Nova comédia romântica captura espírito extremamente fogoso

O entretenimento costuma funcionar como uma fuga da realidade. Neste ano, porém, grande parte do que chega às telas parece ter como missão esquentar o espectador.

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Do erotismo de “O Morro dos Ventos Uivantes” às cenas quentes de chuveiro de “Rivalidade Ardente”, o sexo dominou uma série de sucessos recentes — algo que, em outras épocas, provavelmente os tornaria inelegíveis para o posto de grandes fenômenos culturais. É seguro dizer que o tesão vive um momento de protagonismo.

O próximo concorrente a disputar olhares e fantasias é “Só Por Uma Noite”, comédia romântica que desembarca nos cinemas brasileiros em 20 de agosto totalmente em sintonia com essa tendência provocante.

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Estrelado pela indicada ao Oscar Monica Barbaro e por Callum Turner — também conhecido como o namorado de Dua Lipa —, o longa se passa num universo em que um Congresso conservador aprovou uma lei proibindo sexo entre solteiros, exceto numa única noite do ano, em que podem se divertir entre si em restaurantes, metrô e parques públicos. A premissa é absurda, é verdade, e já rendeu inúmeras piadas na web, mas “Só Por Uma Noite” é recheado de um desejo lascivo que deve agradar o público com os hormônios em chamas.

“É dessas ideias tão malucas e divertidas porque a sinopse facilmente pode ser uma espécie de ‘Uma Noite de Crime’, só que para o sexo”, afirma Sophia Benoit, romancista e colunista de sexo, que está entre os que celebram a safra de entretenimento de 2026.

“Muitas vezes sinto que estou votando com meu ingresso: por favor, façam mais coisas assim”, completa.

A seca de sensualidade nos cinemas

Assim como os personagens de “Só Por Uma Noite”, os frequentadores de cinema como Benoit andavam carentes de sedução antes da onda deste ano. O nível de conteúdo sexual na maioria dos filmes caiu quase 40% entre 2000 e 2023, conforme estudo do analista de dados cinematográficos Stephen Follows, divulgado pelo The Economist, que analisou as 250 maiores bilheterias de cada ano.

O site Kids-in-Mind.com, voltado à avaliação de lançamentos para pais, forneceu números à CNN indicando que a fatia de produções com pontuação de ao menos 8/10 na escala de sexo e nudez despencou de 8% em 2016 para 2% a 3% entre 2019 e 2023, antes de ensaiar uma recuperação para 4% a 6% em 2024-25, último período com estatísticas completas.

Cinco anos atrás, a escritora cultural RS Benedict olhou para o cinema e viu um quadro tão desolador que escreveu, na revista digital “Blood Knife”, o ensaio viral “Todo Mundo é Lindo e Ninguém Tem Tesão”. Ao confrontar as maiores produções da década de 2010 com as dos anos 1980 e 1990, Benedict percebeu que, embora os astros modernos tivessem sido lapidados até alcançar uma beleza quase inatingível, seus personagens frequentemente eram super-heróis politicamente corretos, com corpo de Adônis e libido de limão.

“Ninguém sente atração por ninguém. Ninguém tem fome de ninguém”, lamentou ela.

O erotismo volta a dominar as telas

O panorama, no entanto, mudou rapidamente. O sucesso estrondoso de “Rivalidade Ardente” — e, em menor proporção, de “Off Campus” — fez Hollywood correr para produzir imitações, enquanto “Love Island USA”, reality show em que pessoas atraentes disputam a formação de casais, virou o programa mais comentado dos Estados Unidos. Até os meninos de “Heartstopper”, antes puramente fofos, entraram no clima e esquentaram a trama.

O erotismo também transborda nas produções para o cinema, a ponto de “A Odisseia” ser criticada por sua castidade inesperada. Espartilhos foram rasgados em “O Morro dos Ventos Uivantes”; botas, lambidas no romance BDSM “Pillion”. “O Convite”, filme de Olivia Wilde sobre casais praticantes de swing, virou êxito de crítica, e a própria Wilde protagoniza uma parceira dominante no recém-lançado “I Want Your Sex”.

Vêm por aí ainda “Verity”, suspense erótico de outubro com Anne Hathaway e Dakota Johnson, e “Wicker”, comédia fantástica na qual Olivia Colman encontra satisfação sexual com um marido de vime vivido por Alexander Skarsgård. Também acaba de ganhar sinal verde uma comédia sobre os bastidores do manual sexual “The Joy of Sex”, de 1972.

“É muito empolgante ver o sexo voltando”, celebrou Benedict em entrevista.

