A 18ª Cúpula de Líderes do BRICS, sediada em Nova Délhi em 12 e 13 de setembro de 2026, teve como lema “Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade: Moldando o Futuro para um Crescimento Global Inclusivo” e procurou reposicionar o papel global do bloco após a expansão ocorrida no ano anterior.
Vinte anos atrás, quando o agrupamento surgiu como uma reunião de chanceleres de Brasil, Rússia, Índia e China — e mesmo com a incorporação da África do Sul, em 2010 —, o ambiente internacional era distinto, e o BRICS operava como uma plataforma de cooperação multilateral entre as maiores economias emergentes.
À época, grande parte dos analistas recebeu a iniciativa com desconfiança, enxergando o BRICS como um conjunto de nações geograficamente afastadas entre si e com interesses e realidades bastante diversos, o que tornaria inviável tanto a construção de consensos no plano político quanto uma cooperação econômica eficaz.
Atualmente, o mundo vive uma nova conjuntura geopolítica que conduziu o BRICS a uma profunda metamorfose: de mecanismo de cooperação passou a ser uma plataforma voltada às reivindicações do Sul Global. Isso fortaleceu o grupo e impulsionou uma expansão célere, ampliando sua abrangência geográfica para o Oriente Médio, o Norte da África e o Sudeste Asiático.
Visões de Brasil e China sobre o BRICS
Brasil e China consideram o BRICS uma plataforma central para impulsionar a reforma da governança global e edificar uma ordem multipolar. Ambos unem esforços para se contrapor ao unilateralismo e à coerção comercial, promover mudanças nas instituições internacionais que ampliem a voz dos emergentes e buscar alternativas ao dólar no comércio internacional, com o objetivo de proteger seus interesses legítimos como Estados soberanos.
No entanto, também existe uma diferença estratégica fundamental entre os dois países, reflexo de realidades sociais, econômicas e geopolíticas bastante diferentes: para a China, o BRICS serve como contrapeso à pressão do Ocidente, que observa com suspeita a ascensão chinesa.
O Brasil, por sua vez, vê o BRICS como um instrumento para conquistar maior protagonismo político internacional e diminuir sua dependência econômica por meio da diversificação de parcerias, trilhando o caminho autônomo de desenvolvimento historicamente negado ao país.
Agenda brasileira: continuidade das decisões da cúpula de 2025
Em meio a um momento decisivo da campanha para as eleições presidenciais de outubro, nem Lula nem Alckmin puderam comparecer a Nova Délhi; o Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Isso não quer dizer, porém, que a agenda brasileira tenha perdido força. Pelo contrário, Vieira desembarcou em Nova Délhi com uma pauta alinhada aos desafios enfrentados pelo país, que, sob forte pressão econômica do governo Trump, necessita com urgência diversificar parcerias comerciais para resguardar sua soberania.
Na área econômica, Vieira ressaltou a complementaridade das economias do BRICS e a capacidade do bloco de liderar um novo paradigma de desenvolvimento ancorado em agricultura sustentável, manufatura avançada, energia renovável, bioeconomia e inteligência artificial.
Mais do que retórica, o Brasil apresentou ações concretas: altos executivos de mais de 15 grandes companhias brasileiras estiveram no Fórum Empresarial do BRICS em busca de sócios e investimentos, com o intuito de ampliar alianças e integrar cadeias produtivas e de suprimentos, reduzindo os riscos de rupturas provocadas pelo unilateralismo de Trump.
No terreno político, o Brasil manteve coerência com suas bandeiras históricas em defesa do multilateralismo e da reforma da governança global, e obteve uma vitória relevante em uma das frentes mais importantes da diplomacia brasileira: a busca por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Tal como na cúpula anterior, presidida pelo Brasil, China e Rússia — na condição de membros permanentes do Conselho de Segurança — reafirmaram o apoio “à aspiração do Brasil e da Índia de desempenhar um papel maior nas Nações Unidas, incluindo em seu Conselho de Segurança”.
