Omar Yaghi, imigrante nos Estados Unidos e laureado com o Prêmio Nobel de Química no ano anterior, abandonou sua posição de professor na Universidade da Califórnia, Berkeley, para ocupar um novo posto na China. Nesse cargo, ele comandará um instituto que utiliza inteligência artificial para agilizar a descoberta de novos materiais.
A decisão de Yaghi ocorre em meio às frequentes interrupções promovidas pelo governo de Donald Trump no financiamento à ciência nos EUA e à estratégia chinesa de atrair cientistas estrangeiros com investimentos generosos.
Neste mês, a Universidade Tsinghua, em Pequim, celebrou a chegada de Yaghi em uma solenidade de nomeação, classificando-o como um dos químicos mais influentes do mundo. A universidade destacou que ele vê seu novo desafio como uma oportunidade “não para desacelerar, não para repetir o que já foi feito, mas para fazer ciência com mais energia, mais intensidade e mais ambição do que nunca”.
“A China está ampliando seus investimentos em ciência como um todo, inclusive em química”, afirmou Alessandra Zimmermann, analista de orçamento da Associação Americana para o Avanço da Ciência, entidade científica sediada em Washington, DC.
As melhores métricas de desempenho científico, acrescentou ela, indicam que a China “tem superado os EUA em artigos de alto impacto na área de química”.
No ano passado, três dos seis vencedores americanos do Prêmio Nobel de ciências eram estrangeiros natos. Neste século, a proporção de imigrantes entre os laureados norte-americanos com o Nobel de física, química e medicina atinge 40%.
Em entrevista, Ram Seshadri, professor de química e ciência dos materiais na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, declarou que a saída de Yaghi para a China evidencia uma dinâmica crescente entre os dois países. “Eles nos ultrapassaram em diversas áreas da ciência dos materiais e da química”, disse ele, referindo-se à China. “Eles estão dispostos a destinar montantes muito elevados para recrutar novos talentos.”
A ciência dos materiais, uma subárea da química, impulsiona muitas das inovações que moldam a vida contemporânea, desde os chips de silício em smartphones até as fibras de carbono em bicicletas de corrida e os biomateriais usados em implantes médicos. Por sua natureza, é um campo interdisciplinar que estuda a relação entre a estrutura dos materiais em escala atômica ou molecular e suas propriedades macroscópicas.
Yaghi nasceu em Amã, capital da Jordânia. Filho de refugiados palestinos, ele cresceu em uma casa de um cômodo, sem eletricidade nem água encanada. Desde jovem, fascinou-se pela representação de blocos de construção atômicos em um livro escolar. Aos 15 anos, seu pai, um açougueiro, o enviou para os Estados Unidos.
No ano passado, antes de viajar a Estocolmo para receber o Prêmio Nobel, Yaghi, em entrevista ao The New York Times, manifestou preocupação com as políticas de imigração do presidente Donald Trump, afirmando que elas ameaçam o sistema nacional de universidades, empresas e governos que promovem a excelência científica.
“Acho lamentável”, disse ele sobre o nacionalismo de Trump.
“Precisamos reconhecer que pessoas de origens diversas elevam o nível para todos os envolvidos”, completou. “Essa é uma história incrível. Grandes pensadores podem melhorar não apenas os EUA, mas o mundo inteiro.”
O Prêmio Nobel
Yaghi ingressou na Universidade da Califórnia, Berkeley, em 2012, e durante sua trajetória na instituição recebeu diversas distinções por suas contribuições científicas.
Ele foi agraciado com o Prêmio Nobel por sua contribuição à descoberta de um mundo químico no qual blocos moleculares são montados em estruturas dotadas de enormes áreas de superfície interna — as maiores já registradas em qualquer substância conhecida. Essas estruturas porosas funcionam como esponjas, absorvendo, armazenando e liberando gases e vapores com facilidade.
Ele as denominou estruturas metalorgânicas. Os átomos de metal formam uma estrutura ajustável que pode conter substâncias químicas associadas à vida — especialmente átomos de carbono. Embora profundamente teóricas, essas estruturas são tão radicais, inovadoras e flexíveis que especialistas em materiais e empresas preveem inúmeras aplicações comerciais para elas.
As estruturas podem, por exemplo, extrair água do ar em desertos. Em 2018, os alunos de Yaghi em Berkeley testaram a ideia no Deserto de Mojave, na Califórnia, e constataram que um pequeno coletor passivo podia produzir quase três xícaras de água pura e potável por dia. O dispositivo está agora próximo da comercialização.
Na entrevista ao NYT, Yaghi atribuiu a invenção aos seus esforços na infância para garantir água para sua família. Os canos da rede pública funcionavam apenas algumas horas a cada semana ou duas. Essa dificuldade, acrescentou, demonstra como as diversas experiências de imigrantes podem gerar descobertas inesperadas.
Yaghi mantém vínculos de longa data com a Universidade Tsinghua. Em 2022, a instituição de Pequim o nomeou professor honorário, função na qual acompanhou de perto o trabalho da universidade nas áreas de química, ciência dos materiais e disciplinas correlatas.
Agora, ao assumir um cargo em tempo integral na Tsinghua, Yaghi será o chefe de um novo instituto de IA para pesquisa científica, focado no projeto e na síntese de novos materiais.
O objetivo principal, segundo a universidade, é “superar os gargalos de eficiência das abordagens tradicionais de tentativa e erro” e encurtar os ciclos habituais de descoberta.







