14 de fevereiro de 2026
sábado, 14 de fevereiro de 2026

A rádio enfrenta os desafios da inteligência artificial

Neste Dia Mundial da Rádio, estabelecido pela UNESCO, o debate central gira em torno da voz e da inteligência artificial. A criação de Guglielmo Marconi tem, em sua essência, a ligação entre indivíduos e coletividades. Trata-se de um princípio que nenhuma forma de inteligência artificial será capaz de replicar.

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Alessandro Gisotti

“O rádio já não se limita apenas ao rádio”. Duas décadas se passaram desde que o padre Federico Lombardi, então diretor-geral da Rádio Vaticano, fez essa declaração durante um encontro com a equipe da emissora pontifícia. Naquele período, os podcasts eram um recurso praticamente restrito a um grupo seleto. As rádios online ainda não exerciam influência significativa no panorama midiático. As redes sociais estavam em estágio inicial e não eram usadas para distribuir notícias, especialmente em formato sonoro. Apesar disso, o padre Lombardi anteviu que o rádio, um meio por natureza adaptável e resistente, passava por uma transformação. Mais uma vez. Após vinte anos – um intervalo geológico, dada a velocidade da evolução tecnológica na comunicação neste século –, podemos afirmar que a previsão do jesuíta se confirmou: o rádio de fato transcendeu seus limites originais.

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A permanência da voz humana

Embora hoje seja frequente a menção conjunta a “Rádio e Áudio”, o que ilustra uma profunda mudança no setor, a essência da invenção de Marconi parece ter mantido seus traços fundamentais. A voz permanece como elemento central. A voz, com toda a sua carga emotiva. Seja ela provocada por uma canção, uma entrevista, um diálogo com o público ou o pronunciamento de uma personalidade. A voz, com seu potencial de transmitir informações importantes de maneira imediata. De certa forma, o rádio segue sendo o “companheiro inteligente” dos demais meios de comunicação, tradicionais ou recentes, que geram conteúdo informativo.

A tecnologia como ferramenta, não como substituta

Isso talvez ocorra porque, em uma transmissão radiofônica ou em um podcast, a tecnologia desempenha uma função crucial, porém não dominante. O trabalho principal continua sendo realizado pela pessoa por trás da voz. Contudo, será que essa característica se manterá no futuro próximo? “A inteligência artificial é um instrumento. Não é uma voz”. A temática selecionada pela UNESCO para o Dia Mundial da Rádio de 2026 aborda e destaca justamente essa inquietação, que se torna mais palpável a cada dia.

E também mais premente. A IA tomará o lugar das vozes humanas nas programações das rádios? Do ponto de vista técnico, isso não apenas é viável hoje, como já é uma prática adotada por diversas emissoras. Existem programas apresentados por “âncoras com Inteligência Artificial”. Produções de áudio dubladas com recursos de IA. Além disso, há podcasts criados com músicas e vozes clonadas por sistemas onde a participação humana é quase residual. Essas aplicações levantam inúmeras questões, começando pela transparência: o ouvinte precisa, antes de tudo, saber se a voz que escuta é humana ou sintetizada por IA. E deve estar ciente se os conteúdos informativos que consome foram selecionados por um algoritmo, e não por um profissional do jornalismo.

Reflexões sobre a autenticidade na era digital

De maneira bastante significativa, o Papa Francisco apresenta reflexões que dialogam diretamente com esse debate em sua primeira mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, divulgada em 24 de janeiro último. “Cuidar dos rostos e das vozes – escreve o Pontífice – significa, em última análise, cuidar de nós mesmos. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não implica ignorar os pontos críticos, as ambiguidades e os perigos”. Ele aborda um assunto hoje considerado inevitável, mesmo nas grandes organizações de mídia de serviço público, como a União Europeia de Radiodifusão. “O poder da simulação – alerta o Papa Francisco – é de tal ordem que a IA pode até nos enganar com a criação de realidades paralelas, apropriando-se de nossos rostos e vozes. Estamos imersos em uma multidimensionalidade, onde a distinção entre realidade e ficção se torna cada vez mais complexa”.

O valor insubstituível da emoção humana

A Inteligência Artificial é incapaz de reproduzir a emoção que uma pessoa comunica através de sua voz para quem a escuta. Por essa razão, essa nova tecnologia revolucionária deve ser utilizada, conforme propõe a UNESCO, como um simples instrumento. Nada além disso. Sob essa ótica, a IA pode ser de grande auxílio para as emissoras: para compreender melhor as preferências do público, para gerenciar arquivos de áudio com mais eficiência, para buscar dados com maior agilidade, para desenvolver uma identidade sonora mais marcante. As possibilidades de avanço são vastas e algumas ainda difíceis de prever. No entanto, nenhum progresso tecnológico, por mais sofisticado que seja, será capaz de substituir a dimensão humana, a conexão entre as pessoas, que está no cerne da criação de Marconi. A IA pode replicar com perfeição o timbre de uma voz. Pode, portanto, “substituir” as cordas vocais. Mas não as cordas do coração. Porque, como afirmava Marshall McLuhan, “o rádio possui o poder mágico de tocar cordas remotas e esquecidas”.

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