Estamos a poucos dias de mais um pleito e, ao contrário dos anteriores, o deste ano foi marcado de forma inquestionável pela presença da Inteligência Artificial. Não se trata da inclusão de candidatos virtuais inteiramente gerados por IA — como já testemunhamos em experiências recentes na Colômbia, no Reino Unido e na Nova Zelândia —, e nem da candidatura híbrida que foi lançada em São Paulo há dois anos.
Refiro-me, especificamente, ao uso dos talentos musicais da IA para “criar” jingles para os candidatos que disputam vagas nos poderes executivo e legislativo. O avanço acelerado e o uso cada vez mais intenso das plataformas de música generativa não iriam, de forma alguma, ficar de fora da nossa tradicional festa da democracia.
Aproveitando-se do fato comprovado de que a maior parte das pessoas simplesmente não consegue identificar quando uma música foi composta por algoritmos de IA ou por seres humanos de carne e osso, muitos marketeiros políticos lançaram mão desse recurso sem hesitar. O objetivo principal é capturar a atenção do eleitorado brasileiro em um cenário saturado de estímulos visuais e sonoros.
Outro aspecto crucial dessa transformação é a extrema facilidade e rapidez com que esses jingles podem ser obtidos. Nas plataformas digitais de música generativa, não é mais necessário esperar semanas por uma produção: basta digitar um prompt bem elaborado com o estilo desejado e as diretrizes do candidato para que, em menos de cinco minutos, surjam pelo menos duas versões completas, com letra, melodia e arranjo prontos para uso.
Além de rápido, o processo de produção de uma música promocional por Inteligência Artificial é muito mais barato do que o modelo tradicional. Desaparece a necessidade de contratar compositores, cantores, instrumentistas e arranjadores. Da mesma forma, corta-se drasticamente a despesa com estúdio de gravação, mixagem e masterização, custos que historicamente pesavam nos orçamentos de campanha por serem cobrados por hora de trabalho.
Apesar de todas essas vantagens logísticas e financeiras, a produção massificada de jingles por IA tem os seus próprios problemas e limitações estéticas. Como as plataformas generativas operam basicamente por meio do processamento e da recombinação de estatísticas de material sonoro pré-existente, o resultado final tende a ser invariavelmente genérico, padronizado e desprovido de um diferencial marcante ou de genuína identidade cultural.
https://youtube.com/shorts/AzPBz1KQSLk?si=AKgRRiCuvbAXi9jY
Será que uma plataforma dessas, dentre tantas disponíveis no mercado, teria a capacidade real de compor algo verdadeiramente memorável e contagiante? Reflito se os algoritmos conseguiriam reproduzir a simplicidade genial e o apelo popular de peças históricas do nosso marketing político, como o famoso e inesquecível jingle de um certo democrata cristão. Sou fortemente inclinado a dizer que não.
No fim das contas, a eficiência técnica da IA entrega agilidade e economia aos comitês partidários, mas cobra seu preço na pasteurização da criatividade. O eleitor pode até cantarolar um refrão gerado por algoritmo durante o período eleitoral, mas dificilmente guardará na memória emocional uma canção que nasceu da média fria de dados digitais, e não da sensibilidade única da criação humana.
PS: Evitei a inclusão de links com exemplos de jingles criados por IA para não indicar qualquer preferência eleitoral.







