Distração parece egoísmo: o que pode estar por trás

A cantora Claudia Leitte retomou o assunto sobre seu diagnóstico de TDAH e deu destaque a um ponto que tende a ficar em segundo plano nos debates sobre o transtorno: o modo como alguns comportamentos são interpretados nas relações interpessoais. Conforme relatou a artista, depois de revelar publicamente o quadro, ela também começou a enxergar situações de preconceito.

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Entre os julgamentos citados por ela está a ligação que se costuma fazer entre determinadas características do TDAH e atitudes encaradas como egoísmo ou falta de consideração com o outro.

Esse tipo de leitura pode aparecer a partir de cenas corriqueiras do dia a dia. Deixar de responder uma mensagem, perder a noção do horário, interromper alguém no meio de uma conversa, parecer desatento ou adiar uma obrigação são condutas que, quando repetidas, podem provocar atritos. Em pessoas com TDAH, no entanto, parte dessas dificuldades pode estar ligada a alterações na atenção, na memória de trabalho, na organização e no controle de impulsos.

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“O TDAH afeta a regulação da atenção e pode impactar a organização, a percepção do tempo e o controle dos impulsos. Por isso, alguém pode se esquecer de um compromisso relevante ou interromper uma conversa sem que haja a intenção de desrespeitar o outro. Isso não anula o efeito que o comportamento causa, mas modifica a forma de entender por que ele acontece”, explica Tales Vilela, psiquiatra com especialização em Psiquiatria Infantil e diretor clínico do Instituto Essencialmente.

Nem todo esquecimento indica TDAH

O debate requer ainda atenção por causa da popularização de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais. Desatenção, esquecimentos e dificuldade de concentração fazem parte da rotina de muitas pessoas e, quando aparecem sozinhos, não configuram um transtorno.

Na avaliação da neuropsicóloga Roberta Machado, o que deve ser analisado é a combinação de frequência, intensidade e impacto dessas dificuldades.

“Não podemos converter características isoladas em diagnóstico. No TDAH, avaliamos um conjunto de funções, como atenção, planejamento, organização, controle inibitório e regulação emocional, além de observar como essas dificuldades surgem em contextos diversos e interferem de fato na rotina. Essa análise mais ampla é o que separa uma dificuldade pontual de um quadro que merece investigação”, pondera.

Ter o diagnóstico tampouco exime a pessoa da responsabilidade sobre o modo como seus comportamentos afetam os demais. A diferença está em reconhecer a dificuldade para então buscar formas de manejá-la.

“Compreender o diagnóstico não significa que tudo está liberado. Significa reconhecer uma dificuldade real e desenvolver recursos para lidar com ela. Alarmes, agendas, organização da rotina e estratégias para controlar interrupções, por exemplo, podem auxiliar. O TDAH não determina a capacidade intelectual, profissional ou afetiva de alguém”, completa Tales.

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