Trump corta verbas da Nasa após sucesso da Artemis

Viagens ao espaço representam para a política dos Estados Unidos algo semelhante ao que a Copa do Mundo significa para o Brasil. Um presidente pode não ter relação direta com uma campanha vitoriosa, mas costuma se beneficiar do sentimento de união nacional que ela gera. O que especialistas discutem atualmente é se Donald Trump tem mérito para surfar na onda do sucesso da missão Artemis II enquanto busca reduzir o financiamento da Nasa.

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  • Investimento elevado: Enquanto o planeta acompanha a Artemis II, a China lidera a corrida científica na Terra.
  • Próximas etapas: Após a Artemis II, quando ocorrerá um novo pouso na Lua?

Antes mesmo do retorno dos astronautas do sobrevoo lunar, o primeiro em mais de cinco décadas, o presidente telefonou para a cápsula Orion na terça-feira e conversou por doze minutos, com as transmissões televisivas ao vivo. Ele aproveitou o momento para lembrá-los do convite para visitar a Casa Branca. Tudo isso faz parte do protocolo habitual, mas acontece poucos dias depois de Washington apresentar sua nova proposta orçamentária para a Nasa: uma redução de 23%. No ano anterior, o presidente já havia sugerido o mesmo corte, mas o Congresso o impediu. A batalha orçamentária no legislativo recomeça agora.

Caso a persistência de Trump prevaleça, a Nasa ficará com 18 bilhões de dólares em 2027, o que representaria seu orçamento mais baixo desde 1961, antes da corrida espacial contra a União Soviética.

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— Todo presidente gosta de se associar a marcos das viagens espaciais — esclarece Casey Dreier, analista da The Planetary Society, centro de pesquisas que monitora a política para astronomia e astronáutica. — O presidente Richard Nixon foi o ápice disso. Ele colocou apenas sua assinatura nas placas deixadas nos locais de pouso na Lua, mesmo com o programa Apollo tendo sido criado sob John F. Kennedy, e foi Nixon quem o cancelou posteriormente.

Durante a ligação com o presidente, os astronautas obtiveram um sucesso parcial em não demonstrar expressões de desconforto, enquanto ele os lembrava de que já havia considerado encerrar a agência espacial.

— No meu primeiro mandato, enfrentei uma decisão sobre o que fazer com a Nasa. Nós iríamos revitalizá-la ou fechá-la? E minha hesitação foi bem pequena — afirmou. — Mas nós investimos o que era necessário.

O sorriso amarelo dos astronautas durante a conversa ganha um contexto interessante também pelo perfil da tripulação. A Nasa enviou pela primeira vez uma mulher, um homem negro e um canadense em direção à Lua, contrastando com o programa Apollo, no qual todos os astronautas eram homens brancos americanos. A tripulação atual foi selecionada na administração de Joe Biden, em 2023, antes de Trump ordenar que a Nasa abandonasse as políticas de diversidade, equidade e inclusão.

O legado de programas anteriores

A diferença fundamental entre Trump e Nixon é que o atual presidente teve, de fato, responsabilidade para que a Artemis II ocorresse agora. Ele não foi o único, contudo, e deu um apoio irregular ao programa, mesmo com a ambição de estabelecer uma presença de longo prazo na Lua desta vez.

A espaçonave Orion era originalmente parte do programa Constellation, criado em 2004 durante a gestão de George W. Bush, que foi quem decidiu que os EUA deveriam retornar à Lua. A Nasa passava por uma crise de identidade na época, encerrando o programa dos ônibus espaciais após a perda de duas tripulações (a da Challenger, em 1986, e a da Columbia, em 2003). Esses veículos que faziam viagens de ida e volta para a Estação Espacial Internacional não cativavam o público como os astronautas da Apollo, e um retorno à Lua parecia mais interessante em termos midiáticos.

Quando Barack Obama assumiu a Presidência em 2008, porém, encontrou o Constellation atrasado e com o orçamento estourado. Sua decisão foi cancelar quase todas as divisões do programa, cortando inclusive o foguete de primeiro estágio, o gigante Ares. Foi mantida a verba para o desenvolvimento da Orion, a cápsula tripulada com os módulos para operação no espaço. E foi esta a espaçonave que pousou no Pacífico trazendo de volta os astronautas do sobrevoo lunar.

Com o corte do Ares, porém, Obama sofreu grande pressão de empresas e políticos nos estados que perderam contratos, e o Congresso articulou uma solução. Seria construído o Space Launch System (SLS), um foguete que se encaixava no orçamento, mas era potente o suficiente para escapar da influência da órbita terrestre.

