O presidente Luiz Inácio Lula da Silva formalizou neste domingo, dia 2, sua candidatura à reeleição e indicou o que pretende fazer em um eventual quarto mandato, prometendo mais investimentos na área de defesa, antecipando conflitos com o Congresso em torno das emendas parlamentares e afirmando buscar marcas de gestão que vão além de políticas sociais como o Bolsa Família. Na convenção nacional do PT, em São Paulo, o petista sinalizou que, se reeleito, pretende ser mais combativo para ampliar as realizações do governo, ao declarar que não será o “Lulinha paz e amor”, mas sim o “Lulinha porreta”. O presidente também indicou que o ex-ministro Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo, poderá ser seu sucessor político.
A convenção petista homologou a chapa de Lula com Geraldo Alckmin na vice-presidência e a aliança restrita ao campo da esquerda, com PT, PSB, PCdoB, PV, Rede, Psol e PDT, em evento com cerca de 3 mil pessoas no Expo Center Norte, na capital paulista, segundo os organizadores.
Ao dar início oficialmente à sétima disputa pela Presidência, Lula discursou por cerca de 1h10 e defendeu a soberania e a democracia, fez acenos às mulheres e aos idosos, e deu a entender que o Executivo deve ter mais controle sobre o Orçamento e a destinação de verbas, afirmando que vai haver briga com emenda parlamentar e com o papel do Poder Legislativo. Em outra demonstração de que está disposto a travar embates institucionais com o Congresso, reforçou o direito do presidente de indicar ministros ao Supremo Tribunal Federal e a órgãos do governo, sem represálias do Legislativo, numa referência indireta à rejeição pelo Senado, em abril, da indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, para a Corte.
Em busca do quarto mandato, e do sexto do PT, o presidente tentou rebater críticas de falta de renovação em suas propostas e reforçou a disposição de ampliar a agenda de governo, afirmando não querer ser mais apenas o presidente do Bolsa Família e do Brasil Sorridente, defendendo a necessidade de ser mais ousado para mudar mais coisas. Em outro momento, respondeu a críticas de que pensa apenas no passado, dizendo ler o passado para trabalhar no presente e não errar no futuro. Ainda assim, evitou apresentar promessas de grande fôlego que gerem custos elevados ao governo, e também não entrou em detalhes sobre mudanças na área econômica ou sobre o ajuste fiscal a partir de 2027, tema cobrado por agentes financeiros.
O presidente reforçou a defesa da soberania nacional e disse pretender investir mais em defesa, para evitar interferência de nações estrangeiras. Ele pediu à esquerda que deixe de tratar a preocupação com defesa nacional como irrelevante, afirmando querer que o país esteja preparado para que ninguém o invada ou capture um presidente, em referência indireta à captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Lula afirmou ainda que nem chineses nem americanos vão interferir nas terras raras brasileiras, mas evitou críticas diretas ao presidente americano Donald Trump.
Na tentativa de apresentar novas bandeiras, o presidente citou os idosos como um dos focos do próximo mandato, reciclando a promessa de criar centros de cuidado e acolhimento para essa população. Ele também defendeu os direitos das mulheres e criticou a violência de gênero, especialmente o feminicídio, afirmando que a luta contra a violência contra a mulher não é luta das mulheres, mas de todos, e que quem bate em mulher não precisa votar nele. As propostas voltadas à segurança pública, porém, ficaram de fora do discurso. Lula afirmou que vai detalhar o plano de governo no dia 16.
Da metade para o fim do discurso, a plateia começou a se esvaziar. Apesar de destacar as mulheres, os organizadores da convenção haviam previsto discursos de apenas quatro homens, todos brancos e com mais de 60 anos, Lula, Alckmin, Haddad e o presidente nacional do PT, Edinho Silva. Diante disso, Lula chamou a esposa, Rosângela Janja da Silva, para falar, reconhecendo publicamente ter sido um erro não incluir uma mulher entre os discursos do principal evento da campanha. Janja, por sua vez, comentou a dificuldade de precisar se reafirmar constantemente nesses espaços.
Aos 80 anos, Lula buscou transmitir uma imagem de jovialidade e disposição, brincando que, no ano seguinte, completará 81 anos e que pretende brigar com a velhice. Ele se comparou a Pelé no início da fala e disse tentar ser tetracampeão no Executivo, além de elogiar a competência e a lealdade de Alckmin ao confirmá-lo como vice na chapa.
No discurso, Lula lançou Haddad como possível sucessor, afirmando que, com o básico garantido, é hora de dar um salto de qualidade e pensar no país do futuro que pretende entregar quando o ex-ministro, depois de governar São Paulo por oito anos, puder ocupar a Presidência da República. Haddad já havia concorrido ao cargo em 2018, no lugar de Lula, então preso.
Em um cenário de disputa acirrada contra o senador Flávio Bolsonaro, Lula minimizou as pesquisas de intenção de voto, apesar de aparecer na frente, e afirmou que a disputa real ainda vai começar, evitando atacar diretamente o adversário durante o discurso. Além dos acenos a mulheres e idosos, o presidente pediu o empenho da militância para conquistar eleitores independentes, que não se identificam nem com o lulismo nem com o bolsonarismo.
Na convenção, os discursos reforçaram a defesa da soberania e da democracia, e criticaram o avanço da extrema-direita. O presidente nacional do PT afirmou que o resultado da eleição brasileira terá impacto internacional, especialmente na América do Sul e na América Latina, e que o pleito vai definir o futuro democrático da região.
Haddad foi o único outro candidato a discursar na convenção, e usou a experiência administrativa de Lula para defender a reeleição, comparando o momento internacional a um mar revolto, marcado por guerras e pelo avanço da direita no Ocidente, e defendendo a necessidade de um “marujo experiente” para preservar a soberania do país. Já Alckmin, mantido como vice na chapa, destacou ações de Lula na economia, como a reforma tributária e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, e afirmou que o país e a democracia correm riscos sob uma eventual gestão bolsonarista, lembrando que adversários que tentaram um golpe de Estado após perder as eleições teriam ido além caso estivessem no poder. Alckmin reiterou o compromisso de trabalhar com responsabilidade e fidelidade ao lado do presidente, e ainda fez uma brincadeira com o antigo bordão “Lula com chuchu”, referência a seu apelido de “picolé de chuchu”.







