Em vídeo divulgado na terça-feira, 20, Dia Mundial de Combate ao Bullying, o influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, relata episódios de bullying que sofreu durante a infância e a adolescência. Segundo ele, as experiências negativas contribuíram para um diagnóstico de fobia social e para diversas dificuldades que persistem na vida adulta.
Hoje, aos 27 anos, Felca afirma que ainda convive com batimentos cardíacos acelerados – entre 138 e 150 bpm quando está em locais públicos, rodeado de pessoas.
De acordo com especialistas, isso pode, sim, refletir o período em que foi vítima de agressões. “Toda violência deixa marcas profundas na constituição psíquica e na subjetividade do sujeito. Quando a estrutura emocional dá a essa dor uma saída mais passiva, a evitação surge como sintoma. A fobia é justamente uma dessas manifestações”, diz Angelita Wisnieski da Silva, coordenadora de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe.
Ela explica que a fobia social é um transtorno de ansiedade e um quadro psíquico marcado pela evitação deliberada de situações sociais ou de exposição pública em razão de um estado de intensa angústia. “É uma forma de dar saída a algo que está incomodando muito.”
O quadro é diferente da timidez, pois envolve reações físicas e emocionais profundas. Felca, por exemplo, relata estar há cinco meses sem sair de casa. “Tudo o que eu vejo todos os dias é teto, chão e parede”, diz o influenciador no vídeo, que gerou um pico de buscas no Google, conforme dados do Google Trends.
Angelita explica que o ato de se trancar em casa funciona como uma tentativa drástica da mente de se resguardar. Ao evitar o público e o contato social, evita-se o risco de reviver o constrangimento, a dor e a angústia provocados no passado.
A neuropsicóloga Veruska Mendes Vasconcelos, coordenadora de psicologia do Hospital Alvorada Moema, comenta que quem foi constantemente ridicularizado pode continuar esperando rejeição mesmo em ambientes seguros.
“Depois de ouvir repetidamente que não é capaz ou interessante, a pessoa passa a repetir essas mensagens para si mesma. É como se a violência terminasse do lado de fora, mas continuasse presente na maneira como ela se trata”, afirma.
O isolamento passa a ser cíclico. A falta de convivência presencial e de trocas reais no dia a dia enfraquece a capacidade de construir vínculos e lidar com as adversidades. “A evitação alivia a ansiedade naquele momento, mas pode manter o medo ao reduzir oportunidades de experiências sociais seguras”, comenta a neuropsicóloga.
Diagnóstico e tratamento
Segundo Angelita, o diagnóstico de fobia social é feito por meio de uma avaliação multidisciplinar, com psicólogo e psiquiatra. Trata-se de um processo criterioso e cuidadoso que analisa a intensidade da angústia e do comportamento de evitação para verificar se, de fato, existe um quadro psíquico estruturado.
Alexandre Leal Laux, psiquiatra e professor do curso de medicina da Faculdade Pequeno Príncipe, ressalta que eventos negativos como o bullying podem contribuir para o surgimento da fobia social, mas nem todas as vítimas de agressão desenvolvem o transtorno. “Existe uma vulnerabilidade individual associada para que o quadro se manifeste”, afirma Laux.
O médico afirma que o tratamento se baseia em dois pilares. O primeiro, medicamentoso e conduzido pelo psiquiatra; o segundo, não medicamentoso, baseado no acompanhamento psicológico.
“O tratamento é realizado com medicamentos que atuam na serotonina, usualmente chamados de antidepressivos, já que esse mecanismo proporciona alívio de sintomas ansiosos físicos e cognitivos”, explica. “Mas o tratamento não medicamentoso é até mais importante e se baseia na psicoterapia cognitivo-comportamental (TCC).”
A TCC trabalha a correção de pensamentos prejudiciais e busca melhorar o comportamento do paciente. No caso da ansiedade social, por exemplo, isso implica reduzir o temor de ser avaliado negativamente e estimular a exposição a situações que normalmente causam algum desconforto – justamente para que haja melhora do comportamento de evitação.
Angelita também destaca a importância da reinserção em atividades coletivas, lembrando que ela deve ocorrer em ambientes controlados e com orientação profissional, sem exposições forçadas a qualquer custo. Caso contrário, pode haver a reativação da angústia.Agora, Felca diz que pretende transformar a própria dor em um propósito coletivo: conscientizar sobre a saúde mental e incentivar outras pessoas a saírem do isolamento.
Ele propõe um desafio coletivo de três meses voltado à dessensibilização da ansiedade social, o “Sinfel”. A proposta consiste em dizer “sim” para convites e oportunidades de sair de casa e interagir com as pessoas.
Felca também se comprometeu a dar palestras sem custos em instituições de ensino por todo o País para conscientizar estudantes, pais e educadores sobre as consequências do bullying.
Para Veruska, a reflexão mais importante do vídeo é que nenhuma criança precisa aprender a suportar humilhações para se tornar emocionalmente forte. “Bullying não é uma etapa natural do crescimento, mas uma violência que precisa ser reconhecida, interrompida e prevenida.”







