“Nós somos as provedoras do Brasil hoje”, afirma Ana Paula Padrão

No oitavo episódio de Na Palma da Mari: Entre Mulheres, a jornalista e a especialista Clara Sodré discutem autonomia financeira, relacionamentos, ambição e liderança feminina

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“Nós somos as provedoras do Brasil hoje. Não são mais eles, somos nós”, afirma Ana Paula Padrão no oitavo episódio de Na Palma da Mari: Entre Mulheres. A jornalista e a especialista em investimentos Clara Sodré discutem a transformação do papel das mulheres na sociedade e a importância da autonomia financeira para ampliar a liberdade de escolha, inclusive dentro dos relacionamentos. Ao longo da conversa, elas abordam casamento, divisão de responsabilidades, construção de patrimônio, ambição e liderança. O episódio estreia no YouTube do CNN Pop nesta quinta-feira (08/10), às 20h, e vai ao ar na TV no sábado (10), às 22h45.

Ao refletir sobre a mudança cultural no papel das mulheres, Ana Paula Padrão destaca que a transformação econômica já acontece, embora ainda não tenha sido completamente incorporada pela sociedade. “Mais de 50% do Brasil já é sustentado, bancado por mulheres. Nós somos as provedoras do Brasil hoje. Não são mais eles, somos nós. Só demora um tempo para que isso se reflita na cultura, para que a gente pare de dizer que ele é o chefe do domicílio”, afirma.

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Durante a conversa, Mari Palma recorda a visão sobre relacionamentos que presenciou na juventude. “Eu lembro de ouvir, nas rodas de conversa da minha família, as pessoas comemorando o relacionamento de outras mulheres com homens ricos. Ninguém falava primeiro se o cara era gente boa, se tinha caráter, se era uma pessoa honesta. A qualidade principal era financeira: era um bom partido. Eu cresci com isso na cabeça.” Ana Paula, então, complementa: “Agora os bons partidos somos nós”

Para Ana Paula, a independência financeira também passa por compreender os aspectos práticos das relações e pelo reconhecimento de que o casamento é um contrato. “A gente não pensa em que tipo de contrato está fazendo quando casa. E é um contrato. A mulher vai para o casamento pensando na festa, no vestido, e não pensa em que contrato está assinando. (…) Conheço várias mulheres que dizem: ‘Meu acordo com o meu marido é que eu vou ficar em casa e cuidar dos meus filhos, ele vai trabalhar e trazer o dinheiro’. OK. E 25 anos depois? Se você se separa e está escrito lá separação total de bens, o que fica para você? Nada. Então essa independência financeira passa por coisas que parecem banais, mas não são”, pontua.

A relação entre dinheiro e autonomia aparece também em situações cotidianas. “Se você faz um acordo com o seu marido e ele vai pagar as contas e você vai cuidar da casa e dos filhos, não reclame quando ele disser que gosta de calcinha de renda e você está com uma calcinha de algodão. Quem paga a sua calcinha é ele. E o dinheiro manda numa relação. Pode ser o maior amor do mundo, mas, se ele manifesta preferência pelo seu cabelo loiro, loira você será, porque você não tem independência para bancar a sua morenice ou o seu cabelo branco”, afirma.

Para Clara Sodré, o primeiro passo para mudar essa realidade é transformar desejos em objetivos concretos. “Existe uma diferença muito grande entre você sonhar e criar uma meta. E aí está o grande problema na maioria das vezes: nós, mulheres, temos muitos sonhos, mas não somos orientadas a criar metas ou uma estratégia para que esse sonho se realize. Então, existe uma diferença muito grande entre você sonhar e ser ambiciosa, e a ambição mora quando você aprende a construir o caminho para isso. É aí que está a grande diferença. É o estímulo dado desde a infância de você criar caminhos para chegar aos seus objetivos”, explica.

A especialista também diferencia a independência financeira, normalmente associada à formação de patrimônio, da autonomia necessária para tomar decisões no presente. “Quando a gente fala em independência financeira, muita gente pensa na hora em viver de renda, ter um patrimônio. Só que isso é um objetivo de longo prazo. Antes disso, você precisa ter autonomia financeira. Muitas vezes a mulher pensa no futuro de todo mundo e deixa o próprio para trás. A autonomia passa justamente por reconhecer que o nosso futuro merece atenção — e aí vem a ambição. E essa é a grande questão para você construir autonomia financeira”, esclarece.

Clara destaca ainda que a organização financeira dentro de um relacionamento deve considerar os diferentes papéis assumidos por cada pessoa. “Eu sou casada com uma mulher. Então, nós temos uma dinâmica familiar que foi construída ao longo do tempo. Não foi simplesmente: ‘Você lava os pratos e você vai sair para trabalhar’. Existe uma realidade em que você senta, entende o perfil de cada uma, entende o que cada uma está buscando e, a partir disso, cria uma realidade. Isso serve tanto para o dia a dia quanto para o dinheiro. Quando a gente fala de dinheiro dentro do relacionamento, é muito importante ter claro de qual patamar financeiro cada pessoa está saindo, quem está cuidando mais do lar ou não, porque o cuidado da casa é algo coletivo e ajuda, inclusive, na performance profissional de quem está saindo para trabalhar.”

Ana Paula Padrão reforça que a segurança financeira também amplia a capacidade de fazer escolhas profissionais e pessoais. “Ter um colchão financeiro ajuda muito. Ele te dá até autoestima para decidir que você não quer mais fazer aquilo e que vai fazer outra coisa. Tudo que eu ganhei, fui eu que ganhei, eu que construí. E ter esse colchão te dá autonomia porque você também se sente melhor para tomar decisões”, relata.

A jornalista também fala sobre as pressões culturais relacionadas à liderança e conta que chegou a adaptar a própria voz para ser percebida como uma figura de autoridade. “Tem estudos sobre a voz de poder. Qual é a voz que chega ao poder? Ela é sempre vista como uma voz de padrão masculino: mais grave, com menos ar entre as palavras, frases mais curtas e raciocínios mais lógicos. Eu não tinha essa voz com 20 anos. Eu mudei a minha voz porque percebi que seria mais bem entendida como uma pessoa de poder se tivesse uma voz de padrão masculino. E eu não fiz isso conscientemente. Olha o tamanho da barbaridade”, afirma.

No encerramento, Ana Paula questiona os modelos tradicionais usados como referência para discutir poder e liderança e defende a busca por exemplos femininos. “A maior parte dos livros que ensinam sobre poder foi escrita por homens. Então, não considera o potencial da mulher em liderar. E nós somos líderes por excelência. Lideramos a casa, a criação de uma vida, de uma criança, a maturidade dessa criança. (…) Minha grande provocação é: comece a seguir mulheres líderes que não abriram mão da feminilidade. Tudo bem se você quiser ter um trejeito mais masculino, sem problema nenhum. Você só precisa ter boas referências e entender que autoridade não tem nada a ver com gênero. Está cheio de mulher presidente de empresa hoje em dia, mulheres maravilhosas, de 40 anos, 40 e poucos. É maravilhoso”, conclui.

SERVIÇO

Na Palma da Mari – Entre Mulheres

  • Episódio: Ana Paula Padrão e Clara Sodré
  • Apresentação: Mari Palma
  • Exibição no YouTube: CNN Pop – quinta-feira (08/10), às 20h
  • Exibição na TV: CNN Brasil – sábado (10), às 22h45
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