Saúde mental: as barreiras enfrentadas por quem recorre ao SUS

Em julho deste ano, a família da auxiliar de serviços gerais Sidelia Soares recebeu uma mensagem confirmando a consulta dela com um psicólogo. A notícia indicava o começo do acompanhamento da paciente na rede pública de saúde de Cuiabá (MT).

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Sidelia lidava com um quadro de depressão e buscou auxílio em 2023, quando passou a integrar a fila de espera da capital mato-grossense. O tratamento especializado representaria um avanço significativo no cuidado com os distúrbios emocionais que a seguiam havia décadas, desde a morte de um filho recém-nascido.

A confirmação, no entanto, chegou mais de dois anos depois do pedido e trouxe dor à família. Um fato essencial impedia qualquer possibilidade de atendimento: Sidelia tirou a própria vida em agosto de 2024, aos 58 anos.

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“Quando vi a mensagem da consulta, ficou aquele sentimento de tristeza. Fiquei pensando: se ela tivesse recebido uma orientação profissional, talvez isso tivesse feito a diferença”, lamenta a jornalista Janaiara Soares, de 33 anos, filha de Sidelia.

No caso de Sidelia, os sinais de depressão eram nítidos, mas ela hesitava em pedir auxílio. Em 2023, depois da perda dos pais, o quadro se agravou e ela decidiu procurar suporte psicológico. “É muito doloroso pensar que o acompanhamento profissional talvez pudesse ter salvo a vida da minha mãe”, desabafa a filha.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Cuiabá para tratar sobre a lista de espera por atendimento psicológico no município, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Histórico de dificuldades

O episódio vivido por Sidelia escancara os obstáculos enfrentados por quem procura assistência em saúde mental na rede pública brasileira. Segundo especialistas, o SUS acumula um histórico de problemas nessa área.

Para os especialistas, essa dificuldade fica mais visível diante da crise de saúde mental instalada no Brasil. Os indicadores mais recentes apontam crescimento dos casos de depressão e ansiedade na população, tendência também observada globalmente.

Janaiara e a mãe, Sidelia, que tirou a própria vida em agosto de 2024

Conforme a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10,2% (16,3 milhões) das pessoas acima de 18 anos vivem com depressão. Esse levantamento, o mais recente sobre o assunto, considera apenas quem afirmou ter recebido diagnóstico de um profissional de saúde. O índice representa alta de 34,2% ante a edição anterior da PNS. Em 2013, a proporção de adultos com depressão era de 7,6% da população brasileira.

Os adoecimentos psíquicos repercutem de forma direta na sociedade. No ano passado, o país registrou mais de 546 mil afastamentos trabalhistas decorrentes de transtornos mentais, volume 15% superior ao de 2024. Ansiedade e depressão lideraram os motivos dos afastamentos.

Em nota enviada à reportagem, o Ministério da Saúde informou que vem ampliando o aporte de recursos na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) “para fortalecer o acesso ao cuidado em saúde mental em todo o Brasil”.

De acordo com a pasta, o cuidado em saúde mental pode ser ofertado em diversos equipamentos, entre eles os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).

Cuidados com a saúde mental no SUS

Especialistas afirmam que não são raros os relatos de espera prolongada por consulta psicológica. “Nós temos pouquíssimos psicólogos e psiquiatras para atender a toda a demanda na rede pública. Por isso, conseguir esse acompanhamento é bem demorado”, observa o psiquiatra Antônio Geraldo, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Até o momento, não existem estudos que dimensionem as filas do serviço público de saúde mental nos municípios do país.

O Brasil conta com pouco mais de 600 mil psicólogos registrados, de acordo com o Conselho Federal de Psicologia (CFP). Desses profissionais, apenas 11,3 mil atuam no SUS, conforme o Ministério da Saúde. O montante atual equivale a um aumento de 15,3% na comparação com 2024, ano em que a rede pública contava com 9,8 mil psicólogos.

Segundo o Ministério da Saúde, o país possui 28,8 mil psiquiatras, sendo 18,1 mil deles vinculados ao SUS. A pasta informa que o cálculo se baseia na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sistema do Ministério do Trabalho e Emprego que cataloga, nomeia e codifica as profissões do mercado de trabalho nacional.

Os números, entretanto, são contestados pela ABP. “Esse número não procede, é só olhar a demografia médica do CFM. O Brasil não tem nem 15 mil psiquiatras formados”, rebate Geraldo.

Já a demografia médica do Conselho Federal de Medicina (CFM) de 2020, a mais recente, aponta 11,9 mil psiquiatras em atividade no Brasil. O atlas Demografia Médica no Brasil 2025 (DMB), elaborado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em parceria com a Associação Médica Brasileira (AMB), por sua vez, indica 13,5 mil psiquiatras no território nacional.

Mulher com cabeça baixa

Com base nos dados do atlas, o Brasil apresenta taxa de 6,69 psiquiatras por 100 mil habitantes, patamar bastante inferior à média de 17,83 registrada entre os 41 países incluídos na pesquisa.

