Há alguns anos, durante uma visita a Milão, fui a uma lanchonete recomendada por uma amiga. Para minha surpresa, ao examinar o cardápio, descobri que o estabelecimento oferecia hambúrgueres de cavalo e de burro. Levei alguns instantes para refletir e concluí que não era o momento para tamanha aventura culinária. Seguindo a sugestão da mesma amiga, acabei pedindo o sanduíche de berinjela à parmegiana.
A recordação desse episódio retornou ao saber que os argentinos, em meio a dificuldades financeiras, estariam fazendo churrasco com carne de burro.
As manchetes, que colocam argentinos e burros na mesma frase, parecem sensacionalistas demais. E de fato são. Quem se aprofunda na leitura descobre que a realidade não é exatamente essa.
Apenas um açougue em uma região remota da Patagônia comercializa a carne asinina, fornecida por um único produtor. Embora a carne de burro seja consideravelmente mais barata que a bovina, não foi a crise recente que motivou essa oferta: o criador decidiu investir na criação de jumentos há alguns anos, por acreditar que eles se adaptam muito bem às condições patagônicas.
Contudo, quem realmente se importa com os detalhes? É muito tentador associar o burro comestível ao circo excêntrico de Javier Milei. Se o mundo inteiro zomba dos eleitores do presidente de cabelo desgrenhado, por que nós, brasileiros, não faríamos o mesmo?
Quase lamento ter recuado diante do hambúrguer de jegue na Itália. Se o tivesse enfrentado, poderia hoje compartilhar uma informação de utilidade pública: qual é, afinal, o sabor do burro?
Já experimentei algo parecido. Carpaccio de cavalo. Foi em São Paulo, quando o extinto restaurante Hideki decidiu presentear seus clientes com sushi de carne equina.
O sabor não tinha nada de extraordinário, lembrando carne bovina magra. Já a textura era extremamente dura; mastiguei por longo tempo até conseguir engolir.
Recentemente, encontrei na internet uma técnica chinesa para amaciar cortes de carne duros: fatiar a peça bem fina, no sentido contrário às fibras musculares, e deixá-la de molho por meia hora em uma solução de bicarbonato de sódio.
Testei essa técnica em uma receita. Utilizei capa de filé e o resultado foi excelente — o método deve funcionar, portanto, para amaciar o burro argentino. Compartilho então a receita, que carinhosamente apelidei de burro chino.
Burro chino (carne acebolada à chinesa)
Rendimento: 2 porções
Dificuldade: fácil
Tempo de preparo: 45 minutos
Ingredientes da marinada
- 450 g de carne magra, fatiada fina contra a fibra
- ½ colher (chá) de bicarbonato de sódio
- 1 colher (chá) de maisena
- 1 colher (chá) de molho de ostra
- 1 colher (chá) de óleo vegetal
- 15 ml de água
Demais ingredientes
- Óleo vegetal (quanto baste)
- 300 g de cebola fatiada
- 20 ml de shoyu
- 1 colher (sopa) de molho de ostra
- 1 colher (sopa) de ketchup
- 1 colher (café) de óleo de gergelim
- 60 ml de água
Preparo
- Misture a carne à marinada e deixe descansar por 30 minutos
- Aqueça em fogo alto um wok ou frigideira larga. Acrescente óleo e frite a carne até dourar. Reserve
- Ponha mais óleo na frigideira e frite a cebola. Reserve
- Misture os ingredientes restantes e despeje na frigideira. Quando ferver, junte a carne e a cebola, mexendo bem. Sirva com arroz






