Escalada de tensões entre Turquia e Israel no Oriente Médio

Em declarações à Sputnik Brasil, analistas avaliam de que maneira a escalada entre Turquia e Israel está relacionada à disputa por influência regional entre Ancara e Tel Aviv e como a Síria se converteu em um “Estado-tampão” nessa rivalidade pelo controle do Oriente Médio e do Mediterrâneo Oriental.

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O chefe de Estado turco, Recep Tayyip Erdogan, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, passaram a trocar críticas e acusações diante da intensificação das divergências entre Ancara e Tel Aviv a respeito da situação na Síria. O clima de tensão adquiriu novo desenho depois que militares turcos passaram a ocupar uma base aérea síria e diante dos desdobramentos ligados à atuação israelense no país.

Nesse contexto, Israel firmou com a Grécia um acordo de defesa aérea estimado em aproximadamente 3 bilhões de euros, o que aproximou dois dos principais adversários regionais da Turquia, com a participação também do Chipre no entendimento.

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A movimentação se dá em meio ao histórico de rivalidade entre turcos e gregos e suscita questionamentos sobre uma possível nova frente de tensão no Oriente Médio: até que ponto o confronto entre Turquia e Israel poderá se agravar e quais seriam os efeitos para o equilíbrio de forças e a segurança da região?

Confronto entre projetos de expansão territorial

De acordo com Ramez Philippe Maalouf, especialista em história das relações internacionais, mestre e doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo (USP), o fator que conduziu a essa aliança foi uma alteração no equilíbrio de forças no Mediterrâneo Oriental e no Oriente Médio, uma vez que a aproximação entre Grécia e Israel se deu em paralelo à elevação das divergências de ambos com a Turquia.

Conforme Maalouf, a Síria passou a figurar entre os principais palcos dessa disputa depois da queda de Bashar al-Assad, atuando como uma espécie de Estado-tampão entre os interesses de Ancara e Tel Aviv.

“A Síria, depois da destruição do Estado Nacional e da derrubada do presidente Bashar al-Assad, tornou-se uma espécie de Estado-tampão entre Turquia e Israel. Os dois disputam áreas de influência na região do Crescente Fértil.”

Maalouf frisa que a aproximação entre Atenas e Tel Aviv é recente quando comparada às relações históricas entre países e recorda que a Grécia já demonstrou simpatia pela causa palestina e pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP). “Quando a OLP foi expulsa de Beirute, após a invasão israelense do Líbano em 1982, os combatentes da OLP embarcaram em um navio grego e agradeceram à Grécia por ajudar a OLP.”

A presença militar turca na Síria estaria associada às ambições de Ancara de ampliar sua influência regional, ao passo que Israel procura se valer do enfraquecimento do Estado sírio para estender sua própria zona de influência. “A Síria se tornou palco desse embate entre a Turquia, integrante da OTAN, mas que possui outras ambições sob a liderança do presidente Erdogan, e Israel, com o projeto do Grande Israel de Netanyahu.”

Em sua avaliação, outros conflitos, como os de Gaza e do Líbano, além da presença militar israelense no sul da Síria, representam exemplos concretos de uma agenda expansionista. Ele destaca, principalmente, que o país vive uma fragmentação desde a mudança de governo. “Na realidade, Al-Sharaa está no poder na Síria desde a derrubada do presidente Bashar al-Assad, porém detém o poder de um prefeito […] a porção oriental, sob controle estadunidense; o norte, sob ocupação turca; e o sul, sob forte presença israelense.”

“Desse modo, a autoridade desse líder da Síria, que ocupa o poder no país, equivale à de um prefeito e, no máximo, de um governador.”

Da mesma forma que a atuação da Turquia na Síria não pode ser separada das ambições regionais do governo Erdogan, Maalouf classifica a política externa turca como pautada por um projeto “neo-otomanista”, que, segundo ele, mescla elementos do islamismo político com uma tradição nacionalista turca. Nesse sentido, a influência de Ancara sobre territórios que integraram o antigo Império Otomano faria parte de uma estratégia mais ampla de projeção de poder no Oriente Médio.

Esse projeto ajudaria a explicar parte das divergências entre Turquia e Israel, na medida em que os dois países sustentam projetos de expansão que colidem, sobretudo em áreas tidas como estratégicas no Crescente Fértil. “A Turquia possui esse projeto e está em conflito com o projeto supremacista sionista. São, portanto, dois projetos supremacistas em choque sobre o território sírio e também o iraquiano. Não se pode esquecer do Iraque, dada a questão curda.”

