Em outubro de 2022, o historiador norte-americano Chris Miller lançou “Chip War”, livro que examina como os semicondutores se tornaram o recurso estratégico mais crucial do século XXI. Na época, a inteligência artificial ainda engatinhava, e o surgimento do ChatGPT um mês depois acabou ofuscando a repercussão da obra.
A publicação detalha como a fabricação de chips depende de uma cadeia de suprimentos global altamente especializada, controlada por um punhado de nações, como Estados Unidos, Taiwan, Japão e Coreia do Sul.
O salto da inteligência artificial
Em conversa com o NeoFeed, Miller reconhece que a principal mudança desde o lançamento do livro foi o investimento maciço em infraestrutura para IA, que cresceu desproporcionalmente nos últimos dois anos. Esse movimento ampliou ainda mais a distância entre os países produtores dessa base tecnológica e os demais.
No entanto, isso não significa que economias emergentes, como a brasileira, devam ficar de fora desse avanço. Segundo o historiador, o acesso aos chips e aos modelos de IA não será um obstáculo, graças à disponibilidade de modelos abertos e gratuitos. O verdadeiro desafio está em saber como aproveitar a inovação que essas ferramentas trazem.
“Implementar e usar inteligência artificial exige mudar a forma como empresas, organizações e governos conduzem seus negócios”, explica Miller, professor de história internacional na Tufts University. “Essa transição tende a ser lenta, mas é dela que, em última análise, virão os ganhos de produtividade, além do surgimento de novos produtos e mercados.”
A disputa pela hegemonia global
A rivalidade tecnológica entre Estados Unidos e China, tema central do livro, segue atual. Para Miller, porém, além dos semicondutores, energia e minerais críticos formam o tripé que definirá a próxima hegemonia mundial. A China ainda enfrenta defasagem justamente na área de chips, especialmente em comparação com Taiwan.
Ele ressalta que a TSMC, gigante taiwanesa do setor, deve fabricar este ano chips para IA em uma escala 30 vezes maior que toda a indústria chinesa. “Taiwan mostrou que existe um modelo competitivo em relação ao da China, capaz de produzir a tecnologia mais avançada — algo que os chineses não conseguem fazer sozinhos — e ainda garantir um padrão de vida melhor. Isso é constrangedor para a China”, comenta o historiador, que expressa preocupação com uma possível ofensiva militar chinesa contra a ilha no futuro.
A automação no campo de batalha
Miller também destaca que os avanços militares atuais se concentram no uso crescente de sistemas autônomos e de IA nos conflitos, como o emprego massivo de drones na guerra entre Rússia e Ucrânia, muitos dos quais já podem tomar decisões básicas sem intervenção humana.
Outra frente é o uso de inteligência artificial para análise de dados, como a identificação automática de alvos em imagens de satélites espiões. “Esses desenvolvimentos mostram que a automação e a análise avançada já estão transformando a guerra, não como ficção científica, mas como realidade operacional”, afirma.
O historiador esteve recentemente no Brasil a convite do Grupo FS, que atua em infraestrutura digital e cibersegurança. O grupo planeja investir R$ 1,8 bilhão na implantação de três parques de data centers no país e controla a EXA, empresa do setor de segurança cibernética.
O impacto das novas ferramentas de IA
Desde o lançamento de “Chip War”, em 2022, surgiram o ChatGPT, o DeepSeek e até o Moltbook, ferramentas que prometem baratear e acelerar a computação de ponta. Até que ponto esse avanço tornou sua obra desatualizada?
A maior mudança é o enorme aumento do investimento em infraestrutura para IA. Em 2022, quando o livro foi publicado, já começava a ficar claro que uma IA mais eficiente demandaria chips melhores. Mas confesso minha surpresa com a magnitude dos investimentos realizados nos últimos dois anos. Está evidente que este é o fator mais relevante para uma possível reedição atualizada do livro.
Evolução ou salto reconfigurador?
Essas novas ferramentas representam apenas uma evolução ou um salto capaz de reconfigurar a economia global? Elas carregam riscos que ainda não estamos enxergando?
Existem riscos em avançar rapidamente na implementação da IA em diversas áreas, mas também em progredir de forma muito lenta, pois, nesse caso, perderíamos as novas capacidades que a IA possibilita, como avanços tecnológicos, descobertas científicas e ganhos de eficiência. Ou seja, minha preocupação maior é perder essas vantagens, e não implementar formas potencialmente arriscadas de inteligência artificial.
“Me preocupa mais avançar devagar e perdermos as novas capacidades que a IA possibilita do que implantar modelos arriscados de IA”
Vulnerabilidade na cadeia de suprimentos
Nesse sentido, essas novas ferramentas reduzem ou aumentam a vulnerabilidade da cadeia de suprimentos de alta tecnologia?
