A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) produziu um relatório que sinaliza o risco de influência ou intervenção dos Estados Unidos nas eleições brasileiras deste ano. O documento secreto ainda alerta sobre uma tendência de aumento da pressão estadunidense sobre o Brasil.
Este relatório foi enviado no final de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. As informações foram divulgadas neste sábado (19) pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmadas pela TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Conforme a publicação, a inteligência brasileira considera a possibilidade de interferência externa como tendo um “nível de criticidade” e contextualiza o problema apontando que “a afirmação da hegemonia dos EUA na América Latina” é uma prioridade do segundo mandato do presidente norte-americano Donald Trump. A meta é distanciar “rivalidades dos EUA”, como a China, de ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região.
A análise da Abin indica que as ações dos Estados Unidos em relação ao Brasil se intensificaram nos últimos meses. Além da ingerência nas eleições, o país tem sido alvo de medidas econômicas e políticas que prejudicam os interesses nacionais.
Enquanto isso, o governo brasileiro tenta manter relações diplomáticas e comerciais positivas. Apesar de criticar as ações do governo estadunidense, é comum ouvir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmar, em eventos e entrevistas, “eu me dou muito bem com o Trump”.
Entenda
Tudo começou com a famosa “química” que teria surgido entre ambos durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025. Esta foi a definição exata do presidente norte-americano após um breve encontro entre eles, quando Lula deixava o palco e Trump se preparava para fazer seu discurso.
No entanto, essa aparente boa relação não significa facilidade para a diplomacia ou para a economia do Brasil.
Desde abril de 2025, o Brasil tem enfrentado tarifas sobre as exportações de produtos vendidos ao vizinho do Norte. Inicialmente, foi aplicada uma tarifa de 10% a diversos países. Neste contexto, o interesse puramente econômico predominava nas medidas anunciadas.
Dois meses depois, porém, a política começou a influenciar as decisões econômicas do governo estadunense. Em 30 de julho, Donald Trump assinou uma Ordem Executiva (OE) que considerava o Brasil uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA” e elevou a tarifa total para 50%.
Aumento das tarifas
Entre os motivos apresentados para o aumento da tarifa, destacou-se a atuação da Justiça brasileira ao restringir a operação de redes sociais em seu território. Dentre essas plataformas, estavam a Rumble, da Trump Media & Technology Group (TMTG), e o X, antigo Twitter, que é presidido por Elon Musk, aliado de Donald Trump.
A restrição a certas redes sociais foi relacionada à incitação de discursos de ódio e ameaças à democracia, segundo o Supremo Tribunal Federal.
Outra justificativa para as tarifas foi a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O governo dos Estados Unidos considerou a condenação uma perseguição política e uma intimidação contra opositores do atual governo.
Trump reiterou a versão de Bolsonaro, que alega ser alvo de perseguição no processo pelo qual foi acusado de liderar a tentativa de um golpe de Estado no Brasil. Na ocasião, Bolsonaro pressionou comandantes militares para que suspendessem o resultado da eleição presidencial de outubro de 2022, quando foi derrotado por Lula.
Lei Magnitsky
Além das tarifas, o governo norte-americano foi além e aplicou a Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator dos processos relacionados à trama golpista, assim como a sua esposa, a advogada Viviane Barci Moraes.
Essa é uma legislação nacional que prevê o bloqueio de contas bancárias, ativos e investimentos financeiros nos Estados Unidos, a proibição de transações com empresas americanas no Brasil, além da proibição de entrada no país.
Na ocasião, os ministros do STF Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes também tiveram seus vistos revogados pelos EUA.
Em dezembro de 2025, Moraes e sua esposa foram retirados da lista de sancionados pela Lei Magnitsky.
O papel de Eduardo Bolsonaro
Além disso, Eduardo afirmou ter atuado junto às autoridades americanas para alcançar esse resultado. Isso resultou em uma denúncia de coação no curso do processo, ao incentivar os EUA a aplicar tarifas para pressionar a Justiça a não condenar seu pai.
Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF em junho de 2026. Ele permanece residindo nos Estados Unidos e perdeu seu mandato parlamentar por não comparecer às sessões da Câmara dos Deputados.
Queda nas tarifas
Em fevereiro deste ano, porém, Donald Trump enfrentou um revés em sua política tarifária. A Suprema Corte dos Estados Unidos anulou as tarifas sobre produtos importados que haviam sido impostas globalmente por Trump.