Por que o sexo sumiu das telas?

Como observou Benedict, o sumiço do sexo das telas coincidiu com a ascensão do Universo Cinematográfico Marvel como gigante cultural e com o encolhimento dos filmes de orçamento médio para adultos. Na busca por proteger os lucros, os estúdios migraram para propriedades intelectuais consolidadas, com apelo máximo para todas as idades, perfis e mercados estrangeiros.

“Hollywood passou a alimentar essa nova geração com personagens assexuados”, reclamou ao The Times o diretor Richard Linklater, de filmes como a trilogia “Antes”, “Boyhood” e o sensual “Assassino por Acaso” (2023). “Super-heróis não fazem sexo. Eles nem têm genitália, sinceramente.”

O #MeToo, em 2017, redesenharia o tratamento das cenas íntimas, com coordenadores de intimidade para proteger os atores. Mas Benoit acha que a indústria exagerou na correção em outras frentes e resvalou para o puritanismo. Ela especula que Hollywood também tenha tentado agradar à Geração Z, cujas pesquisas indicavam preferência por menos sexo na tela — ainda que o assunto gere divergências.

“Houve uma atitude repressiva de ‘ah, então não damos nada!’, quase uma puritanice reacionária, uma revogação do sexo e do erotismo”, disse Benoit.

Ela notou que “Twisters”, de 2024, removeu um beijo final entre Glen Powell e Daisy Edgar-Jones depois que o produtor executivo Steven Spielberg recomendou o corte, embora os atores tenham dito que a decisão priorizava o arco da personagem de Edgar-Jones.

Um mercado em expansão

Essa retomada cultural não nasceu do acaso. A fome por conteúdo sensual vem se avolumando havia anos, como mostra o boom das livrarias dedicadas ao romance no país — eram apenas uma em 2016 e hoje somam mais de 230. Alicerces também foram construídos por obras quentes e populares como “Bridgerton”, “Saltburn”, “Rivais” e “Pobres Criaturas”, vencedora do Oscar.

Os thrillers eróticos, gênero que conheceu seu auge nas décadas de 1980 e 1990, vêm igualmente se recuperando de forma lenta, porém constante. A revista britânica Dazed até declarou, em janeiro de 2025 — quase um ano antes de “Rivalidade Ardente” estrear —, que “todo mundo está com tesão agora”. A diferença, contudo, é a imensa quantidade de produções com sexo no centro que viraram sucesso de público.

“De verdade, acho que isso é diferente”, considera Benoit sobre esse instante cultural, que ela enxerga para além dos closes gratuitos de seios ou das cenas de estupro de “Game of Thrones”. “Há muito mais narrativas românticas. É muito mais queer. Há mais do olhar feminino.”

Grande parte do que sai hoje dos estúdios, segundo Benoit, foi concebida logo depois do arrefecimento da pandemia de Covid, quando as inibições sociais afrouxavam e a diversão voltava a ser prioridade. Esmé Louise James, historiadora da sexualidade e autora de “Kinky History”, também credita ao impacto pandêmico o gosto cada vez mais adulto do público. “Houve uma enorme mudança na nossa exploração sexual nesse período”, afirma James, para quem isso ainda facilitou a entrada dessas conversas na mídia tradicional.

James, entretanto, vê forças potencialmente maiores em jogo. Ela lembra que, ao longo da história, períodos de agitação política e social sempre vieram acompanhados de demanda por conteúdo sexual — a Revolução Francesa, por exemplo, teve como pano de fundo a emergência da pornografia comercial. Esta era, diz ela, de “grande disrupção global”, não é exceção.

“O sexo na mídia funciona de modo muito parecido hoje. É inerentemente político. É usado para chocar, atrair, quebrar expectativas e provocar conversas globais”, argumenta.

A aposta de “Só Por Uma Noite”

“Só Por Uma Noite”, embora mais pudico que outros títulos que aqueceram o ano, claramente espera repetir o sucesso do diretor Will Gluck com “Todos Menos Você” (2023), comédia romântica protagonizada por Powell e Sydney Sweeney que virou um “fenômeno de bilheteria global” de US$ 220 milhões.

Assim como naquele filme, a nova produção encontra boa parte do charme erótico na química e nas brincadeiras maliciosas entre seus astros atraentes. O título aponta para o ato do desejo — e Benedict suspeita que isso será igualmente eletrizante para o público.

“A antecipação já é uma emoção por si só”, diz Benedict. “Você constrói a tensão. E isso deixa o clímax ainda mais satisfatório.”

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Sidnei Vicente

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