Muita gente passa um bom tempo percorrendo o catálogo de uma plataforma de streaming para, no final, dar play na mesma série de sempre. Algo parecido ocorre com os livros: a pessoa visita a livraria, compra até um volume inédito, mas termina relendo uma obra que já tem em casa e sabe de memória. No esporte, a lógica se repete: a malhação segue sempre a mesma modalidade. Qual o motivo desse comportamento?
Segundo Lúcio Huebra, neurologista e médico do sono do Hospital Sírio-Libanês, a repetição de atividades costuma gerar sensação de conforto ao diminuir a incerteza. “O cérebro opera por reconhecimento de padrões e se ajusta melhor à repetição, pois já dispõe de um padrão de resposta organizado”, esclarece.
“Ao rever um filme, frequentar novamente um restaurante ou reler um livro querido, já temos, de certo modo, uma prévia do que nos aguarda. Isso reduz a necessidade de decisões e pode deixar a experiência mais relaxante”, completa.
De acordo com Huebra, nesses contextos o cérebro diminui o estado de alerta exigido diante de situações imprevisíveis, e a atividade passa a atuar como um “repouso cognitivo”. A mente “aceita” a experiência de antemão e antecipa o prazer que ela normalmente proporciona.
“Há ainda um componente afetivo: algumas atividades se conectam a momentos, pessoas ou sensações prazerosas, e reprisá-las nos faz recuperar parte desse estado emocional, daquela vivência anterior”, afirma o neurologista.
Atenção a detalhes
Como atenção e memória são processos seletivos, reler um livro ou rever uma série também pode revelar pormenores. “Na primeira vez em que assistimos a um filme, por exemplo, grande parte da nossa atenção se concentra em acompanhar a trama e descobrir o desfecho”, explica Huebra.
“Quando o enredo já é conhecido, essa exigência diminui e conseguimos notar outros elementos: diálogos, expressões, trilha sonora, fotografia, figurino, cenários e pistas que anunciavam o final, agora já sabido.”
Huebra ressalta ainda que o próprio observador se transforma, pois acumulamos experiências, saberes e referências ao longo da vida. Dessa forma, um livro lido aos 20 anos pode gerar uma experiência bem distinta quando relido aos 40. “Nossa bagagem altera a maneira como revemos o mesmo material.”
Uma ou mais modalidades?
Para Thiago Taya, neurologista e neuroimunologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas, a habilidade de notar detalhes também surge na prática esportiva repetitiva, como no tênis.
“Nos primeiros treinos, o cérebro se empenha em assimilar os movimentos fundamentais, mas, com o passar do tempo, o funcionamento motor básico do tênis se automatiza, e a pessoa passa a detectar e corrigir pormenores para aprimorar o desempenho.”
Isso, contudo, não justifica adotar uma única modalidade com exclusividade. Conforme explica Daisy Motta, profissional de Educação Física e colunista do Pulsa, “cada exercício trabalha uma parte distinta do corpo, e a saúde depende de todas elas”.
“De modo geral, eleger uma única modalidade e permanecer fiel a ela para sempre não costuma ser a melhor escolha. A variação colabora para melhores resultados e até mesmo para evitar a desistência”, escreve Daisy.
Medo de arriscar
Para Diogo Haddad, neurologista do Hospital Nove de Julho e coordenador do Núcleo de Memória do Alta Diagnósticos, a repetição não sinaliza necessariamente um problema. “O essencial é verificar se há flexibilidade e, sobretudo, se esse comportamento começa a causar sofrimento ou prejuízo.”
“É possível gostar de ver a mesma série inúmeras vezes e, simultaneamente, experimentar novidades, viajar para destinos diferentes e alterar planos quando preciso. Isso difere bastante de alguém que necessita executar certas atividades sempre da mesma forma e sente ansiedade intensa quando não consegue”, destaca Haddad.
No mesmo sentido, Huebra considera que é simplista tratar como negativo o estar na zona de conforto. “No contexto profissional, algum grau de exposição ao novo pode ser relevante para o aprendizado, a criatividade e a adaptação. Mas não precisamos converter a vida inteira em um projeto contínuo de otimização”, defende.
“O mais saudável é dispor de flexibilidade cognitiva e comportamental”, reforça Huebra. “Alguém pode adorar rever o mesmo filme e, simultaneamente, permanecer aberto a novas experiências, criando vivências capazes de se revelar mais agradáveis e, quem sabe, tornar-se o novo alvo de repetição.”