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O novo veículo seria capaz de colocar a Orion no caminho da Lua, e foi este o modelo utilizado agora pela Artemis II para chegar lá. Obama, porém, tinha em mente um objetivo diferente para o conjunto SLS-Orion: um asteroide. Uma missão tripulada com destino inédito seria provavelmente mais desafiadora e mais distante, agradando a muitos cientistas da Nasa.

Trump assumiu a presidência em 2017, porém, e mudou o rumo. O republicano preferia um retorno à Lua, um objetivo mais alinhado com seu bordão de tornar os EUA grandiosos “de novo” e que era factível no período de dois mandatos presidenciais.

— Trump pode, sim, afirmar que ajudou a iniciar o Artemis em seu primeiro mandato, mas o programa foi conduzido por Biden, em uma das poucas áreas de acordo que as duas administrações tiveram em política espacial — diz Dreier. — O benefício político que Trump pode extrair disso, porém, seria mais o de uma mensagem positiva unificadora da nação do que o de afirmar que é uma realização exclusivamente sua.

Impactos do corte orçamentário

O corte proposto no orçamento da Nasa, porém, gera ruído até para essa reivindicação mais modesta. A tesoura deve afetar mais as divisões científicas do que as de astronáutica, mas não se sabe que impacto teria no futuro do programa Artemis, que tenta pousar uma tripulação na Lua ainda em 2028. Uma aterrissagem estava programada para a missão Artemis III, no ano que vem, mas foi adiada para a IV. Se o pouso ocorrer somente em 2029, Trump não estará mais na Casa Branca.

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O desafio atual é que a Nasa depende de uma entre duas empresas para atingir esse objetivo: a SpaceX, de Elon Musk, e a Blue Origin, de Jeff Bezos. Ambas tentam desenvolver módulos de aterrissagem lunar, que a Orion ainda não possui, e não está claro se conseguirão antes de o atual presidente deixar o cargo.

— A Nasa está pagando cerca de 2 bilhões de dólares por ano para cada empresa, o que é um valor considerável, mas não chega perto do que foi gasto com a Apollo, que consumiu 30 bilhões de dólares para desenvolver um módulo de pouso em seis anos — diz Dreier. — Isso foi há mais de 50 anos, mas é o único exemplo de sucesso que temos.

Musk e Bezos não deixaram claro se o contrato atual lhes renderá algum lucro ou prestígio, mas prometem finalizar o trabalho antes de 2030, prazo anunciado pela China para aterrissar seus astronautas na Lua.

Luís Loures, professor de engenharia aeroespacial no Instituto Tecnológico da Aeronáutica, afirma que há “complexidades” ainda a serem resolvidas.

— A solução do módulo Starship, que a SpaceX propõe, faz parte do conceito que chamam de ‘new space’, que busca diminuir os custos da atividade espacial. Ele já teve mais de dez lançamentos de teste, alguns com sucesso, outros não, e está em andamento — diz. — Particularmente, considero uma solução complexa para a missão, principalmente por causa do abastecimento de propelente criogênico em órbita terrestre para ir até a Lua. Isso é o que o painel de segurança da Nasa apresentou para a SpaceX.

A Blue Origin propôs um sistema mais simples, mas entrou na corrida depois. A ideia é que seu módulo Blue Moon seja usado na Artemis V, se o programa chegar até lá. Atrasos na SpaceX podem abrir um espaço para a concorrente antes, porém.

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Cientistas em pé de guerra

Além da incerteza sobre os prazos com que Musk ou Bezos conseguirão avançar, Trump se vê hoje em um clima velado de indisposição contra cientistas e astronautas da própria Nasa, que sofreu cortes ao longo de uma purga ideológica que afetou toda a estrutura federal de pesquisa, incluindo a Fundação Nacional de Ciências e os Institutos Nacionais de Saúde. Musk, contratado por Trump em 2025 para inaugurar o Departamento de Eficiência de Governo, ajudou a justificar os cortes de orçamento com demissões em áreas que julgava supérfluas, incluindo divisões científicas da Nasa para estudo da mudança climática.

Uma das semelhanças entre Trump e Nixon é que ambos buscaram cortar o orçamento da Nasa enquanto elevavam gastos militares para bancar guerras impopulares. Nos anos 1960 e 1970, o conflito em questão era o do Vietnã. Para sustentar a ação agora no Irã, a Casa Branca quer 1,5 trilhão de dólares no orçamento da Defesa, um aumento de 36%.

Segundo o grupo acadêmico ativista Union of Concerned Scientists, a tentativa de reduzir os recursos da Nasa não é uma coincidência.

“O governo Trump tentou repetidamente vender a ideia de que seus cortes orçamentários visam prevenir o desperdício, a fraude e o abuso, mas a nova proposta do presidente deixa evidente que os cortes em nossas instituições nacionais, incluindo a ciência, são na verdade feitos para aumentar os gastos com armamento e guerras”, escreveu Sean Manning, analista da instituição.

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