Raízes da terra natal moldam nossa identidade

Caminhar por ruas que faziam parte do trajeto escolar, reconhecer um sotaque familiar, degustar uma iguaria típica difícil de encontrar em outra localidade, redescobrir festas folclóricas, tradições e músicas que remetem a lar. Revisitar o local onde se cresceu pode evocar um misto de sentimentos, trazendo toda a própria história de volta à memória.

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“Nasci em Tenente Jardim, um bairro periférico de Niterói. Sempre que retorno lá, experimento uma sensação bastante especial: não apenas recordo da criança que fui, como quase sinto que posso tocá-la. Minha memória se torna tão vívida que o tempo parece agir de maneira cúmplice”, compartilha a psicóloga Adriana Santiago.

A seguir, ela complementa que cada lembrança é retida em conjunto com as emoções e o ambiente em que foram vividas. Portanto, basta um estímulo sensorial para reavivar o fascínio de antigas histórias. A neurociência auxilia a compreender esse fenômeno: as áreas do cérebro ligadas à memória interagem intimamente com as regiões associadas às emoções.

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Ela prossegue explicando que isso ocorre porque cada recordação é guardada junto às emoções e ao contexto em que aconteceu. Assim, um único estímulo sensorial pode fazer com que o corpo viaje para o passado.

Memórias que formam a identidade

Descrever quem somos, de onde viemos e quais vivências nos conduziram até o presente proporciona uma sensação de continuidade entre as diversas fases da vida. Analisar tudo que culminou em nosso aqui e agora é exatamente o que colabora para a construção de nossa identidade.

No primeiro local que se chamou de casa, aprende-se muitos dos códigos utilizados na vida. É comum puxar conversa com estranhos na fila, aparecer na casa de alguém sem aviso, solicitar um favor ao vizinho ou manter uma certa distância. Também se aprende como cumprimentar, que nível de intimidade é apropriado logo de início e até mesmo as expressões, apelidos e palavras que são típicas daquela região.

Além disso, preferências pessoais frequentemente se integram a essa formação. O apreço por pimenta, o hábito de tomar chimarrão, o café preparado de uma maneira específica ou até aquela banda que só quem é da região reconhece.

“Por isso, quando alguém diz ‘essa é a comida da minha terra’, ‘lá a gente fala assim’ ou ‘essa música me lembra minha infância’, muitas vezes está expressando algo muito mais profundo: ‘isso faz parte de mim’.”

Orgulho das raízes

Adriana ressalta que muitas pessoas experienciam algo essencial para o bem-estar: a sensação de pertencimento, que gera conexão emocional, segurança e proximidade entre conterrâneos. “Isso ajuda a explicar por que tantas pessoas defendem carinhosamente o bairro, a cidade, o estado ou o país de onde vieram”, elucida a especialista.

Adicionalmente, o psicólogo André Machado destaca o sentimento de orgulho. “Relatar de onde viemos é uma maneira de se apresentar por inteiro. Não se trata de se vangloriar, mas de afirmar: eu venho de um chão, uma língua, um jeito de compartilhar uma refeição. Isso cria intimidade e dignifica o ponto de partida, especialmente quando a origem é frequentemente vista como inferior. É uma forma de afirmar que as raízes não são um mero detalhe.”

Portanto, ao mudar-se para longe da terra natal, a novidade pode vir acompanhada de entusiasmo e até do alívio de deixar para trás um antigo script, mas também é comum levar um tempo até que se sinta em casa. É como se, por um período, tudo ficasse fora de lugar. “A saudade não se limita a pessoas. É de texturas, sons da rua, o jeito do pão, e o clima”, esclarece Machado.

Se anteriormente, imersos nos costumes do local em que vivíamos, muitos elementos do cotidiano passavam despercebidos, a distância faz com que o que era banal se torne proeminente. Segundo Adriana, é corriqueiro que, nesse quadro, as pessoas comecem a valorizar mais suas próprias referências e tradições.

“Encontrar alguém com o mesmo sotaque pode gerar uma intimidade instantânea totalmente desproporcional ao tempo de convivência. Em três minutos, a pessoa já se torna praticamente uma prima. Essa familiaridade proporciona ao cérebro uma espécie de reconhecimento: ‘eu conheço isso, isso pertence ao meu mundo’.”

Além disso, a interação com uma nova cultura cria um contraste. Ao descobrir outros costumes, formas de se expressar e modos de convivência, torna-se mais fácil identificar o que, da terra de origem, realmente compõe a nossa identidade.

Olhar para trás de outro jeito

No entanto, nem todo lugar de origem guarda lembranças positivas. Por isso, Adriana alerta para o risco da idealização. “A saudade é uma excelente editora: às vezes corta as partes difíceis e deixa apenas as melhores cenas.” Em certos casos, o bem-estar está justamente em conseguir reexaminar esse passado sob uma nova perspectiva.

Ainda assim, esse reencontro com as próprias origens pode ter sua beleza. Demonstra que é possível explorar novos lugares, construir novas referências, evoluir ao longo da vida e continuar carregando aromas, vozes, sabores e histórias que fizeram parte da jornada.

“Talvez nossa origem seja justamente isso: não necessariamente o lugar para onde precisamos retornar, mas um espaço que, de alguma forma, continua viajando conosco.”

 

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Redação
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Flávia Cysne

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