BRICS batem recordes em energias renováveis e combustíveis fósseis

Os países que compõem o BRICS foram responsáveis por uma das maiores expansões energéticas já observadas globalmente em 2025. Contudo, os números apontam para um cenário intrincado e, à primeira vista, contraditório: o mesmo bloco que impulsiona a revolução mundial das energias renováveis também segue ampliando sua capacidade de geração com base em combustíveis fósseis.

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De acordo com um novo estudo do Global Energy Monitor (GEM), as dez nações que hoje integram o BRICS registraram acréscimos recordes de capacidade de geração em praticamente todas as matrizes energéticas principais, abrangendo desde o carvão e o gás natural até a energia solar e eólica.

Esse fenômeno evidencia os obstáculos enfrentados por economias emergentes que buscam, ao mesmo tempo, atender ao aumento acelerado da demanda por eletricidade, fortalecer a segurança energética e honrar compromissos ligados à transição climática.

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Crescimento sem precedentes das renováveis

As informações compiladas pelo Global Energy Monitor indicam que as nações do BRICS acrescentaram 497 gigawatts (GW) de capacidade solar e eólica em 2025, atingindo um novo patamar histórico para o grupo. A China destacou-se como o principal propulsor dessa expansão, instalando 315 GW de energia solar e 119 GW de eólica em um único ano, o que equivale a aproximadamente 87% de todas as novas adições renováveis verificadas no bloco.

A Índia também atingiu marcos inéditos, adicionando quase 38 GW de energia solar e mais de 6 GW de capacidade eólica, firmando-se como a segunda força mais relevante na transição energética do grupo. Brasil e África do Sul seguiram ampliando sua capacidade renovável, embora em proporções bastante menores. No caso brasileiro, a união das fontes solar e eólica já responde por cerca de 30% da geração anual de eletricidade, colaborando para diminuir a dependência de usinas térmicas durante períodos de menor produção hidrelétrica.

Carvão mantém crescimento mesmo com revolução verde

O ponto mais surpreendente do relatório está no fato de que o avanço das energias renováveis não está freando os investimentos em combustíveis fósseis. Conforme o Global Energy Monitor, os países do BRICS adicionaram 125 GW de nova capacidade baseada em carvão, petróleo e gás em 2025, o maior montante já registrado pelo grupo. Descontando as usinas desativadas no período, a capacidade fóssil líquida cresceu 115 GW, também um recorde histórico.

A China voltou a liderar esse movimento, colocando em operação 78 GW de novas centrais a carvão, o maior volume anual desde 2007. A Índia incorporou 10 GW, a Indonésia somou mais 4 GW, e a África do Sul concluiu a última unidade da usina de Kusile. Paralelamente, sete nações do BRICS inauguraram novas centrais a gás ou petróleo, com destaque para China, Brasil e Emirados Árabes Unidos.

Segurança energética explica a dupla estratégia

A convivência entre aportes massivos em energias limpas e combustíveis fósseis reflete uma atenção redobrada à segurança energética. O estudo aponta que a demanda por eletricidade continua a se expandir rapidamente em diversas economias do bloco, impulsionada pelo crescimento econômico, urbanização, eletrificação dos transportes, expansão industrial e desenvolvimento de infraestruturas digitais. Nesse contexto, vários governos adotam uma estratégia de diversificação, reforçando tanto a capacidade renovável quanto as fontes convencionais que garantem estabilidade ao sistema elétrico.

A atual crise geopolítica envolvendo o Oriente Médio intensificou ainda mais essa preocupação. Segundo o Global Energy Monitor, os recentes confrontos entre Estados Unidos, Israel e Irã evidenciam a fragilidade dos grandes importadores de energia, especialmente China e Índia, diante de choques externos nos mercados de petróleo e gás.

China e Índia mostram que crescimento renovável reduz uso do carvão

Apesar dos investimentos contínuos em novas usinas a carvão, os dados revelam uma tendência estrutural relevante. Na China, a geração adicional oriunda das fontes solar e eólica foi suficiente para atender cerca de 94% do aumento anual da demanda por eletricidade em 2025. Como consequência, a geração elétrica baseada em carvão registrou uma redução de aproximadamente 2%. Na Índia, o fenômeno foi ainda mais expressivo. O país experimentou uma queda de cerca de 3% na produção elétrica proveniente do carvão, impulsionada pelo crescimento recorde das renováveis e pelo arrefecimento da demanda energética. Foi apenas a segunda vez em duas décadas que a geração a carvão diminuiu em termos anuais. De acordo com o relatório, esse comportamento pode sinalizar o início de uma mudança estrutural na matriz energética indiana, reduzindo progressivamente o papel dominante do carvão no sistema elétrico nacional.

Corrida ao futuro favorece as renováveis

Os indicadores relacionados aos projetos em desenvolvimento indicam que, apesar da atual expansão dos combustíveis fósseis, a trajetória de longo prazo tende a beneficiar as energias renováveis. Conforme o Global Energy Monitor, os países do BRICS possuem atualmente uma carteira de projetos solares e eólicos de grande escala equivalente a 2.317 GW, cerca de duas vezes e meia superior aos 927 GW de projetos baseados em carvão, petróleo e gás que estão em desenvolvimento. Mais de 70% dos projetos renováveis em construção no mundo estão localizados precisamente na China e na Índia, consolidando a posição desses países como epicentro da transformação energética global.

A grande contradição da transição energética emergente

O estudo do Global Energy Monitor conclui que os BRICS estão construindo simultaneamente duas realidades energéticas. De um lado, lideram a maior expansão renovável da história, acelerando a descarbonização dos sistemas elétricos e diminuindo gradualmente a dependência do carvão na geração efetiva de energia. De outro, seguem investindo em novas infraestruturas fósseis para atender ao crescimento da demanda, fortalecer a segurança energética e assegurar capacidade de reserva para sistemas elétricos cada vez mais complexos. Essa dualidade indica que a transição energética nas economias emergentes não seguirá, necessariamente, um modelo linear de substituição imediata dos combustíveis fósseis, mas sim um processo gradual em que crescimento econômico, segurança energética e descarbonização coexistirão por vários anos.

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