximadamente US$ 1,4 trilhão (R$ 7,2 trilhões) e revertendo as perdas registradas em uma realização de lucros em Wall Street no início da semana.
Os resultados excepcionais da Micron destacam como a falta de chips de memória — largamente empregados em servidores que treinam e hospedam os principais modelos de inteligência artificial — elevou seus preços a níveis elevados.
A empresa comunicou que suas receitas saltaram quase 350%, atingindo US$ 41,5 bilhões (R$ 214,5 bilhões) no trimestre encerrado em maio, enquanto estimou vendas para o trimestre corrente em torno de US$ 50 bilhões (R$ 258,4 bilhões), bem acima da projeção dos analistas da Visible Alpha, que era de US$ 43,7 bilhões (R$ 225,8 bilhões).
Esses movimentos acontecem depois de um período de forte volatilidade nos papéis das empresas de chips, que sofreram oscilações nas últimas semanas, após terem liderado a valorização das principais ações de Wall Street na maior parte de 2026.
Escassez de memória e gargalo em IA
Os preços das memórias subiram de forma significativa neste ano, uma vez que esses componentes se transformaram em um gargalo na construção de data centers de inteligência artificial. Chips de empresas como Nvidia e AMD demandam memória de alta largura de banda, fabricada por um número reduzido de companhias — entre elas a Micron — para suportar as cargas de trabalho intensivas necessárias ao treinamento e à execução dos principais modelos de IA.
Refletindo os elevados prêmios que a Micron consegue praticar diante da escassez global de oferta, sua margem bruta ajustada saltou para 84,9% no trimestre de maio, ante 39% no mesmo período do ano anterior. Para o trimestre atual, a Micron projeta que essas margens subam ainda mais, alcançando 86% — aproximadamente um ponto percentual acima da previsão dos analistas.
Manish Bhatia, vice-presidente executivo de operações globais da Micron, afirmou: “A Nvidia identificou seu momento de IA há alguns anos, com suas unidades de processamento gráfico. Hoje, a memória nunca foi um componente tão valioso dentro da pilha de computação.”
Acordos estratégicos e contratos de longo prazo
Em uma alteração na maneira como os contratos de fornecimento de memória eram tradicionalmente negociados, a Micron assegurou 16 “acordos estratégicos” de longo prazo com alguns de seus principais clientes. Pela primeira vez, esses acordos incluem pagamentos antecipados da ordem de bilhões de dólares para garantir o abastecimento.
Esses pagamentos, que envolvem tanto clientes de data centers de IA quanto de eletrônicos de consumo, garantiram contratos com duração de três a cinco anos e foram classificados como depósitos, sendo reembolsados gradualmente, conforme explicou Bhatia. Segundo ele, isso proporcionou à Micron uma visibilidade mais ampla sobre a demanda ao longo do tempo.
A empresa norte-americana de chips, que divide o domínio do mercado global de memórias com a sul-coreana SK Hynix e a Samsung, surgiu como uma das maiores beneficiárias do forte fluxo de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial. Quatro gigantes da tecnologia — Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet (controladora do Google) — devem desembolsar juntos US$ 725 bilhões (R$ 3,7 trilhões) em infraestrutura de IA neste ano.
Na quarta-feira, a SK Hynix comunicou que planejava captar US$ 29 bilhões (R$ 149,8 bilhões) por meio de uma oferta pública inicial nos Estados Unidos. Suas ações subiram até 12% em Seul na quinta-feira, ampliando o ganho acumulado no ano para mais de 300%.
As três companhias de semicondutores ultrapassaram US$ 1 trilhão (R$ 5,1 trilhões) em valor de mercado neste ano.
Dec Mullarkey, diretor-gerente da gestora de ativos SLC Management, comentou: “Os números devem contribuir para afastar o pessimismo que afetou as companhias sul-coreanas de chips no começo da semana. Esse desempenho robusto da Micron tende a estabilizar as perspectivas para o setor de hardware como um todo.”
O índice de semicondutores da Filadélfia, que monitora 30 das maiores empresas de chips listadas nos Estados Unidos, acumula alta de quase 90% desde o início de 2026, a despeito das flutuações recentes.
A falta de memória gerou um efeito dominó sobre os chips de consumo mais convencionais, uma vez que os grandes fabricantes estão direcionando novas linhas de produção para memória avançada de alta largura de banda destinada a data centers.
Na semana anterior, o CEO da Apple, Tim Cook, advertiu que a escassez sem precedentes obrigaria a companhia a elevar os preços de seus produtos.
A Micron obteve mais de US$ 6 bilhões (R$ 31 bilhões) em subsídios diretos do governo dos Estados Unidos para manufatura, no âmbito da Lei de Chips de 2022, com o objetivo de apoiar seus investimentos em novas unidades fabris.
No mês passado, a companhia recebeu o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, e outras autoridades americanas em um evento na Virgínia, por ocasião do início da produção de alguns de seus chips de memória mais avançados em sua unidade em Manassas.