O levantamento da FMUSP e da AMB coloca a Suíça no topo do ranking proporcional, com 53 psiquiatras por 100 mil habitantes. Na sequência vêm Alemanha (28) e Grécia (26).

Desigualdade regional

O atlas também evidencia a desigualdade regional na distribuição desses especialistas. Conforme o estudo, a maior parte dos 13,5 mil psiquiatras brasileiros concentra-se nas regiões Sudeste (51,8%) e Sul (22,8%). O Nordeste surge em terceiro lugar, com 14,7%, seguido pelo Centro-Oeste (8,3%) e pelo Norte, que detém apenas 2,4%.

Para os especialistas, a disparidade regional no acesso a esse tipo de tratamento gera apreensão. “Como o SUS é descentralizado, o tempo de espera depende de onde a pessoa mora. Há cidades em que a rede de saúde mental é modelo, como Campinas, no interior de São Paulo. Mas há outros municípios em que a situação é bem difícil”, ressalta o psiquiatra Deivisson Viana, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Em resposta, o Ministério da Saúde pontuou que a estruturação da rede e a administração de vagas, filas e encaminhamentos cabem a estados e municípios, via centrais de regulação. “O Ministério da Saúde atua na formulação de políticas públicas, definição de diretrizes e cofinanciamento da assistência”, acrescenta a pasta.

No território nacional, há experiências relevantes como os Caps, que operam, em geral, em regime de portas abertas. Na prática, o paciente pode procurar a unidade sem necessidade de encaminhamento. O serviço atende pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, inclusive os associados ao uso abusivo de álcool e outras drogas.

De acordo com o Ministério da Saúde, há 3,1 mil Caps em funcionamento no Brasil, quantidade 28% superior à registrada dez anos antes, quando existiam 2,4 mil unidades.

Especialistas ponderam que, para dar conta da procura da população, seria necessário um número bem maior de Caps. “Nós temos mais de 5 mil cidades no país. Então, por exemplo, 2 mil Caps seriam ideais somente para atender o Estado de São Paulo, que é enorme”, calcula Geraldo. “Além disso, muitos desses Caps não têm médico com registro de psiquiatra, geralmente são clínicos que dizem que têm treinamento em saúde mental.”

A UBS é outro caminho para conseguir suporte psicológico no serviço público. Na unidade, o paciente relata suas queixas, é acolhido por um profissional da equipe de saúde — geralmente enfermeiro ou técnico em enfermagem — e passa por avaliação. Somente depois ingressa na fila para consulta com psicólogo ou psiquiatra.

Longo caminho pela frente

Na avaliação de Viana, as iniciativas voltadas à saúde mental no Brasil são exemplares, porém, na prática, esbarram em entraves estruturais, econômicos e administrativos. “Já melhorou muito, se analisarmos o cenário nos últimos 25 anos. A cobertura da atenção básica para a saúde mental melhorou bastante. Mas é difícil lidar com uma demanda que cresce cada vez mais”, comenta.

Nos últimos anos, o governo federal anunciou mais verba para iniciativas de saúde mental. Mesmo assim, ponderam especialistas, o montante segue distante do necessário.

Jovens e sozinhos: solidão em tempos de redes sociais

“O Brasil tem destinado de 1% a 2% do orçamento total da saúde para os cuidados de saúde mental. Isso é inferior a muitos outros países. Há países europeus em que o orçamento para esse segmento chega a 10% do total”, afirma o psiquiatra Rodrigo Leite, coordenador do programa de Psiquiatria Social e Cultural do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Leite classifica a situação da saúde mental brasileira como de “subfinanciamento crônico”. “Às vezes existe um aumento entre uma gestão e outra, mas é mínimo. Nunca passou de 2% do total”, ressalta.

Um problema histórico

Diante da crescente incidência de transtornos psíquicos, especialistas defendem que é urgente ampliar os investimentos no setor no Brasil.

Na visão de especialistas, a falta de articulação entre os governos municipal, estadual e federal é um dos entraves à execução de políticas públicas de saúde mental. “Isso fragiliza a rede de saúde de forma geral, especialmente a rede de atenção à saúde mental. Isso gera dificuldades sistêmicas de organização de fluxo e comunicação entre os serviços”, explica Leite.

“É um problema histórico. Passa governo, entra governo e esse problema continua. Alguns dão mais atenção ao tema, mas o problema permanece”, reforça Geraldo, da ABP. “Quando não há tratamento, as pessoas não têm para onde recorrer e elas tendem a não se cuidar”, complementa.

Enquanto esses obstáculos não forem superados, muitos pacientes seguem aguardando por anos até conseguir iniciar um tratamento especializado, como ocorreu com Sidelia.

“A gente tinha a opção de pagar pelo acompanhamento psicológico da minha mãe, mas ela sempre estava preocupada em não causar gastos, por isso disse que só faria se fosse pelo SUS”, recorda Janaiara. “Acho que o caso dela mostra como a saúde mental deveria ser algo básico. Uma atenção psicológica também pode salvar, por isso acho que precisa da mesma atenção que outras especialidades”, finaliza a filha.

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