O bloco BRICS, composto pelas principais economias emergentes do planeta, segue adiante com o projeto de criar uma bolsa de grãos unificada, uma iniciativa que conta com o respaldo do presidente da Rússia, Vladimir Putin. A expectativa é que esse mecanismo abra mais um canal de negociação em grande escala no agronegócio internacional e, ao mesmo tempo, diminua o poder das bolsas ocidentais de commodities sobre as transações e a definição de preços.
Durante a reunião dos ministros da Economia e do Comércio do BRICS, realizada na semana passada em Jaipur, na Índia, a Rússia apresentou o desenho operacional da bolsa de grãos do bloco. Na ocasião, os representantes das pastas econômicas analisaram minuciosamente o projeto e manifestaram disposição para colocá-lo em prática.
Proposta russa de plataforma digital
De acordo com a proposta encaminhada por Moscou, a bolsa atuaria como uma plataforma digital integrada, na qual produtores e compradores do setor agrícola poderiam negociar de forma direta, sem a necessidade de intermediação.
Em 2023, a União Russa de Exportadores e Produtores de Grãos já havia sugerido a implementação de uma bolsa de grãos do BRICS. Na ocasião, a entidade estimou que o volume de negócios com produtos agrícolas e itens relacionados poderia ultrapassar US$ 1 trilhão caso o projeto saísse do papel.
Apoio ao plano e impacto global
Em 2024, o presidente Vladimir Putin também endossou a ideia, ressaltando que o objetivo seria concorrer com o modelo de precificação de grãos controlado pelo Ocidente e questionar a hegemonia do dólar norte-americano como principal moeda para transações globais.
Recentemente, o vice-ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Vladimir Ilyichev, declarou que a bolsa de grãos do BRICS permitirá que os países integrantes tenham uma atuação mais ativa na definição do valor de seus produtos agrícolas.
Hoje, as nações do BRICS respondem por aproximadamente 42% da produção global de grãos e concentram mais de dois terços dos pequenos agricultores e produtores familiares do mundo. Ainda assim, a comercialização e a precificação de diversas commodities agrícolas internacionais seguem fortemente atreladas a bolsas ocidentais, como a Bolsa Mercantil de Chicago e a Euronext.
Benefícios esperados
Vladimir Ilyichev ressaltou que a redução da participação de intermediários na cadeia de suprimentos agrícolas poderia gerar ganhos econômicos para produtores e consumidores. O vice-ministro acrescentou que custos adicionais tendem a reduzir a receita dos agricultores por item vendido, ao mesmo tempo em que elevam os preços pagos pelos compradores, diferentemente do que ocorreria em operações diretas realizadas em bolsas.
Caso saia do papel, a bolsa de grãos do BRICS serviria para aproximar produtores e compradores, reduzindo os custos das transações e tornando mais transparente a formação de preços dos alimentos comercializados dentro do bloco. A Rússia também prevê que o modelo possa ser ampliado gradualmente, dos grãos para outras categorias de produtos agropecuários.
A iniciativa chega em um momento em que os integrantes do BRICS buscam formas de ampliar a cooperação comercial e criar estruturas de negociação menos vinculadas a plataformas controladas por países ocidentais. Como detêm uma fatia expressiva da produção e do consumo agrícola mundial, os membros do bloco poderiam estruturar um mercado robusto se houver consenso sobre as regras de funcionamento e adesão em escala suficiente de produtores, comerciantes e compradores.
Próximos passos na cúpula do bloco
A Índia, que ocupa a presidência do bloco neste ano, vai sediar a Cúpula do BRICS entre os dias 12 e 13 de setembro. A expectativa é que o encontro ofereça uma ocasião para os países membros aprofundarem o debate sobre o cronograma de implantação da bolsa de grãos e os mecanismos operacionais envolvidos.
Analistas avaliam que, se o projeto for adiante, a bolsa de grãos representará um passo importante nos esforços do BRICS para ampliar os mecanismos de negociação interna, diminuir a dependência de intermediários ocidentais e reforçar a influência dos grandes países produtores na determinação dos preços internacionais das commodities.







