O Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) deu início ao planejamento de uma plataforma digital destinada a acompanhar a recuperação socioambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Batizado de Observatório Inteligente da Sociobiodiversidade da Bacia do Rio Doce (OBIS), o projeto tem como propósito reunir informações científicas, ambientais e socioeconômicas para monitorar as mudanças ocorridas na área afetada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015.
A proposta começou a ser detalhada na primeira oficina de planejamento do observatório, promovida entre 3 e 5 de novembro. Sob coordenação do INMA, órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a iniciativa prevê uma plataforma pública capaz de agrupar dados hoje dispersos entre instituições de pesquisa, levantamentos científicos e distintos sistemas de informação.
Dados integrados para a recuperação da Bacia do Rio Doce
O OBIS é desenvolvido no âmbito do Novo Acordo do Rio Doce, cuja homologação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) completa dois anos nesta sexta-feira (6). O acordo define medidas de reparação pelos danos provocados pelo desastre, que afetou comunidades, ecossistemas e atividades econômicas ao longo da bacia, chegando ao litoral do Espírito Santo.
Na oficina, Petula Ponciano Nascimento, da Secretaria de Articulação e Monitoramento da Casa Civil da Presidência da República, fez um balanço da implementação das ações previstas no acordo. Conforme os números apresentados, 55 projetos já foram aprovados e mais de R$ 831 milhões foram transferidos aos 49 municípios atingidos para iniciativas nas áreas de saúde e assistência social.
Com duração prevista entre 2026 e 2030, o observatório deverá oferecer informações sobre fauna, flora, qualidade ambiental, ocupação do território, comunidades tradicionais, condições de vida, políticas públicas e ações de recuperação. A intenção é converter dados esparsos em uma base integrada, capaz de apoiar decisões ligadas à reparação dos danos e ao desenvolvimento regional.
A plataforma também deverá contar com ferramentas de inteligência artificial para organizar e analisar os dados, além de mapas interativos, indicadores socioambientais e mecanismos de participação popular por meio de iniciativas de ciência cidadã. O acesso será voltado a pesquisadores, gestores públicos, educadores, estudantes e moradores da região.
Conhecimento científico e transparência
A secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI, Andrea Brito Latgé, afirmou que o projeto representa uma contribuição do Ministério para o processo de recuperação da bacia. De acordo com ela, a proposta é empregar o conhecimento científico como instrumento de apoio à reparação ambiental e à melhoria das condições de vida da população, com transparência e diálogo social.
O diretor do INMA, Sérgio Lucena Mendes, destacou que a integração das informações permitirá ampliar o acompanhamento das transformações ambientais e sociais na região. A iniciativa busca oferecer subsídios à gestão pública e à formulação de estratégias de recuperação fundamentadas em evidências científicas.
A primeira oficina reuniu cerca de 20 pesquisadores, bolsistas e colaboradores em três encontros virtuais. Os participantes foram organizados em cinco grupos de trabalho, encarregados de temas como biodiversidade e paisagem; ambiente, riscos e reparação; sociodiversidade e saúde; economia e políticas públicas; e ciência, memória, educação e comunicação.
Prioridades do primeiro ano
O planejamento definiu as prioridades para os primeiros 12 meses do projeto, entre elas a seleção das fontes de informação, a organização dos dados iniciais, a definição de procedimentos de gestão e o desenvolvimento de um protótipo funcional. Também está prevista a criação da primeira versão do atlas digital da Bacia do Rio Doce.
A expectativa é que, ao fim do primeiro ano, parte dos dados já esteja disponível para consulta pública. A implantação terá como foco inicial os 49 municípios contemplados pelo acordo, com possibilidade de expansão para outras localidades da bacia e para ambientes estuarinos e costeiros associados.
O OBIS faz parte do Anexo 5 do Novo Acordo do Rio Doce, que prevê ações de incentivo à educação, à ciência, à tecnologia e à inovação. A execução tem apoio da Fundação Espírito-santense de Tecnologia (FEST) e participação de instituições como o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
A coordenadora do projeto no INMA, Paula Martins, disse que o objetivo do planejamento é estabelecer um trabalho conjunto entre diferentes áreas do conhecimento, definindo quais informações serão priorizadas e de que forma poderão atender às demandas da pesquisa, da gestão pública e da sociedade.
A criação do observatório pretende ampliar o acesso às informações sobre a região e consolidar uma ferramenta de acompanhamento contínuo da recuperação socioambiental da Bacia do Rio Doce, quase 11 anos após o desastre de Mariana.







