A falsa candidatura de Pablo Marçal foi arquitetada para favorecer Flávio Bolsonaro, restringindo o espaço e o avanço de outras alternativas da direita enquanto não for barrada pela Justiça Eleitoral. Ainda assim, conforme o tempo que a Corte levar para enterrar o registro — desfecho dado como praticamente certo —, o movimento pode acabar colaborando com Lula, já que reduziria o total de votos válidos nas urnas.
Trata-se de uma candidatura fictícia, pois quem conhece as regras eleitorais sabe, inclusive o próprio postulante, que a chance de ela não ser cassada é mínima. Os requisitos apresentados são frágeis, sobretudo porque a inelegibilidade até 2032 é evidente e não há motivo plausível para revisão. Dessa forma, Marçal teve assegurado o direito de registrar o nome, mas não reúne condições reais de disputar, salvo se o TSE fizer uma reviravolta completa em sua jurisprudência.
Filiação retroativa e a tese difícil de comprovar
Até a liminar que autorizou a filiação retroativa ao PRTB — e que não alterou o quadro de inelegibilidade — é vulnerável. O ex-coach obteve o registro provisório depois que a Justiça reconheceu, em caráter liminar, uma vinculação retroativa a data anterior a 4 de abril. O argumento é que ele já teria assinado a ficha de filiação partidária antes do prazo final para quem pretendia concorrer.
Essa versão, porém, é de difícil comprovação. Em 12 de abril, o Estadão veiculou entrevista na qual Marçal exaltava as vantagens de estar filiado ao União Brasil, legenda que, nas palavras dele, era bem maior e oferecia mais estrutura para a disputa. A conversa, disponível abaixo, foi gravada pelo repórter Guilherme Caetano no dia 8 de abril, quatro dias depois do encerramento do prazo de filiação partidária. Será complicado para Marçal sustentar que estava no PRTB quando, publicamente, destacava a ligação com o União Brasil já após o limite. Essa entrevista, bem como declarações a outros veículos e vídeos de apoiadores mostrando o vínculo com o União Brasil, embasaram o pedido do Ministério Público Eleitoral para que o TSE rejeite a candidatura e proíba o influenciador de fazer campanha.
O escudo eleitoral de Flávio
A candidatura será derrubada mais cedo ou mais tarde. O tempo até isso, no entanto, pode mudar o cenário. O entorno de Flávio conta com Marçal como “escudo”, papel que o próprio ex-coach afirmou publicamente querer exercer. Enquanto o nome dele permanecer na disputa, tende a embaralhar o processo e atrasar o avanço de outros postulantes da direita, extraindo espaço e votos deles — especialmente de Renan Santos (Missão), que disputa o mesmo eleitorado antissistema. Mesmo com a eventual queda do registro, o tempo e a visibilidade perdidos por essas campanhas no noticiário, no debate público e nas pesquisas seriam usados para enfraquecê-las, o que interessa diretamente a Flávio.
Além disso, Marçal faria o serviço de atacar Renan Santos e Lula abaixo da linha da cintura, uma tarefa que Flávio evita, seja porque precisa dos votos do candidato do Missão no primeiro turno, seja porque quer se distanciar da imagem agressiva historicamente ligada à família Bolsonaro.
O tempo da Justiça Eleitoral e o tiro pela culatra
O tiro, porém, pode sair pela culatra em um cenário extremo. O TSE tem até 14 de setembro, 20 dias antes da votação, para julgar o registro de Marçal. Em tese, portanto, a questão estaria solucionada antes da reta final. Se o ex-coach insistir e tentar adiar o desfecho com recursos, é possível que o processo continue sub judice às vésperas do pleito ou até que o nome dele apareça na urna.
Nessa última hipótese, Marçal poderia atrair votos que sairiam principalmente desses outros candidatos de direita. Depois, com a anulação do registro, esses votos seriam invalidados. Isso reduziria os votos válidos e facilitaria uma vitória de Lula, o primeiro colocado, ainda no primeiro turno — resultado hoje considerado improvável, mas não impossível. A chance é remota, mas existe.






