8 atualidades que podem aparecer na Fuvest

Acompanhar os principais acontecimentos no Brasil e no mundo é parte essencial da preparação para os vestibulares. As atualidades podem surgir como tema central de uma questão ou como contexto para abordar conteúdos de diferentes disciplinas. No vestibular da USP, isso não é diferente.

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Um exemplo está no simulado da Fuvest aplicado no início do ano, que trouxe questões sobre o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, mudanças climáticas e eventos climáticos extremos, além do fim da vigência do Novo START, tratado bilateral de limitação de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia.

Diante de tantos assuntos, o Guia do Estudante ouviu especialistas para selecionar os temas que merecem atenção. A seguir, Priscila Lima, professora de Geografia e Atualidades do Estratégia Vestibulares, e Paulo Castro, professor de Geografia e Atualidades do Colégio Poliedro, destacam oito atualidades que podem aparecer na Fuvest 2027.

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Bets, economia digital e impactos sociais

Patrocínios de times de futebol, campanhas com influenciadores digitais e publicidade nas redes sociais: as apostas online, conhecidas como Bets, tornaram-se parte do cotidiano dos brasileiros nos últimos anos. “A popularização das Bets no Brasil está associada à expansão das plataformas digitais, à disseminação dos pagamentos instantâneos e ao investimento em publicidade, especialmente no futebol e nas redes sociais”, afirma Priscila Lima.

Embora tenham sido legalizadas em dezembro de 2018, as plataformas operaram durante anos com regulamentação limitada. Foi apenas em 2025 que novas regras para o setor entraram em vigor, com base na Lei nº 14.790/2023. Para a professora, o “ponto mais relevante é a contradição entre o crescimento de uma atividade econômica digital altamente lucrativa e seus possíveis custos sociais”. Entre as consequências desse avanço estão o risco de dependência em jogos de azar, o endividamento das famílias e os prejuízos à economia nacional.

Em 25 de setembro, o governo federal publicou a Medida Provisória nº 1.394, que proibiu a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa, inclusive em plataformas digitais. Priscila avalia, no entanto, que esse desdobramento mais recente tem maior possibilidade de aparecer na segunda fase do vestibular.

Cultura da misoginia e feminicídio

Os números da violência contra a mulher no Brasil revelam a dimensão do problema: uma mulher é vítima de agressão a cada dois minutos no país e, somente em 2025, foram registradas 4.189 tentativas de feminicídio. Nesse cenário, o projeto de lei nº 896, conhecido como “PL da Misoginia”, entrou em discussão.

A proposta prevê incluir crimes motivados por misoginia — caracterizada pelo ódio, aversão ou desprezo direcionado às mulheres ou ao gênero feminino — entre aqueles punidos como discriminação. Assim, esses crimes passariam a receber tratamento legal mais rigoroso, podendo se tornar, por exemplo, inafiançáveis.

“A proliferação da cultura da misoginia por meio de grupos como os redpills e os sucessivos recordes de feminicídios no Brasil têm atraído a atenção dos vestibulares, que vêm incorporando esses temas em paralelo às discussões de desigualdade de gênero. A relevância do tema é tão significativa que pode ser abordado, inclusive, na redação”, enfatiza Paulo Castro.

Inteligência artificial, data centers e energia

A inteligência artificial apareceu na Fuvest nos últimos três anos, em questões de diferentes áreas. Apesar disso, Priscila acredita que o tema continua em evidência e pode surgir novamente no vestibular 2027, desta vez com foco nos investimentos em infraestrutura física necessários para o desenvolvimento da tecnologia.

“Um aspecto essencial é que a economia digital não é imaterial: o funcionamento de sistemas de IA depende de recursos naturais, energia, água, infraestrutura e trabalho humano; tudo isso é matéria para acúmulo de riqueza”, destaca.

Para se ter uma ideia, segundo projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo elétrico mundial dos data centers poderá passar de aproximadamente 485 TWh em 2025 para 950 TWh em 2030. “Há, portanto, três grandes debates contemporâneos: o impacto ambiental da IA, a concentração do poder tecnológico em poucas empresas e países e os efeitos da automação sobre o emprego”, lista Priscila.

Paulo também chama a atenção para as desigualdades entre os países no desenvolvimento das IAs e no armazenamento dos dados digitais. “O próprio Simulado Fuvest abordou uma questão sobre a desigual distribuição da infraestrutura dos cabos submarinos e data centers, mais concentrados no Norte Global, impactando diretamente a soberania dos países”, observa o professor.

Minerais críticos, terras raras e disputas geopolíticas

“A eletrificação da economia, a fabricação de veículos elétricos, a ampliação das energias renováveis (transição energética) e o desenvolvimento de equipamentos militares e tecnológicos aumentaram a importância de minerais como lítio, níquel, cobre, grafita e elementos de terras raras”, afirma a professora do Estratégia Vestibulares.

