A história tem início com um naufrágio. Depois que um navio afunda no Canal da Mancha, um bebê é encontrado flutuando dentro de um estojo de violoncelo. A essa data é atribuído o primeiro aniversário da menina, que sobrevive contra todas as probabilidades.
Sophie, como passa a ser chamada, é adotada por Charles, um inglês excêntrico que a educa com zelo incomum e com uma abertura rara para acreditar que tudo é possível. Sophie é sonhadora, imaginativa, criativa e dona de um espírito livre, e Charles nunca tenta modificá-la. Pelo contrário, ele a incentiva a permanecer assim.
No entanto, a Agência Nacional de Proteção à Criança não considera essa a criação adequada para uma menina e ameaça retirar Sophie da tutela de Charles, enviando-a para um orfanato. Inconformados, Sophie e Charles tomam uma decisão: fugir para Paris.
Mas por que Paris? Porque Sophie acredita que sua mãe sobreviveu ao naufrágio e retornou a Paris. Todas as investigações chegaram à mesma conclusão: nenhuma mulher sobreviveu ao acidente. O próprio Charles insiste que é quase impossível que a mãe de Sophie tenha sobrevivido. Mas “quase” não é o suficiente para fazer a menina desistir, e é exatamente esse “quase” que Charles decide honrar.
É em Paris que Sophie conhece as crianças que moram nos telhados. São elas que passam a ajudá-la na procura pela mãe. Ao descobrir Paris vista do alto, Sophie enxerga nessas crianças órfãs e desamparadas aquilo que ela poderia ter se tornado se não fosse Charles. Mas é também por meio dessas crianças que Sophie se fortalece ainda mais em sua busca. Afinal, nada parece impossível para um grupo de crianças.
O encanto do começo da história
O começo deste livro encanta de um jeito inesperado. A narrativa parece um realismo mágico e tem um tom que lembra muito Anne with an E. Vale confessar que a primeira parte agrada mais do que o momento em que a história se desloca para os telhados de Paris propriamente ditos, quando Sophie conhece Matteo e o livro ganha outra dinâmica. Não que essa parte não tenha valor; ela tem, e muito, mas o coração do livro está ali, no início, na relação entre Sophie e Charles.
Charles não é o adulto que tenta convencer a criança a ser razoável. Pelo contrário: ele incentiva Sophie a ir atrás do que é possível, e até mesmo daquilo que é extremamente improvável. Existe uma ternura enorme nesse gesto, o de um adulto que escolhe proteger a esperança de uma criança em vez de corrigi-la. É isso que dá ao livro seu tom onírico tão particular: aqui, o absurdo e o improvável têm permissão para existir.
Em certo momento, o livro fala sobre como os adultos costumam acreditar apenas em coisas sem graça, e isso é dolorosamente verdadeiro. Existe uma magia que pertence somente à infância, uma disposição para acreditar no impossível que se vai perdendo aos poucos, e Nos telhados de Paris parece existir justamente para lembrar dessa magia.
Personagens, fluidez e esperança renovada
Os personagens são cativantes, os capítulos fluem com facilidade e o final emociona de verdade. É um livro encantador, rápido de ler, e que tem o poder raro de acender uma chama de esperança em quem lê. A leitura termina com a sensação gostosa de ter sido transportada de volta para um lugar de magia e possibilidades infinitas, reconectando o leitor com a própria criança interior.
A recomendação vale, principalmente, para quem sente falta de ler algo que devolva um pouco de fé no improvável.
Título original: Rooftoppers ✦ Autora: Katherine Rundell ✦ Páginas: 240
Tradução: Marina Vargas ✦ Editora: Intrínseca







