Psicólogo, psiquiatra ou ambos: como escolher o profissional certo

Durante muito tempo, a discussão sobre saúde mental foi envolta em preconceitos e frequentemente associada apenas a situações mais graves. Atualmente, esse cuidado tornou-se parte da rotina e buscar um psicólogo ou psiquiatra é uma prática cada vez mais comum.

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Estatísticas divulgadas pela Doctoralia, uma plataforma que conecta pacientes a especialistas em saúde, evidenciam essa transformação na realidade. Entre 2024 e 2025, as consultas em psicologia e psiquiatria aumentaram 18,5% no Brasil, o que equivale a 1.756.584 atendimentos a mais em apenas um ano.

O levantamento indica que esse crescimento ocorreu tanto na área da psiquiatria quanto na da psicologia. As consultas psiquiátricas, tanto presenciais quanto online, passaram de 1.880.228 em 2024 para 2.184.111 em 2025. Por sua vez, os atendimentos psicológicos saltaram de 7.598.686 para 9.051.387 no mesmo período. Isso demonstra que a busca por ajuda profissional para cuidar da saúde mental está se tornando uma constante na vida dos brasileiros.

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No entanto, apesar desse progresso, ainda há confusão sobre as funções de cada profissional, suas limitações e quando é necessário que os tratamentos coexistam. Nina Ferreira, que atua nas duas esferas por ser psiquiatra e psicoterapeuta, é autora do livro “Coragem Emocional: o que fazer com sentimentos difíceis?” (Editora Labrador) e oferece esclarecimentos sobre o funcionamento de cada uma delas.

O papel do psiquiatra

Como a psiquiatria é uma especialidade da medicina, o olhar desse profissional também considera o funcionamento do organismo. A intenção é investigar se alterações no cérebro, no metabolismo ou em outras partes do corpo podem estar conectadas aos sintomas. Afinal, nada opera de forma isolada; o que ocorre no corpo impacta o cérebro e o oposto também se verifica. “É uma via de mão dupla”, observa.

Essa avaliação não se restringe a exames. Durante a consulta, o psiquiatra também considera o histórico do paciente, mudanças de comportamento, humor, reações e a forma como este lida com as informações que compartilha. A partir deste conjunto de dados, o profissional procura entender o que pode estar por trás dos sintomas e qual abordagem é mais adequada, seja ela medicamentos, terapia, alterações no estilo de vida ou uma combinação dessas técnicas.

Além dos medicamentos, o psiquiatra pode optar por outras intervenções, como a eletroconvulsoterapia, cetamina e medicações injetáveis. Em determinadas situações, o próprio profissional pode realizar psicoterapia, embora isso não faça parte do trabalho de todos.

Como a terapia pode ajudar

A psicoterapia, por sua vez, foca mais intensamente nas emoções, comportamentos e na maneira como cada indivíduo pensa e enfrenta as situações da própria vida, mesmo na ausência de um transtorno.

A terapia pode ser benéfica não apenas em momentos de sofrimento intenso, mas também em períodos de angústia, dificuldades para tomar decisões ou conflitos nas relações, conforme explica Nina. Durante esse processo, o profissional ajuda a identificar o que está causando desconforto, o que já funciona bem e o que se deseja modificar. “A partir daí, paciente e terapeuta caminham juntos na construção de caminhos possíveis que levem a esses objetivos.”

Apesar das diferenças, ambas as áreas compartilham um aspecto crucial: a consideração do contexto de vida de quem busca ajuda. Isso porque o cérebro está constantemente em interação com o que acontece ao redor, desde relações e experiências até os problemas, mudanças e imprevistos que fazem parte da vida. Na terapia, os encontros costumam ser mais frequentes — normalmente em intervalos semanais — permitindo que o profissional acompanhe mais de perto o cotidiano do paciente.

Até onde cada tratamento alcança

Em certas situações, focar apenas na medicação pode aliviar ou ocultar temporariamente sintomas que precisam ser vividos, nomeados e investigados. O sofrimento pode estar vinculado ao contexto de vida, a padrões repetitivos ou até à dificuldade em estabelecer limites.

No entanto, isso não implica que a medicação sirva ou tenha como objetivo final somente “aliviar” o problema. Na prática, ela pode auxiliar na regulação de sistemas cerebrais relacionados ao humor, ansiedade, sono, atenção e resposta ao estresse.