O encontro de Nova Délhi registrou progressos significativos nessa área, a exemplo do respaldo unânime dos integrantes do BRICS à reforma ampla do Conselho de Segurança e da pressão da presidência indiana por um calendário concreto, em vez do simples diálogo que predominou até aqui.
Por fim, registrou-se a declaração do próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, favorável à reforma do Conselho de Segurança, ao afirmar que as instituições precisam espelhar o mundo contemporâneo.
Agenda chinesa
O presidente chinês, Xi Jinping, apresentou em Nova Délhi uma agenda estruturada em três eixos: tecnologia e inteligência artificial, reforma da governança global e integração econômica e financeira. Trata-se de uma pauta bastante convergente com os interesses brasileiros.
No primeiro eixo, Xi sugeriu uma Comunidade BRICS de inteligência artificial de código aberto, destinada a ampliar o acesso e a cooperação tecnológica; uma plataforma de nuvem para o ecossistema digital do bloco, com vistas a facilitar a cooperação digital; e um programa de intercâmbio juvenil em inovação científica e tecnológica para estimular a troca entre jovens pesquisadores.
Essa proposta representa uma continuação natural do debate travado sob a presidência brasileira no ano anterior, que destacou inquietações como o acesso equitativo aos recursos de IA, a proteção de dados pessoais, o respeito aos direitos humanos e a participação do Sul Global no desenvolvimento e na regulação da inteligência artificial.
No segundo eixo, a China valeu-se da crescente relevância econômica e política dos membros do BRICS para defender que o bloco exerça maior influência na construção de uma ordem internacional mais justa, equitativa e multilateral, com participação ampliada do Sul Global.
No terceiro eixo, a China enfatizou o incentivo ao comércio internacional em moedas locais e a interoperabilidade das moedas digitais emitidas por bancos centrais, medidas extremamente oportunas para o Sul Global em um momento no qual Trump ameaça outras nações com sanções e práticas unilaterais apoiadas na hegemonia do dólar como moeda internacional.
Ainda nesse eixo, a China também reivindicou maior representação das economias emergentes nas instituições internacionais, o que se pode interpretar como uma tentativa de reformar o sistema de Bretton Woods, a fim de promover uma governança econômica global mais justa e equilibrada.
Exibindo uma leitura apropriada dos riscos e prioridades que o mundo enfrenta, Xi Jinping aproveitou a ocasião para apresentar medidas do interesse chinês capazes de ajudar todo o Sul Global a encarar desafios relevantes.
Contudo, ainda é preciso converter o diálogo em ações concretas, como a criação de estruturas, projetos e um mecanismo de financiamento aptos a gerar resultados tangíveis. A presidência chinesa do BRICS em 2027 pode representar a oportunidade de ouro para amadurecer essa agenda e viabilizar tudo o que foi exposto em Nova Délhi.
Encontro bilateral entre Xi e Modi
O encontro bilateral entre o mandatário chinês, Xi Jinping, e o indiano Narendra Modi foi outro destaque da visita do presidente da China à Índia. A imprensa ocidental tende a enxergar os dois países como rivais, seja por causa de disputas territoriais, seja pela visão reducionista de que ambos estariam disputando a hegemonia no continente asiático.
Quem acompanha há mais tempo as relações entre China e Índia sabe que a questão é bem mais complexa: a Organização para a Cooperação de Xangai, que se reuniu recentemente no Quirguistão, evidencia que as principais economias asiáticas não procuram o confronto, mas sim administrar suas diferenças por meio de consultas, ao mesmo tempo em que aproveitam os pontos em comum para coordenar um desenvolvimento conjunto.
No encontro bilateral, Xi afirmou que a China encara as relações com o vizinho a partir de uma perspectiva estratégica e de longo prazo, que os dois países devem tirar proveito de suas respectivas vantagens, que China e Índia precisam apoiar-se mutuamente e buscar o desenvolvimento conjunto, e que devem ser parceiros.
