Chegar antes do horário para amenizar o receio de parecer lenta, revisar o mesmo trabalho inúmeras vezes e, desde muito nova, perceber a necessidade de criar todo um sistema de lembretes e organização para evitar falhas. Esse é um caminho comum entre muitas mulheres com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), que passam a vida tentando compensar dificuldades que, para outras pessoas, parecem demandar bem menos esforço.
Esse mecanismo é chamado de compensação ou mascaramento. De acordo com a psicóloga Laura Zambotto, ele está ligado, entre outros pontos, à pressão social enfrentada pelas meninas desde a infância para que sejam organizadas, quietas, obedientes e atentas ao convívio social.
Antes do diagnóstico, uma estratégia frequente é compensar a sensação de ser “um pouco lenta” trabalhando em dobro. Por anos, esse recurso pode até funcionar: a pessoa cumpre obrigações, alcança bons resultados e mantém a aparência de que tudo está sob controle. O problema é que isso exige um esforço enorme, quase nunca percebido por quem está por perto.
O custo invisível
Na prática, porém, o mascaramento pode dificultar a identificação do TDAH e contribuir para uma busca tardia por ajuda, quando o sofrimento já compromete a rotina. “Em média, homens apresentam mais comportamentos que chamam a atenção de outras pessoas”, explica Laura.
Estudos mostram que, entre as três apresentações do transtorno — predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa/impulsiva e combinada —, a primeira tende a ser mais comum entre mulheres. Nesses casos, os sintomas podem ser menos visíveis e, conforme observa a psicóloga, “nem sempre incomodam quem está ao redor tanto quanto a agitação física”.
Por isso, ainda que os critérios diagnósticos sejam iguais para os dois sexos, Laura destaca a necessidade de “mudar a sensibilidade da investigação para reconhecer apresentações que fogem do estereótipo”. Afinal, muitas mulheres mantêm um bom desempenho justamente porque criam estratégias para compensar suas dificuldades.
O resultado pode parecer positivo à primeira vista. Externamente, elas estão organizadas, produtivas e dão conta das responsabilidades. O custo, no entanto, é invisível e constante para sustentar esse desempenho, muitas vezes acompanhado de um desgaste emocional fora do comum.
Foi ao morar sozinha, quando a vida passou a exigir mais responsabilidades, que as coisas começaram a desmoronar aos poucos. Organizar a casa, administrar compromissos, trabalhar e cuidar de si mesma parecia pesado demais. Havia esforço, mas também a sensação constante de que nunca era suficiente. Aquilo que antes se conseguia compensar com mais planejamento e empenho já não parecia funcionar.
Por essa razão, Laura ressalta que “boas notas ou uma carreira bem-sucedida não excluem o transtorno: é preciso compreender o custo para manter esse desempenho. Menor visibilidade não significa necessariamente menor prejuízo”.
Muito além da distração
Além dos sintomas mais conhecidos, como desatenção, hiperatividade e impulsividade, o TDAH pode afetar outras áreas da vida cotidiana. Uma delas é a dificuldade de regulação emocional. Uma crítica, uma frustração ou a sensação de ter decepcionado alguém pode despertar emoções muito intensas, difíceis de administrar. O medo de errar ou desagradar pode levar ao isolamento social, à procrastinação por perfeccionismo ou ao excesso de responsabilidades, alimentando um ciclo de autocobrança e exaustão.
Outro aspecto é a dificuldade para regular o foco. Quando algo desperta muito interesse, é possível se envolver tanto na atividade que se perde a noção das horas. É o chamado “hiperfoco”, que pode ser difícil de interromper, mesmo quando já existe cansaço ou outras obrigações esperando.
Há ainda a chamada “paralisia executiva”, que ocorre quando existe dificuldade para começar tarefas, mesmo sabendo o que precisa ser feito e querendo realizá-las. Isso pode acontecer na hora de pagar contas, responder mensagens ou até cuidar da casa.
Essa dificuldade pode estar relacionada às funções executivas — daí o nome —, habilidades do cérebro responsáveis por planejar, organizar prioridades e colocar as coisas em prática. No TDAH, iniciar atividades pouco estimulantes ou que envolvem muitas etapas pode exigir um esforço maior.
Essa sensação, para quem passa por isso, costuma vir acompanhada de um cansaço mental constante. A pessoa descreve à psicóloga que seus pensamentos parecem várias linhas de raciocínio misturadas, sem que consiga terminar nenhuma delas. Essa sobrecarga mental deixa exausta, mesmo sem ter feito nada.
Na terapia, um dos sinais de alerta foi perceber que, apesar de anos de tratamento para ansiedade e depressão, a melhora era apenas parcial. A desorganização, os esquecimentos, a dificuldade de sair do sofá para cumprir compromissos e os comportamentos impulsivos relacionados ao consumo de álcool e comida melhoravam por algum tempo, mas depois voltavam com a mesma intensidade.
Foi durante essa investigação que dificuldades carregadas desde a infância começaram a ganhar outro significado. O que por anos foi interpretado como falta de disciplina, incapacidade ou dificuldade pessoal para lidar com a vida passou a ser compreendido de outra maneira. Com o tratamento adequado, as coisas ganharam uma leveza que antes não se conhecia.
Sintoma não é diagnóstico
Para chegar a um resultado, Laura explica que é necessário investigar mais do que sintomas isolados. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, seus sinais começam na infância, e o histórico precisa apontar a presença de indícios antes dos 12 anos.
As dificuldades devem ser persistentes, aparecer em diferentes contextos, como no trabalho, em casa ou nos estudos, e provocar prejuízos reais na rotina. Também é necessário avaliar se os sintomas não são explicados por outras condições de saúde.
A investigação deve ser conduzida por profissionais qualificados, como médicos e psicólogos, por meio de entrevistas clínicas, análise do histórico de vida e, quando necessário, testes psicológicos complementares. O diagnóstico exige um olhar cuidadoso para toda a trajetória, e não apenas para as dificuldades enfrentadas no momento.







