Antes de nomear, deixe a emoção ganhar forma

Existe um espaço em que as emoções permanecem como neblina antes de ganharem forma, e a pressa para traduzi-las em palavras pode apagar parte das texturas e sutilezas da experiência. Por essa razão, permitir-se não saber é também uma maneira de deixá-las se desenharem no próprio mundo interno.

Continua após a publicidade

Contudo, essa pode ser uma tarefa desafiadora. Somos culturalmente ensinados a priorizar o pensamento racional em detrimento das subjetividades, o que nos afastou das dimensões corporais, biológicas e sensoriais do nosso ser, afirma a psicóloga, psiquiatra e autora do livro “Sinto Muito! – Coragem emocional: o que fazer com sentimentos difíceis?” (Editora Labrador), Nina Ferreira.

Além disso, corpo e mente ainda são frequentemente tratados como entidades separadas, quando, na realidade, constituem um único organismo. “Afetos e emoções também são vivências biológicas e somáticas. Antes mesmo de conseguirmos nomear o que está acontecendo, algo já foi percebido através das sensações. É para isso que servem os sentidos: visão, paladar, olfato e muitos outros sinais que ajudam a compreender o que se passa dentro de nós.”

Continua após a publicidade

Fomos feitos para sentir, e é necessário confiar nesse mecanismo desenvolvido ao longo de milhares de anos da evolução humana, explica Nina. “Principalmente na vida contemporânea, temos esquecido que também somos natureza. Somos animais e não estamos separados dos processos naturais que integram a nossa existência.”

Permita-se sentir, sem medo

Ignorar o significado de uma emoção pode gerar ansiedade e medo, uma vez que o cérebro também evoluiu para tentar antecipar o futuro e assegurar a sobrevivência. Por isso, Nina recomenda fazer as pazes com os sinais biológicos que aparecem nesses momentos, como o coração acelerado, a tensão e a elevação da adrenalina.

Aprendemos a perceber essas sensações como algo negativo, que precisa desaparecer o mais rápido possível. Diante do desconforto da incerteza, é comum tentar nomear imediatamente e chegar a uma conclusão. Isso proporciona uma sensação de controle e, consequentemente, de alívio.

Porém, compreender que esse movimento também integra um mecanismo de proteção torna mais fácil não entrar imediatamente em conflito com eles. Em vez de pensar “isso precisa passar” ou “não deveria estar acontecendo”, é possível reconhecer que o cérebro está apenas tentando nos proteger.

“Assim como precisamos aprender a conviver com as mudanças do envelhecimento, também podemos encarar essas sensações com mais serenidade. Não é uma questão de gostar ou não, aceitar ou não. São apenas condições da existência humana, e vamos dançando conforme a música.”

Compreender melhor como funcionamos, encarar com naturalidade, sem transformar toda sensação difícil em algo necessariamente patológico ou catastrófico, também é uma forma de cuidar da saúde mental, explica a psicóloga.

Dê espaço antes de buscar respostas

Nina afirma que nem sempre o que acontece internamente aparece de maneira clara. Muitas vezes, surge como algo difuso e vai adquirindo contornos aos poucos, conforme se presta atenção aos sinais que aparecem.

Se surge um cansaço, por exemplo, vale investigar: como foi o dia, as últimas semanas, o que pode estar sobrecarregando e até o que deixou de ser feito, mas costumava gerar bem-estar. “É como construir novas experiências para ajudar a temperar aquela sensação.”

A proposta é observar o que se manifesta e experimentar formas de cuidado, criando situações que auxiliem a compreender melhor o que está acontecendo. Em seguida, observar o efeito: fez bem ou não? Para Nina, o autoconhecimento também se constrói dessa maneira, nessa conversa constante consigo mesmo, feita de tentativas, novos comportamentos e atenção às respostas corporais que cada experiência provoca.

Nomear uma emoção, portanto, não precisa ser o primeiro passo. A compreensão pode vir depois desse contato mais tranquilo consigo mesmo, com a própria história e com aquilo que está sendo vivido. Trata-se de dar espaço para que o que surgiu ganhe forma e possa ser compreendido. “Não é uma conta matemática, por isso não tem uma fórmula exata, mas é a melhor maneira de encontrarmos equilíbrio.”

Com o tempo, esse movimento ajuda a fortalecer a confiança nas próprias intuições e a perceber com mais clareza os sinais que elas oferecem. “Isso nos conduz a viver uma vida que faça sentido para você como indivíduo e que, na maioria das vezes, é diferente do que faz sentido para os outros, pois cada um tem um cérebro, preferências e necessidades.”

No curso “A Vida que vale a pena ser vivida”, o filósofo Clóvis de Barros Filho reflete sobre esse tema e sintetiza essa ideia: “Eu sou o mais recorrente, insistente, arguto e frequente observador de mim mesmo. Ninguém sente as experiências por mim vividas como eu sinto. (…) Se porventura eu estiver equivocado, faz parte do meu aprendizado. Mas eu viverei a vida definida por mim, em vez de viver a vida traçada, elaborada, planejada e estabelecida de fora para dentro.”

Não apresse, mas também não ignore

Também é comum surgir a dúvida: será que estou esperando que isso seja elaborado ou apenas evitando resolvê-lo agora? Nina compara esse processo a cavalgar: a mente e o corpo seriam o cavalo, enquanto a consciência é o cavaleiro. Se ele permanece acordado, consegue perceber para onde está indo e direcionar o caminho. Se adormece, o cavalo segue sozinho. Por isso, a diferença está em permanecer atento ao que está acontecendo.

Na prática, quando aparecem dores, angústias ou emoções difíceis, o primeiro passo é reconhecer que existe algo ali pedindo atenção. Nem sempre é possível interromper tudo naquele momento, mas dá para voltar a essa sensação depois, com mais calma, para refletir, sentir e tentar entender de onde ela vem. E, mesmo que não surja uma resposta exata, aquilo que foi sentido ainda pode ser levado em consideração.

“Fugir dessas situações significa perceber a sensação e não olhar mais para ela, ignorar, sufocar com outros comportamentos e não retornar mais àquele ponto. É bem diferente do processo de autoconsciência e de se demorar um pouco ali.”

Continua após a publicidade
Redação
Redação
Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
21ºC
Máxima
27ºC
Mínima
20ºC
HOJE
23/09 - Qua
Amanhecer
05:29 am
Anoitecer
05:37 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
7.2 km/h

Média
20.5ºC
Máxima
22ºC
Mínima
19ºC
AMANHÃ
24/09 - Qui
Amanhecer
05:28 am
Anoitecer
05:37 pm
Chuva
3.75mm
Velocidade do Vento
10.21 km/h

Inclusão e acessibilidade: caminhos para a democracia

Fátima Garrido

Leia também