Ler faz bem ao cérebro e ajuda a manter a mente ativa ao longo da vida

Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro, levou “A Morte de Ivan Ilitch”, clássico de Liev Tolstói publicado há cerca de 140 anos, ao primeiro lugar entre os livros mais vendidos da Amazon brasileira. O episódio ganhou destaque em um país onde 53% da população não havia lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores à última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

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O levantamento foi realizado em 2024 e mostrou que 47% dos brasileiros eram considerados leitores, definição dada a quem havia lido ao menos um livro ou parte dele nos três meses anteriores à pesquisa.

Pode parecer muito, mas o índice indica uma redução de 6,7 milhões de leitores em relação à edição anterior da pesquisa. Entre quem lê, o principal motivo é o prazer: 26% dizem que leem porque gostam, e a falta de tempo é a principal barreira apontada por quem gostaria de ler mais.

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Benefícios da leitura para a saúde

Mas, além da sensação de prazer, será que a leitura tem algum impacto na saúde? A resposta é sim, e os principais benefícios passam pela saúde do cérebro.

Isso porque ler um livro não significa apenas decodificar palavras; é preciso manter informações na memória enquanto novas frases são processadas, acompanhar a sequência dos acontecimentos, interpretar a linguagem e construir mentalmente cenas que não estão diante dos olhos.

“A leitura é uma habilidade cognitiva bastante complexa e exigente”, afirma Monica Sanches Yassuda, psicóloga e professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Segundo ela, a leitura envolve simultaneamente informações linguísticas, visuais e de cognição social, quando o leitor tenta compreender o que os personagens estão sentindo.

“A leitura de um livro exige manter a atenção por mais tempo e mobiliza a memória episódica de longo prazo, responsável por guardar informações do que já foi lido. É essa memória que permite retomar a história de onde paramos, recuperando personagens, acontecimentos e outros detalhes dos capítulos anteriores, sem precisar começar tudo de novo a cada sessão”, explica a professora.

A neurologista Elisa França Resende, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concorda e diz que a leitura também mobiliza áreas cerebrais ligadas à visão, à associação e à atenção.

“Quando lemos um livro, temos um envolvimento maior com a história e com os personagens, o que torna a atividade mais complexa e estimulante para o cérebro do que uma leitura funcional, como ler uma notícia ou uma mensagem de trabalho, por exemplo”, conta.

O que a ciência diz sobre a leitura

Todos esses benefícios são corroborados pela ciência. Uma revisão de estudos publicada recentemente na revista Psychological Medicine reuniu evidências de pesquisas sobre leitura por prazer e sua relação com cognição, bem-estar e saúde mental.

O trabalho aponta associações entre o hábito de ler e melhor funcionamento cognitivo, bem-estar e, em pessoas mais velhas, menor declínio cognitivo. Os autores, porém, ressaltam que ainda são necessários estudos experimentais para entender quais são os mecanismos envolvidos.

“A gente sabe que a leitura é um dos muitos meios de estimulação cognitiva e de aumento da reserva cognitiva”, diz a geriatra Claudia Suemoto, diretora do Biobanco da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), o maior banco de cérebros da América Latina.

Segundo ela, a reserva cognitiva é a capacidade do cérebro de resistir melhor aos efeitos de lesões, e o hábito de ler ao longo das diferentes fases da vida, especialmente na infância, na adolescência e no início da vida adulta, pode contribuir para construir essa reserva. “Pessoas com alterações cerebrais semelhantes, por exemplo, podem apresentar manifestações cognitivas diferentes, de acordo com a sua reserva cognitiva”, diz.

Mas, para Claudia, os efeitos positivos da leitura vão além da cognição. “Tudo que a gente lê para se distrair, para se divertir, tem uma carga emocional maior. A pessoa se envolve na história e esse envolvimento também pode estar relacionado a benefícios para o bem-estar e a qualidade de vida”, sugere a geriatra.

Ler ficção pode deixar as pessoas mais empáticas

Esse envolvimento emocional costuma acontecer quando a leitura é de ficção. Uma revisão de estudos publicada na revista Current Opinion in Psychology analisou evidências sobre os efeitos da ficção narrativa (histórias que envolvem personagens, emoções, objetivos e relações) e encontrou associações com linguagem, cognição social, capacidade de compreender outras pessoas e habilidades relacionadas à empatia e ao bem-estar.

Isso acontece porque, ao acompanhar um personagem, o leitor precisa entender o que ele pensa, sente e deseja, muitas vezes a partir de informações que precisam ser interpretadas ao longo da narrativa.

“Quando lemos sobre a vida de personagens ficcionais ou reais, sem dúvida, exercitamos a cognição social. Na vida real, muitas vezes é preciso inferir o que outra pessoa está sentindo; nos livros, pensamentos e emoções podem ser explicitados pela própria narrativa”, explica Monica.

As especialistas reforçam, no entanto, que ler um romance não torna automaticamente alguém mais empático. Os resultados dependem de fatores como o tipo de narrativa, o envolvimento do leitor e a maneira como a história é processada.

No caso do atleta Gustavo Scarpa, esse efeito foi percebido na própria experiência. Ele conta que depois de ler livros como “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, por exemplo, passou a enxergar outras pessoas de maneira diferente. “Com certeza o livro me tornou mais empático e me ajudou a olhar pro outro de uma forma mais correta”, afirma.

Também não existe idade certa para começar a ler e colher os benefícios para a saúde. Claudia afirma que pessoas mais velhas podem desenvolver o hábito da leitura e se beneficiar dessa atividade.

“A leitura é uma atividade cognitivamente estimulante. Embora a neuroplasticidade do cérebro diminua com a idade, ela continua existindo ao longo da vida. Então não importa se você começou a ler com 40, 50 ou 70 anos, você pode obter ganhos. Sempre tem ganhos”, diz.

Ouvir histórias também faz bem

A experiência com livros não precisa necessariamente envolver a leitura individual. Ouvir uma narrativa também pode mobilizar atenção, memória e imaginação.

Um estudo acompanhou 81 crianças internadas em uma UTI e observou que, após sessões de cerca de 30 minutos de contação de histórias, houve aumento de ocitocina (hormônio relacionado a vínculos sociais e interações afetivas), além de redução do cortisol (associado à resposta do organismo ao estresse) e da percepção de dor, em comparação com crianças que participaram de outra atividade.

Para Scarpa, a leitura começou por influência do pai, ganhou força na juventude e acabou virando um hábito. Hoje, ele conta que lê durante viagens e momentos de descanso e faz questão de manter os livros como hobby, e não como obrigação. A experiência do jogador reforça que a leitura pode fazer parte da rotina em diferentes fases da vida e, além de estimular o cérebro, pode ser uma atividade prazerosa e melhorar o bem-estar.

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