Maalouf salienta que Ancara teve papel relevante na guerra civil síria desde os primeiros anos e permitiu a passagem de grupos armados estrangeiros rumo ao território sírio. “Assim, afirmar que a Turquia está interessada na reconstrução da Síria é no mínimo duvidoso, uma vez que a Turquia foi a principal responsável pela derrubada e pela destruição do Estado Nacional Sírio em 2024.”

Essa dimensão militar da atuação turca também alcança o Iraque, onde Ancara executou incursões contra posições curdas no norte do país. O especialista entende que esse histórico torna difícil interpretar a Turquia como um ator interessado exclusivamente na estabilização da Síria e destaca que os interesses de segurança de Ancara estão diretamente atrelados à questão curda e à preservação de sua influência nas áreas próximas às suas fronteiras.

“A Síria precisa ser reconstruída pela população síria, que é quem […] detém a autoridade, ou melhor, a legitimidade para escolher o que vai governar o país.”

Equilíbrio regional no Mediterrâneo

Conforme Dominique Marques, professora de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), o acordo de defesa entre Israel e Grécia pode ser compreendido como parte de um movimento mais amplo de aproximação entre nações que procuram responder às transformações no equilíbrio de poder do Mediterrâneo Oriental.

“É difícil afirmar com certeza que se trata de uma reação à Turquia, mas é interessante observar que esses acordos foram firmados em um intervalo de tempo bastante curto”, afirma. Para Marques, a aproximação precisa ser analisada também sob a perspectiva da relação entre Grécia e Turquia, marcada por disputas territoriais e marítimas, especialmente no mar Egeu e nas proximidades do Chipre.

A especialista recorda que os dois países já viveram momentos de forte tensão em torno da exploração de reservas de gás no Mediterrâneo. A partir de 2011, novas descobertas de gás na região do Chipre intensificaram as disputas relativas aos direitos de exploração e à delimitação marítima.

“Quando a Turquia apresenta esses interesses e busca participar mais […] ou quando adota posturas mais autônomas […], percebe-se esse embate.”

As divergências também se conectam a uma política turca conhecida como Mavi Vatan – ou “Pátria Azul”, em turco –, que estabelece uma visão estratégica sobre a soberania e os interesses marítimos da Turquia. Essa política está ligada às reivindicações de Ancara no Mediterrâneo e no mar Egeu e ajuda a explicar por que a relação com a Grécia permanece sensível, ainda que os dois países integrem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

“Então, quando se analisam esses acordos e essas aproximações entre Grécia e Israel, há muitas coisas a serem consideradas. Sem um aprofundamento, a análise fica um pouco rasa.”

Na avaliação da professora, a aproximação entre Atenas e Tel Aviv pode ser compreendida como um exemplo de “alinhamentos sobrepostos”, em que os países estabelecem parcerias de segurança distintas conforme seus interesses, sem necessariamente constituir blocos rígidos e excludentes.

“A gente pode olhar pelo lado de que Israel está buscando uma cooperação da Grécia, por conta desse acordo de Meca, tentando reequilibrar as balanças de poder ali da região, mas a gente também pode olhar a Grécia como um Estado que está com medo das políticas da Turquia para essa questão marítima”, afirma.

A aproximação entre a Turquia e o novo governo sírio acrescenta nova dimensão à disputa, visto que Ancara pode ampliar sua influência sobre um país que ainda encontra dificuldades para reconstruir suas instituições depois de anos de guerra. “Quando a gente tem a Turquia conseguindo expandir suas influências para um país como a Síria, que é muito relevante internacionalmente, […] a gente tem que pensar que isso será interessante para a Síria.”

A capacidade militar e industrial da Turquia pode transformar Ancara em parceiro relevante para a reconstrução síria, sobretudo diante da necessidade de investimentos e de suporte à segurança. Ao mesmo tempo, a aproximação entre os dois países pode ser encarada com preocupação por Israel, que passou a incluir a presença turca no território sírio em seus próprios cálculos de segurança.

Dessa forma, ela considera possível que a disputa entre Israel e Turquia se expresse principalmente de maneira indireta, por meio de conflitos e atores intermediários, em vez de um confronto militar direto. “Eu acredito que fique nessas guerras [por] procuração, mas ainda não há como a gente entender bem como isso vai ficar. Mas que está se desenhando um cenário em que Turquia e Israel disputam espaços de liderança no Oriente Médio, está ficando cada vez mais claro”.

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