Com esse funcionamento equilibrado, novas respostas tornam-se mais acessíveis, permitindo a aprendizagem de outros caminhos e a consolidação de mudanças ao longo do tempo: o que chamamos de neuroplasticidade. “É em um ambiente mais favorável que a terapia, o sono, a atividade física e alterações de rotina são aprimoradas e tendem a se tornar duradouras.”

Além disso, em casos mais graves, o tratamento psiquiátrico pode precisar preceder a psicoterapia. O objetivo é estabilizar sintomas como ansiedade exacerbada, oscilações de humor e dificuldades de memória e concentração, para que o paciente possa entrar na terapia em condições mais favoráveis para se beneficiar desse processo, esclarece Nina.

Quando combinar as especialidades

“Nem todo paciente sob cuidados psiquiátricos precisa necessariamente estar em psicoterapia constantemente”, afirma a médica. Em algumas situações, como em transtornos bipolares, esquizofrenia ou depressão recorrente, é possível alcançar um estado estável, sem sofrimento psíquico intenso, coexistindo com uma rotina que ajuda a manter a saúde mental em equilíbrio.

A dinâmica muda quando o sofrimento persiste por um longo período ou existem padrões emocionais e comportamentais que contribuem para perpetuar a situação. Nessas circunstâncias, a terapia assume um papel ainda mais significativo, pois aborda questões que a medicação, por si só, não consegue abordar. “Em muitos casos, é mais relevante do que a intervenção medicamentosa ou psiquiátrica”, destaca.

No final, não há uma regra rígida para determinar quando é necessário recorrer à medicação, à psicoterapia ou à combinação de ambas. Um mesmo transtorno pode se manifestar de maneiras distintas em diferentes pessoas e até modificar-se ao longo da vida. “Em certo momento, por exemplo, uma pessoa com depressão pode se beneficiar mais da terapia sem necessitar de medicamentos. Em outra fase, pode ocorrer o contrário: a medicação pode ser necessária primeiro, até que a pessoa consiga aproveitar melhor a psicoterapia.”

Por essa razão, essa decisão deve ser feita caso a caso, considerando o momento presente, o histórico e o contexto de vida do paciente. Tanto o psiquiatra quanto o psicólogo estão capacitados para realizar essa avaliação e, quando for o caso, sugerir o acompanhamento com o outro profissional para analisar a pertinência de incluir mais uma abordagem no tratamento.

Outro fator que pode levar muitos a desistirem da terapia é a impaciência por resultados. A sociedade atual vive em um ritmo onde a maioria das coisas parece exigir soluções rápidas, e essa expectativa se reflete também no cuidado com a saúde mental.

Entretanto, a terapia nem sempre se adapta a essa temporalidade acelerada. Algumas questões demandam um entendimento gradual, e transformações mais profundas geralmente requerem continuidade e consistência. Quando a melhora não se manifesta rapidamente, pode surgir a sensação de que “não está funcionando”, e é nesse ponto que muitas pessoas acabam interrompendo o processo.

Por outro lado, Nina ressalta que um aspecto crucial para cuidar da saúde mental é não abandonar o tratamento assim que os sinais de melhora começam a aparecer. “Até porque é da natureza humana evitar emoções difíceis, certo?” Quando os sintomas diminuem, é comum a sensação de que o problema foi resolvido e que não há mais necessidade de explorar as questões emocionais que contribuíram para esse quadro.

“Foi por esse motivo que escrevi o livro ‘Sinto Muito’, que aborda sentimentos difíceis. A nossa tendência é evitar o mundo interior e nossas próprias dores, uma vez que sentimos medo, vergonha, e muitas vezes não sabemos como lidar com esses sentimentos. Não somos educados a confrontar essas questões. Assim, quando o desconforto diminui, ficamos ainda mais tentados a não investigar o que se escondia por trás disso.”

No entanto, essas emoções continuam a existir, mesmo quando tentamos ignorá-las. Portanto, é fundamental aprender a enfrentá-las com mais naturalidade. Quanto mais espaço se dá ao que se sente, mais fácil se torna lidar com essas questões. “E ao enfrentar, diminui-se o risco de isso levar a um adoecimento.”

Assim, o raciocínio se amarra: primeiro, a pressa pode levar a desistências prematuras; depois, a melhora pode criar a falsa impressão de que já não é necessário continuar.

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Redação
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