Modi, por sua vez, destacou os princípios de respeito mútuo, sensibilidade mútua e interesse mútuo, além de defender a ampliação dos intercâmbios culturais e empresariais e também da mobilidade entre as duas nações.
Modi também abordou a questão fronteiriça bilateral, declarando que a paz e a tranquilidade nas regiões de fronteira são fundamentais para o avanço das relações bilaterais, que os acordos e entendimentos já existentes sobre a fronteira devem ser respeitados, e que ambas as partes precisam buscar uma solução justa, razoável e mutuamente aceitável.
A reunião mostrou que as preocupações estratégicas de China e Índia convergem em muitos aspectos, e resultou em um compromisso político de seguir aprimorando as relações. Não houve acordo definitivo sobre as principais divergências, mas se estabeleceu a base para um vínculo bilateral mais estável e para a ampliação da cooperação econômica.
Os dois líderes concordaram que as relações não devem ser pautadas somente por divergências pontuais e reconheceram a necessidade de abordar temas ligados ao desequilíbrio comercial, às cadeias de suprimentos e ao acesso a mercados.
Xi e Modi comprometeram-se a fortalecer os intercâmbios culturais e empresariais e a facilitar a mobilidade. Tal medida tem enorme relevância, já que os dois países possuem grande peso demográfico e econômico, porém prioridades diferentes e relações distintas com outras potências. Por intermédio dos intercâmbios e do fortalecimento da cooperação bilateral, é possível que os dois países alcancem um alinhamento mais favorável ao empoderamento do Sul Global.
China assume a presidência do BRICS
A estabilização das relações bilaterais entre China e Índia é essencial para que a transição da presidência do BRICS — da Índia para a China — ocorra da melhor maneira possível, assegurando uma continuidade de agenda que beneficie todos os países-membros e, por consequência, todo o Sul Global.
Mas o que se pode aguardar da presidência chinesa no próximo ano? Quais pontos deverão ser priorizados? O discurso de Xi Jinping na segunda sessão principal do encontro oferece uma pista: ele ressaltou a necessidade de consolidar os alicerces da cooperação do BRICS e fortalecer o Sul Global.
Xi quer que o BRICS seja pioneiro em quatro frentes: desenvolvimento movido pela inovação, preservação da paz e da estabilidade, promoção do aprendizado mútuo entre civilizações e reforma e aperfeiçoamento da governança global.
Tais frentes remetem às quatro iniciativas globais propostas pelo presidente chinês: a Iniciativa para o Desenvolvimento Global, a Iniciativa para a Segurança Global, a Iniciativa para a Civilização Global e a Iniciativa para a Governança Global.
Xi afirmou que as nações do Sul Global devem atuar conjuntamente em defesa do Estado de Direito nas relações internacionais e da manutenção do multilateralismo, priorizar o desenvolvimento centrado nas pessoas, reforçar a cooperação em segurança e promover uma ordem internacional mais justa.
As declarações de Xi mostram que a China enxerga o BRICS como uma plataforma para atualizar a governança mundial, e pretende fazê-lo por meio da promoção do multilateralismo. A China não almeja a hegemonia, mas sim uma ordem global mais equitativa e democrática, capaz de refletir o verdadeiro peso econômico, demográfico e geopolítico dos países.
A expectativa é que a agenda da presidência chinesa tenha duas vertentes. No campo estratégico, os focos deverão ser o empoderamento do Sul Global e a reforma da governança internacional, pois essa é a única maneira de edificar uma ordem mundial multipolar.
Já no campo operacional, a China provavelmente apresentará uma agenda de cooperações concretas inspirada nas quatro iniciativas globais, a qual deverá abranger cooperação econômica — incluindo IA, comércio internacional e pagamentos em moedas locais —, além do aprofundamento de intercâmbios em suas múltiplas formas, como instrumento para promover a cooperação e a amizade entre os povos.
Agora, resta aguardar os desdobramentos.







