Inveja no trabalho: alavanca para o desempenho ou armadilha para a saúde mental

Experimentar um incômodo ao ver um colega avançar na carreira não faz de ninguém uma pessoa ruim, nem necessariamente prejudica a saúde mental. A questão central é o que se faz com a inveja. E muitas empresas, sem perceber, têm alimentado o lado nocivo dessa emoção ao buscar engajamento, lealdade e motivação.

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O LinkedIn, assim como outras redes sociais, funciona como um grande laboratório para esse tipo de situação. Seja honesto: quando aquele colega da sua turma anunciou na plataforma que assumiu um cargo de direção, qual foi sua primeira reação? É bem provável que não tenha sido alegria.

Talvez tenha sido um aperto repentino no peito, um mal-estar na boca do estômago, rapidamente mascarado por um “parabéns, merecidíssimo!” nos comentários.

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Pois é… bem-vindo ao clube. Do ponto de vista da neurociência, a inveja é uma emoção social, um estado afetivo que surge na interação com outras pessoas. Além disso, está entre as emoções mais frequentes no ambiente de trabalho e entre as menos confessadas ou mais recalcadas, como diria Freud. Ninguém escapa dela.

A diferença entre quem decide transformar essa emoção em alavanca motivacional e quem cai na armadilha do recalque está na direção que se dá a essa energia psíquica. E isso não é novidade para a psicanálise, que há mais de um século investiga o desconforto gerado pelas comparações entre pessoas.

Todo mundo já foi o menor do grupo um dia

A explicação vem do berço. O ser humano nasce completamente frágil, dependente de pessoas maiores e mais fortes para tudo. Essa sensação de pequenez deixa marcas profundas na memória e reaparece sempre que alguém parece estar em posição superior. Alfred Adler, um dos dissidentes do círculo de Freud, chamou esse fenômeno de “sentimento de inferioridade”.

O chefe, o colega com salário mais alto, o amigo que comprou apartamento primeiro ou trocou de carro… Cada uma dessas situações reacende o antigo incômodo. É a criança interior, com medo de ficar para trás em qualquer disputa, ainda que apenas simbólica, como numa brincadeira.

Ou seja: sentir inveja não é defeito de caráter. É a expressão do quanto é desagradável sentir-se menor, possivelmente desamparado. É algo humano. Mas diante desse sentimento existe um amplo espaço para escolhas. Cabe a cada adulto lidar com aquilo que vem da infância.

Para o cérebro, perder status significa perigo à vista

Não é exagero afirmar que o sucesso alheio dói. Pesquisas com primatas e seres humanos associam a posição de destaque no grupo à serotonina, neurotransmissor relacionado à autoconfiança, àquele sentimento de “eu posso, eu consigo”.

E não importa se o desafio é montar um quebra-cabeça, disputar um jogo de tabuleiro ou conduzir um projeto relevante no trabalho.

Estudos de neuroimagem sugerem, inclusive, que um elogio público ativa no cérebro as mesmas regiões de recompensa acionadas por um bônus em dinheiro.

Portanto, uma posição de destaque tende a ser fonte de prazer. Já a posição de perdedor, de quem ficou para trás, faz o oposto: está associada a níveis mais baixos de serotonina e costuma ser interpretada pelo cérebro como ameaça, ativando os mesmos sistemas de alarme que protegem o organismo do perigo físico.

A simples expectativa de receber um elogio ou uma promoção já é prazerosa. Nesse caso, outro neurotransmissor entra em ação: a dopamina.

É nesse ponto que neurociência e psicanálise se encontram: esse circuito é a base neuroquímica da pulsão freudiana, da busca pelo prazer que move as ações humanas de forma nem sempre consciente.

A escada ou o atalho

Existem dois destinos possíveis para a tensão gerada por situações de assimetria de poder, duas direções para a energia que se costuma chamar de inveja.

O primeiro é a escada, a alavanca: estudar, se preparar, buscar a própria promoção. A frase interna é “se ele ou ela tem, eu também posso ter”.

O segundo é o atalho que conduz a uma armadilha comportamental: lidar com as assimetrias tentando nivelar os outros por baixo. Nesse caso, a frase mental se torna “se tudo der errado, a diferença entre nós será menor”.

Não é por outro motivo que existem tantos sabotadores nos ambientes de trabalho. É o comentário ácido na reunião, a fofoca no café, a crítica desproporcional ao projeto do colega, o clássico “esse sucesso é daqueles que dura pouco”.

