Vindo do sertão do Ceará para ganhar espaço em uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo, o aratassauro trouxe novas e importantes evidências sobre os dinossauros, mesmo com seus 115 milhões de anos. Uma equipe internacional de cientistas identificou no fóssil as principais provas de que esses animais tinham sangue semelhante ao das aves e dos mamíferos, e não ao dos répteis. O dinossauro nordestino abre, assim, um novo caminho para investigar a pré-história.
Comprovar a homeotermia — o sangue quente, em linguagem popular — nos dinossauros é considerada uma das grandes questões da paleontologia. Afinal, manter a temperatura constante permite correr, caçar, migrar por longas distâncias e sustentar um ritmo ativo contínuo, independentemente do clima.
Trata-se da diferença entre ser ágil e esperto em qualquer tempo ou lerdo e preguiçoso, à espera de que o sol esquente suas costas.
Não se trata de trazer dinossauros de volta ao estilo Parque Jurássico, mas da possibilidade de conhecer esses animais e a evolução em um nível antes inviável.
Homeotermia e evolução dos dinossauros
O estudo foi publicado na revista americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e liderado por Kliti Grice, diretora do Centro de Geoquímica Orgânica e Isotópica da Universidade Curtin, em Perth, na Austrália. Assinam como coautores pesquisadores do Museu Nacional (Universidade Federal do Rio de Janeiro), da Universidade Regional do Cariri (CE) e de instituições da Alemanha, do Japão e dos Estados Unidos.
O grupo encontrou no fóssil evidências inequívocas de glóbulos vermelhos (hemácias), aminoácidos de colágeno mineralizados e biomoléculas de heme intactas. É a heme que transporta o oxigênio da hemoglobina, o que confirma, em essência, que se trata de sangue fossilizado. Os ossos fossilizados continham numerosas hemácias preservadas dentro de canais vasculares.
— Não só havia sangue quanto esse estava onde deveria, isto é, dentro dos vasos — afirma Alexander Kellner, coautor do estudo e professor do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional.
Embora estudos anteriores já tenham relatado possíveis estruturas de glóbulos vermelhos em fósseis, esta é a primeira vez que se comprova quimicamente a presença de moléculas derivadas da hemoglobina nas células.
De acordo com Grice, detectar moléculas de heme intactas em glóbulos vermelhos de 115 milhões de anos oferece uma janela molecular direta para a fisiologia de animais há muito extintos e uma compreensão inédita sobre a evolução da vida na Terra.
— Esse tipo de estudo se situa na fronteira do conhecimento sobre o passado profundo. Era um sonho antigo, pois o Brasil tem fósseis maravilhosos. Encontramos na professora Grice uma parceria excelente — afirma Kellner.
Do sertão cearense ao Museu Nacional
Batizado Aratasaurus museunacionali, esse dinossauro viveu onde hoje fica a região do município de Santana do Cariri, no Ceará. O fóssil foi descoberto em uma mina de gesso em 2008 e levado ao Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri. Em 2016, seguiu para novos estudos no Museu Nacional e lá estava, em preparação, quando o museu pegou fogo em 2018. Por sorte, conta Kellner, a área onde ele ficava não foi atingida pelas chamas. O fóssil foi finalmente descrito pela equipe de Juliana Sayão, também coautora do estudo na PNAS, como uma nova espécie em 2020.
O nome homenageia o Museu Nacional e o fato de o fóssil ter escapado ileso do incêndio. Ele resulta da combinação do tupi ara (nascido) e atá (fogo) com o grego saurus (lagarto). Significa, portanto, lagarto nascido do fogo.
O aratassauro está fazendo história depois de morto, mas em vida não era exatamente um animal vistoso. Os cientistas estimam que medisse pouco mais de três metros da ponta do focinho à cauda. Chegava a 1,6 metro de altura e pesava algo em torno de 35 quilos.
— Era carnívoro, um dinossauro mediano, mas ninguém gostaria de encontrar um deles pelo caminho — diz Kellner.
Análises sugerem que o aratassauro morreu jovem. Seu corpo foi parar no fundo de um lago não muito diferente da atual Lagoa Rodrigo de Freitas, explica Kellner.
O aratassauro está em uma camada geológica ainda pouco investigada. Dele sobrou quase nada, pouco mais do que uma pata. Não é um fóssil muito bonito, reconhece Kellner.
Análises em escala molecular
Bonita ou não, sua perna levou a um salto no conhecimento sobre os dinossauros. Fósseis são frágeis e preciosos, e para realizar o tipo de análise capaz de encontrar vestígios de sangue é preciso moer a amostra. Ou seja, é necessário que haja “uma sobra”. Calhou que, quando Grice visitava o Museu Nacional, havia algumas migalhas, pouco mais que milimétricos grãos de areia, resultantes da preparação do fóssil.
Tais fragmentos, poeirinhas de fóssil, são suficientes, porém, para fazer análises com os equipamentos de espectrometria altamente refinados com os quais o grupo da Curtin trabalha.
Grice observa que a descoberta desafia suposições de longa data de que certas biomoléculas, como a hemoglobina, não conseguiriam sobreviver à passagem de milhões de anos, o chamado tempo profundo.
— Isso vai nos permitir investigar a evolução do sangue, do metabolismo e até mesmo dos níveis de atividade em animais antigos — destaca ela.
A perna do aratassauro pode ir ainda mais longe, mais distante que o passado do planeta, e chegar a outros mundos. O conhecimento sobre a preservação de moléculas orgânicas gerado pela descoberta tem potencial além da paleontologia.
O diretor da Escola de Ciências da Terra e Planetárias da Curtin, Martin Van Kranendonk, disse que a pesquisa redefine como as estruturas moleculares podem ser preservadas ao longo de grandes intervalos de tempo ou em condições hostis. Isso tem implicações para estudos de astrobiologia e para a busca por vida no Universo.