É uma combinação de ambos. A maior vulnerabilidade está no fato de que nem todo país terá trilhões de dólares para infraestrutura de IA ou para treinar modelos líderes. A boa notícia é que há muitos modelos abertos disponíveis e diferentes entre si. Alguns já são gratuitos, outros são pagos — mas não há um déficit de modelos acessíveis. Então, surge a primeira pergunta: é possível obter acesso? Sim. E a segunda: é possível encontrar uma boa forma de utilizá-los? Esse é o desafio.
O papel de países como o Brasil
O desenvolvimento de chips e de IA exige investimentos altíssimos. O que nações como o Brasil podem fazer para não ficarem estruturalmente excluídas da fronteira tecnológica?
A chave será a disponibilidade dos chips e dos modelos de IA. O desafio, para países como o Brasil, é como usar essa tecnologia. E essa não é uma tarefa simples: implementar e utilizar IA exige mudar a forma como empresas, organizações e governos conduzem seus negócios. Isso vai demandar que as pessoas, em última instância, alterem a maneira como operam — o que significa que isso inevitavelmente acontecerá.
Essa mudança vai demorar para ser concretizada?
Ela tende a ocorrer de forma lenta porque exigirá que as organizações se transformem, mas é daí que, no fim das contas, surgirão os ganhos de produtividade e veremos novas capacidades, novos produtos e novos mercados emergirem nesse processo. Por isso devemos focar tanto ou até mais nessa questão da implementação da IA quanto na infraestrutura e nos próprios modelos.
O fator decisivo da próxima década
Qual será, afinal, o fator decisivo da próxima década — chips, IA, dados, energia ou minerais estratégicos?
Acredito que os chips serão o ingrediente fundamental que muito poucos países conseguirão produzir, sem o qual será impossível construir os sistemas de IA mais avançados. Mas também acredito que a maior parte do dinheiro, a maior parte do valor econômico, não virá dos chips em si, mas sim dos aplicativos construídos sobre eles. Portanto, os chips são uma base necessária. Os novos negócios que surgirão serão de empresas que aproveitarão o que esses chips podem oferecer e desenvolverão novas capacidades com poder computacional ativo.
“Os novos negócios serão de empresas que aproveitarão o que esses chips podem oferecer e desenvolverão novas capacidades com poder computacional ativo”
Nesse sentido, como o Brasil pode transformar a vantagem de atrair data centers de IA — graças à energia barata — em capacidade tecnológica própria, e não apenas em infraestrutura para terceiros?
Para transformar essa vantagem em capacidade real, o País precisa também atrair pesquisa e desenvolvimento, formar mão de obra qualificada e trazer operações que vão além da mera hospedagem — porque o valor dos data centers fica com quem os utiliza, não com quem apenas os abriga.
A competição por minerais críticos
Há uma crescente competição entre os EUA e a China por minerais essenciais. O que os EUA precisam fazer para manter a obtenção desses metais, cujo processamento se concentra na China?
Nos últimos 18 meses, EUA, Europa, Japão e Coreia do Sul passaram a encarar de forma diferente sua dependência do processamento de minerais críticos na China. A concentração não ocorre por falta de recursos em outros países, mas porque a China tem um custo de capital muito menor — resultado de regras ambientais mais flexíveis —, o que lhe confere uma vantagem decisiva nesse processamento.
Como os países do Ocidente podem reverter essa vantagem chinesa?
Japão, EUA e outras nações já começaram a financiar projetos de mineração fora da China. Com novas operações entrando em funcionamento, a posição dominante chinesa — hoje, em alguns casos, de fornecedora única — deve encolher significativamente nos próximos anos. E acho que o Brasil está em uma posição interessante, porque muitos dos minerais em questão estão presentes em seu território.
Os pontos fortes e fracos da China
Em que áreas a China está diminuindo a vantagem significativa dos EUA, a única superpotência global?
A China tem uma vantagem muito clara quando se trata de energia. Sua taxa de crescimento na produção de energia está superando em muito a dos Estados Unidos. A China obteve vantagem em minerais críticos porque garantiu o fornecimento de certos minerais, como gálio e germânio, e outros usados na fabricação de chips. A China também fez grande progresso na formação de uma base ampla e capacitada de engenheiros especializados em inteligência artificial — embora ainda seja verdade que muitos dos engenheiros mais talentosos da China acabem trabalhando nos EUA.
Apesar do avanço chinês em tecnologias verdes e digitais, a IA ainda não se tornou um motor central do crescimento econômico do país. O que explica essa defasagem entre ambição e impacto real?
O desafio tem sido duplo. Primeiro, é evidente que os EUA foram pioneiros em IA e a China vem tentando alcançá-los nos últimos 18 meses. Isso significa que, globalmente, as principais empresas de IA, em termos de participação de mercado ou receita, são americanas, como Anthropic, OpenAI ou Google. Portanto, é difícil superá-las, visto que essas companhias já assumiram uma liderança substancial.