A armadilha aparece porque a crítica ou a sabotagem são relativamente “baratas” se comparadas ao esforço de transformar a inveja em alavanca.

Construir uma carreira leva anos; atacar a reputação de alguém leva segundos, principalmente quando isso ocorre no padrão passivo-agressivo e nas redes sociais. E o cérebro recompensa a via rápida: cada risada cúmplice, cada curtida em um comentário maldoso gera uma pequena dose de prazer que pede repetição.

Reduzir a distância para o outro, ainda que pelo rebaixamento do colega bem-sucedido, gera um tipo mórbido de satisfação. Trata-se de uma pequena amostra da pulsão de morte freudiana, aquela energia que leva a ter prazer em destruir, e não em construir; em nivelar por baixo, em vez de subir também.

Só que essa satisfação dura pouco. A distância para o colega continua existindo, e o alarme do cérebro permanece ligado. Quem vive no modo armadilha passa os dias em estado de alerta, e o organismo responde liberando cortisol, o hormônio do estresse.

Em doses ocasionais, o cortisol prepara o organismo para reagir. Quando a sensação de ameaça se torna rotina, a conta chega: sono ruim, irritabilidade, dificuldade de concentração e maior risco de ansiedade e depressão. O que foi recalcado cobra seu preço no corpo, como também sabia Freud. O atalho que prometia alívio acaba cobrando juros altos.

Nas redes sociais, onde o sucesso alheio desfila sem parar, a via fácil virou “esporte coletivo” e combustível para o ódio online. E, nas plataformas em que, ao contrário do LinkedIn, ninguém precisa exibir nome e cargo, o quase anonimato favorece imensamente o retorno do sentimento recalcado, das expressões de ódio, do hate.

A culpa também é da empresa

Mas seria injusto colocar toda a responsabilidade no indivíduo. O ambiente pesa muito na decisão sobre o que fazer com o sentimento de inveja. Rankings expostos no mural, comparações constantes entre equipes, promoções sem critérios claros: tudo isso empurra as pessoas para o caminho da armadilha.

Empresas que mantêm certos grupos em desvantagem permanente — mulheres longe dos cargos de chefia, por exemplo — produzem o mesmo efeito. Quando a escada parece bloqueada, só resta o atalho.

É difícil optar pela inveja como alavanca motivacional quando o caminho para o “eu também posso chegar lá” está repleto de obstáculos.

O antídoto, diria o velho Adler, é o senso de pertencimento. Em uma equipe de alta performance, é preciso haver o “craque artilheiro”, mas também é preciso ter quem “construa a jogada”. Quando o sucesso é percebido como resultado do esforço coletivo, as assimetrias de poder naturalmente se tornam menos relevantes.

Líderes que explicam por que alguém foi promovido e reconhecem contribuições concretas, grandes ou pequenas, diretas ou indiretas, desarmam a inveja antes que ela conduza ao caminho fácil das atitudes passivo-agressivas.

Como fazer da inveja um combustível

A boa notícia é que o cérebro aprende padrões de reação. Cada vez que se escolhe a alavanca em vez do caminho fácil que leva à armadilha, a escolha se torna um pouco mais fácil. Algumas atitudes ajudam:

  • Dê nome ao que sente. Admitir para si mesmo “senti inveja” ajuda a evitar reações impulsivas;
  • Pergunte o que a inveja está dizendo. Ela costuma apontar exatamente o que se deseja: um cargo, uma habilidade, um reconhecimento. Então faça dela uma alavanca. Concentre-se no objetivo almejado, e não no fato de alguém próximo já ter chegado lá;
  • Troque a comparação por um plano. Em vez de medir a distância até o outro, defina o próximo passo concreto. Pergunte-se: “De que eu preciso para ter o mesmo?”;
  • Aproxime-se de quem você inveja. Parabenizar sinceramente e aprender com a pessoa transforma o rival em referência. A empatia é um diluidor afetivo da inveja;
  • Dê uma pausa nas redes. O desfile infinito de conquistas alheias mantém o alarme ligado o dia inteiro. O excesso de telas gera muitos males, e a comparação compulsiva e neurótica é um deles.

Em resumo, sentir uma pontada de inveja é normal: trata-se de uma reação involuntária, a lembrança da criança frágil que existe em cada pessoa. O desafio é encará-la como adulto e transformá-la em ambição, utilizando-a como um elemento propulsor das carreiras.

Robson Gonçalves é psicanalista, economista comportamental e professor da FGV, especialista em comportamento humano, saúde mental e alta performance.

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