Além de essenciais para diferentes setores industriais, esses recursos estão no centro de disputas geopolíticas. Isso porque a influência dos países nesse mercado não depende apenas da localização das jazidas, mas também do controle das etapas de extração, beneficiamento, refino e fabricação de produtos de alto valor agregado. A China é um dos principais exemplos dessa concentração de poder na cadeia de produção dos minerais estratégicos.

O Brasil, por sua vez, possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas enfrenta dificuldades para explorar e processar esses minerais em larga escala, o que desperta o interesse de outros países. “O Brasil enfrenta o desafio de superar uma inserção internacional concentrada na extração e na exportação de produtos pouco processados, ampliando sua capacidade tecnológica e industrial”, ressalta Priscila.

Mudanças climáticas, eventos climáticos extremos e Super El Niño

Estiagens prolongadas, ondas de calor, inundações e tempestades severas estão entre os eventos climáticos extremos que têm afetado diferentes regiões do Brasil nos últimos anos. Para Priscila e Paulo, porém, um novo acontecimento que torna o tema relevante para a Fuvest 2027 é a intensificação do El Niño prevista para o segundo semestre de 2026.

Fenômeno climático natural e recorrente, o El Niño deste ano se destaca pela ocorrência de um episódio mais intenso, como alertam os órgãos de monitoramento climático. No Brasil, os efeitos do El Niño variam conforme a região. No Sul, costuma provocar chuvas acima da média, enquanto no Norte e no Nordeste pode agravar a seca, além do aumento da temperatura em várias regiões. “Assim, o fenômeno e suas consequências sociais e econômicas precisam de uma análise profunda, o que pode abrir um bom caminho para questões na Fuvest”, afirma Priscila.

“[Os temas] podem ser utilizados para discutir de que forma os seres humanos intervêm no clima, medidas para mitigação dos impactos das mudanças climáticas e as consequências sobre a população, como o aumento do número de refugiados climáticos e o racismo ambiental”, complementa Paulo.

Protecionismo, multipolaridade e reorganização das cadeias globais

A globalização permitiu que empresas distribuíssem suas etapas de produção em diferentes países, com o objetivo de reduzir custos, acessar novos mercados e aproveitar vantagens logísticas. Nos últimos anos, porém, tensões geopolíticas e comerciais têm levado à reorganização dessas cadeias produtivas. “Conflitos comerciais e geopolíticos recentes, como é o caso do Estreito de Ormuz, evidenciaram a vulnerabilidade desse modelo e novas organizações dentro da lógica de territorialização da produção”, ressalta Priscila.

A disputa entre Estados Unidos e China, as políticas de incentivo à produção industrial nacional, as restrições à comercialização de tecnologias avançadas e os riscos de interrupção das rotas comerciais ajudam a explicar essa mudança. Nesse contexto, a professora destaca três conceitos importantes:

  • Reshoring: retorno de etapas produtivas ao país de origem;
  • Nearshoring: transferência de etapas produtivas para países próximos;
  • Friendshoring: priorização de países considerados parceiros politicamente confiáveis.

“Outro ponto relevante é a participação do Brasil nesse cenário, sobretudo pelas exportações agropecuárias, minerais e energéticas e por sua dependência de determinadas tecnologias e componentes industriais”, acrescenta Priscila.

Guerra do Irã, Estreito de Ormuz e petróleo

Desde 28 de fevereiro, os ataques ao Irã deram início a uma guerra que ainda não apresenta sinais de trégua. Um dos principais desdobramentos do conflito é a instabilidade do Estreito de Ormuz, passagem marítima estratégica que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e por onde é transportado cerca de 20% do petróleo mundial, além de gás natural.

“Os ataques norte-americanos ao Irã resultaram no fechamento do Estreito de Ormuz e no aumento considerável dos preços do petróleo, impactando diretamente o mundo todo com o encarecimento dos preços de energia e a redução da oferta do recurso”, explica Paulo. Ele também destaca que questões relativas à localização e à importância estratégica desse estreito já apareceram em provas de vestibulares este ano.

Governo Trump

As decisões de Donald Trump têm repercutido na política internacional ao longo de 2026. Desde que retornou à presidência dos Estados Unidos, em 2025, ele intensificou a agenda do seu slogan “America First” (“América em primeiro lugar”), que prioriza os interesses nacionais norte-americanos. Entre as principais marcas do seu governo estão o protecionismo comercial, o endurecimento das políticas migratórias e a intervenção na relação com outros países.

“A questão migratória e as ações da polícia migratória (ICE), o aumento das tarifas alfandegárias e o protecionismo comercial, as intervenções na América Latina, como o Escudo das Américas e a ‘Doutrina Donroe’, e a ruptura com a multilateralidade e os acordos internacionais entre diferentes países”, lista Paulo entre os possíveis temas para a Fuvest 2027.

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