E o segundo desafio para a China?
É a limitação na construção de data centers avançados no país, já que os EUA não permitem a venda dos chips mais avançados para a China e os chineses não conseguem produzi-los internamente. Neste momento, existe uma lacuna substancial entre o número de chips de IA capazes de gerar dados fora da China e o número de chips produzidos no país asiático. Chips de IA serão produzidos em Taiwan este ano numa escala 30 vezes maior do que na China.
O futuro gargalo da cadeia global
Com a diversificação da produção de chips avançados para EUA, Japão e Europa, qual será o ‘novo Taiwan’ da próxima década — o próximo gargalo crítico da cadeia global?
O novo Taiwan será o Taiwan de hoje… A TSMC, de Taiwan, está produzindo semicondutores e isso não vai mudar rapidamente. Na Europa, a TSMC está construindo uma fábrica de chips relativamente pequena, com tecnologia de nível médio. No Japão, eles acabaram de anunciar planos para construir uma instalação avançada, mas que não estará na vanguarda da tecnologia. Na verdade, a TSMC terá suas capacidades mais avançadas apenas em Taiwan e nos EUA, mas a maior parte dessas capacidades ainda estará em Taiwan. Ou seja, na próxima década, Taiwan será um centro absoluto e insubstituível.
O maior gargalo de alta tecnologia da próxima década será físico, tecnológico ou político?
Espero que o próximo gargalo não seja político, mas acho que devemos nos preocupar com as ameaças que a China faz a Taiwan, porque me parece que elas aumentam em escala e credibilidade a cada ano, à medida que o poderio militar da China cresce. Provavelmente também haverá gargalos físicos enquanto houver demanda por chips de IA poderosos, porque está se mostrando muito difícil para as empresas líderes mundiais adquirirem todos os materiais, a energia e os minerais críticos necessários para fabricá-los. E se o nosso consumo continuar crescendo, esses desafios só aumentarão.
Riscos de uma crise com a China
A política externa americana sob Donald Trump tem adotado posições cada vez mais assertivas. Que tipo de decisão na área de chips e IA poderia precipitar uma crise grave com a China nos próximos anos?
Acho que a maior questão que paira sobre a indústria de chips e de IA é se Taiwan será capaz de continuar fornecendo chips. Porque, é claro, a China está insatisfeita com o status quo em que Taiwan é, de fato, um país separado. A China há 70 anos quer assumir o controle de Taiwan. O fato de a TSMC agora ser avaliada em mais do que qualquer outra empresa dentro da China, na perspectiva dos líderes chineses, só agrava o descontentamento deles com o fato de não controlarem Taiwan.
Taiwan, então, está vencendo essa guerra tecnológica contra a China?
Taiwan conseguiu demonstrar que existe, de fato, um modelo competitivo em relação ao que a China fez, um modelo capaz de desenvolver a tecnologia mais avançada, tecnologia que a China não consegue desenvolver sozinha, ao mesmo tempo que proporciona um padrão de vida mais elevado para seus cidadãos. Isso é constrangedor para a China, que quer se ver e ser vista como líder tecnológica, quando, na verdade, a verdadeira líder tecnológica é uma ilha do outro lado do estreito que a China considera sua, mas que não consegue controlar.
“A verdadeira líder tecnológica é uma ilha (Taiwan) que a China considera sua, mas não consegue controlar”
Onde isso pode levar?
A preocupação deveria ser que, à medida que o poderio militar da China cresce, a liderança chinesa não se limite a exercer pressão diplomática ou econômica sobre Taiwan, mas passe a recorrer cada vez mais à pressão militar. E creio que vimos, nos últimos anos, uma série de exercícios militares concebidos para demonstrar que a China poderia, se quisesse, impor um bloqueio a Taiwan. Por isso, estou muito preocupado com as intenções da China.
A revolução militar em curso
É possível imaginar armamentos inéditos que se tornem possíveis com chips ultramodernos e IA avançada, uma revolução militar comparável à invenção do míssil guiado?
Se prestarmos atenção, oficiais militares e de inteligência de todas as grandes potências já estão falando sobre a implantação de IA. É o caso da guerra entre Rússia e Ucrânia, na qual ambos os lados estão implantando milhares de drones, e muitos desses drones dependem cada vez mais não apenas de orientação, mas também do próprio drone para tomar decisões sobre onde voar e em que direção ir. E, com o passar do tempo, essas capacidades de tomada de decisão se tornarão mais avançadas.
Esse será o grande avanço tecnológico militar?
Todas as principais forças armadas do mundo estão investindo em capacidades comparáveis: drones que voam cada vez mais sozinhos. Portanto, os sistemas autônomos são uma das áreas-chave. A segunda esfera é a de inteligência e análise. Já é o caso







