Uma recente notícia do CERN — maior laboratório de física de partículas do mundo, responsável pela operação do LHC (Large Hadron Collider), o maior acelerador de partículas já construído — despertou atenção global: experimentos reuniram fortes indícios de entrelaçamento quântico entre pares de bósons Z, resultantes do decaimento do bóson de Higgs.
A observação é bastante rara e difícil de realizar. Para dimensionar, ela ocorreu na escala do zeptoverso, em que uma partícula é dividida um sextilhão de vezes.
De modo simples, a descoberta indica que o estado de duas partículas entrelaçadas não se resume a duas descrições independentes, isto é, o estado de duas partículas não é um dado fixo, mas algo que depende da relação entre elas. Contudo, isso não comprova que “tudo está conectado”, tampouco que a física explique a mente.
Quando uma descoberta obriga a rever o que parecia óbvio
Mesmo assim, a notícia conduz a uma pergunta mais ampla: o que acontece quando uma descoberta nos força a revisar as categorias com as quais pensamos o mundo?
Gaston Bachelard dedicou boa parte de sua obra a essa questão. Para ele, a ciência não avança apenas acumulando fatos. Progride também ao romper com evidências aparentemente óbvias e ao corrigir conceitos que, antes úteis, passam a bloquear novas descobertas.
Bachelard denominou essas resistências de obstáculos epistemológicos. E sustentou: cada campo constrói seus próprios objetos e critérios, lição central de sua abordagem regionalista.
É por esse caminho, e não por alguma equivalência entre partículas e pessoas, que se pode chegar à psicanálise. Freud abalou a imagem de um sujeito consciente de si, transparente para si mesmo, ao demonstrar que desejos e conflitos inconscientes fazem parte da vida psíquica.
E se o analista também não for transparente para si?
A escola inglesa levou a questão para dentro da própria situação clínica: e se o analista também não for transparente para si?
Paula Heimann propôs, em 1950, que a contratransferência — as reações emocionais do analista — não fosse encarada apenas como interferência, mas como possível fonte de informação.
Melanie Klein, com a identificação projetiva, contribuiu para pensar processos que envolvem o outro na própria fantasia. Bion foi além: investigou como experiências emocionais podem se tornar pensáveis ou como a urgência de saber pode bloquear o pensar.
Imagine um analista irritado com atrasos recorrentes de uma paciente. Sua irritação prova que ela quer provocá-lo? Não. Pode revelar algo dele, dela ou da relação. Somente quando essa reação é examinada, confrontada com o material clínico e mantida aberta à revisão, pode contribuir para uma hipótese.
Sentir não é conhecer.
A teoria que ajuda a enxergar também pode cegar
Nisso reside a surpreendente afinidade entre a descoberta do CERN e a psicanálise, a partir de Bachelard: a teoria que ajuda a enxergar também pode cegar. Se o analista explica tudo por “resistência” ou “identificação projetiva”, talvez esteja usando seu repertório para não escutar o inesperado.
Para Bion, conhecer às vezes exige tolerar a incerteza antes de interpretá-la. A física quântica e a psicanálise não compartilham métodos nem padrões de comprovação. O paralelo é epistemológico, não experimental.
Ainda assim, há uma pergunta comum e fértil: o que precisamos deixar de tomar como evidente para descobrir? E a escola inglesa acrescenta uma provocação: talvez, em certos encontros, conhecer exija transformar não só nossas ideias, mas nossa capacidade de pensar.