A Corte decidiu que a imposição de tarifas feita pelo presidente interferiria nos poderes do Congresso dos EUA e violaria um princípio jurídico conhecido como doutrina das questões importantes. Assim, o governo dos EUA foi obrigado a devolver bilhões de dólares arrecadados de maneira ilegal.
Apesar dessa limitação legal, o governo dos Estados Unidos ainda utiliza tarifas, inclusive contra o Brasil. Em 22 de julho, os EUA anunciaram uma sobretaxa de 25%. Essa medida afetou 19% das exportações brasileiras para o país norte-americano.
A alegação do governo Trump, neste caso, baseava-se em “práticas desleais” do Brasil na relação entre ambos. Entre essas práticas, estavam o uso do PIX (sistema de pagamentos eletrônicos brasileiro), a regulação das redes sociais, o desmatamento ilegal e acordos preferenciais com México e Índia, entre outros.
Dias depois, uma nova tarifa de 12,5% foi imposta, sob a justificativa de que o Brasil não adota mecanismos eficazes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. O governo brasileiro classificou a tarifa como “arbitrária e injustificada” e destacou o reconhecimento internacional do país no combate ao trabalho escravo.
Atualmente, parte dos produtos exportados para os Estados Unidos pode ser tributada em até 37,5%.
Organizações terroristas
Em maio deste ano, os EUA anunciaram, por meio de um comunicado do Departamento de Estado, a designação das facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
O governo brasileiro tentou evitar essa categorização durante meses. Na avaliação do governo, isso poderia abrir espaço para uma ação militar dos EUA no Brasil ou a imposição de sanções severas em setores econômicos e financeiros.
Segundo especialistas, a rotulação dessas facções como terroristas pode, na verdade, atenuar eventuais punições a quem comete crimes de narcotráfico, lavagem de dinheiro, extorsão, latrocínio e contrabando de armas e munições.
Visto revogado
Em 4 de agosto, os EUA comunicaram a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O país norte-americano justificou a ação pela lentidão do Brasil em responder à solicitação de aprovação da indicação do governo Trump para a embaixada dos EUA no Brasil.
O governo brasileiro contestou as alegações, considerando-as falsas. Em nota divulgada na época, o Brasil afirmou que os EUA violaram a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas ao tornarem público o nome do indicado para a embaixada no Brasil.
Segundo o governo, o nome só poderia ser divulgado após a concessão da anuência do país anfitrião.
Lula e Trump
Embora reafirme seu bom relacionamento pessoal com Donald Trump, o presidente Lula não hesita em criticá-lo. Em junho, afirmou que Trump “cometeu uma afronta” ao sugerir novas tarifas contra o Brasil enquanto os dois países dialogam.
Isso, porém, não impede encontros ou conversas telefônicas entre eles. Após o breve encontro na ONU, em setembro de 2025, os dois se encontraram novamente no mês seguinte em Kuala Lumpur, na Malásia, durante a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).
Nesse encontro, Trump declarou-se “honrado” por se reunir com o presidente brasileiro, mas nenhum acordo foi anunciado.
O último encontro entre os dois ocorreu em maio deste ano, em Washington. Durante a reunião, Lula buscou explicar que os Estados Unidos possuem superávit na relação comercial com o Brasil e que não há “práticas desleais” no comércio. Levou documentos e firmou com seu homólogo um compromisso de negociar entre as equipes dos dois governos.
A reunião durou mais de três horas. Lula também apresentou as medidas do Brasil contra o crime organizado, numa tentativa de evitar a classificação das facções brasileiras como terroristas, o que se concretizaria dias depois.
Em abril, Brasil e Estados Unidos já haviam formalizado um acordo de cooperação mútua visando combater o tráfico internacional de armas e drogas.
Além de encontros presenciais, os dois já se comunicaram por telefone em pelo menos quatro ocasiões. A mais recente dessas conversas, a mais longa, com 1h20 de duração, ocorreu em agosto. A iniciativa partiu do presidente brasileiro, com o intuito de retomar as negociações comerciais e debater a contenção de conflitos internacionais.
Ambos estarão juntos novamente na 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na próxima terça-feira (22). Lula, como presidente do Brasil, tem a responsabilidade de abrir o Debate Geral, seguido pela fala do presidente dos Estados Unidos.
Entretanto, não há um encontro bilateral agendado entre eles.







