Gostar da própria vida não equivale a estar bem em todos os momentos. Dá para comemorar conquistas, achar propósito no trabalho e preservar vínculos relevantes enquanto se lida com ansiedade, cansaço ou sofrimento emocional. Em outubro, os debates sobre saúde mental convidam a ir além da felicidade declarada.
O Mapa da Felicidade Real do Brasil, conduzido por Renata Rivetti em parceria com o Instituto IDEIA, entrevistou 1.500 pessoas entre 4 e 8 de setembro de 2026. Nessa etapa, 61,1% se declararam felizes e 78,3% afirmaram ter apoio de amigos ou familiares.
Na primeira rodada, realizada entre fevereiro e março, cerca de nove em cada dez entrevistados se diziam felizes. Mesmo assim, 33% mencionavam ansiedade e 29%, estresse entre as emoções mais frequentes. Trata-se de percepções, e não de diagnósticos clínicos.
“Uma pessoa pode reconhecer aspectos positivos em sua vida, sentir gratidão, ter vínculos importantes, encontrar sentido no que faz e, ainda assim, atravessar períodos de ansiedade, exaustão, tristeza ou sofrimento”.
Renata Rivetti, pesquisadora da felicidade e das relações humanas.
A pressão de corresponder
Trabalhar, cuidar da saúde, manter bons relacionamentos, praticar atividades físicas e ainda reservar tempo para descansar. Quando todas essas frentes precisam funcionar ao mesmo tempo, a busca por equilíbrio pode virar mais uma cobrança. Somado ao cansaço, aparece a impressão de não estar fazendo o suficiente.
Na avaliação de Rivetti, até o descanso pode ficar subordinado ao desempenho: a pausa serve apenas para voltar a produzir mais. Aceitar limites também requer observar as condições de trabalho, a forma como as responsabilidades são divididas e o suporte existente.
Ela ressalta que é necessário evitar converter problemas que também são sociais e relacionais em responsabilidades apenas individuais.
Rotinas desiguais
O recorte por gênero da primeira etapa indica que mulheres e homens tinham níveis parecidos de felicidade declarada, embora vivessem experiências distintas na rotina. Entre elas, 35,6% estavam satisfeitas com o cotidiano, contra 44,9% entre eles. A presença frequente em atividades sociais também era menor: 25,6%, frente a 33,1%.
Segundo a pesquisadora, a carga mental e o acúmulo de responsabilidades ajudam a explicar essas diferenças, ainda que os percentuais não confirmem uma relação de causa e efeito.
Ela explica que o problema não se limita às tarefas domésticas, mas envolve a responsabilidade constante de fazer a vida funcionar.
Sugerir que uma mulher encontre tempo para si, portanto, não resolve a discussão. É necessário considerar como as tarefas são divididas e quais condições permitem que descanso e lazer caibam na rotina.
Conexão e acolhimento
Em setembro, cerca de 22% dos entrevistados disseram não ter apoio de amigos ou familiares. O dado evidencia a diferença entre manter contato e poder compartilhar dificuldades.
Rivetti observa que existe hiperconexão, mas isso não significa necessariamente maior proximidade. Há mais canais de comunicação, porém, muitas vezes, menos espaço para conversas profundas.
Buscar ajuda não entra em conflito com a felicidade. É possível valorizar a própria trajetória e desejar mudanças, gostar do trabalho e precisar de uma pausa. Reconhecer essas experiências abre espaço para conversas sem julgamento e para procurar acompanhamento profissional quando necessário.






