Yoga restaurativo reduz tensão e desacelera

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Descansar nem sempre é tão simples quanto parece. Após um dia exaustivo, o corpo frequentemente não desacelera no momento em que as tarefas se encerram. A mente segue agitada, os músculos continuam tensos e o sono pode tardar a vir. Quando essa condição se estende, a tensão se incorpora à rotina e pode se manifestar em dores, mudanças de humor e dificuldades para dormir.

É exatamente nesse ponto que o yoga restaurativo atua. Diferentemente de modalidades que priorizam o esforço, a força e o rendimento, a proposta consiste em criar condições — por meio de posturas mantidas por alguns minutos e do uso de acessórios — para que o corpo permaneça apoiado e o organismo reduza progressivamente seu nível de ativação.

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O que é, de fato, o yoga restaurativo

Priscila D’Addio, instrutora de yoga, graduada em Educação Física pela USP (Universidade de São Paulo) e especialista em yoga restaurativo, ressalta que a prática não busca primordialmente ampliar a mobilidade.

“A prática restaurativa não se trata de alongamento, mas de abertura. Abertura essa que é um acesso para um estado de profundo relaxamento físico e ativação do sistema nervoso autônomo parassimpático, responsável pelo relaxamento e descanso do corpo humano, com diminuição da frequência cardíaca, da pressão arterial, da frequência respiratória, da tensão e tônus muscular.”

O yoga restaurativo é uma vertente do Hatha Yoga que reúne posturas, respiração e gestos para levar o corpo a um estado de maior tranquilidade. As posições são realizadas com suporte de acessórios, o que possibilita manter cada uma por cinco a dez minutos sem sustentar o próprio peso ou buscar amplitudes máximas. A modalidade não exige força nem flexibilidade.

Esse período de permanência estimula o sistema nervoso parassimpático, ligado aos mecanismos de descanso e recuperação. Durante as sessões, também podem ocorrer vivências subjetivas, como voltar a atenção para o interior ou entrar em estados de devaneio. Priscila pontua que a ciência ainda não descreveu completamente esses fenômenos.

“Após acionar o SNA parassimpático podem ocorrer outros fenômenos, como internalização dos sentidos e devaneios. Sendo esses fenômenos mais sutis, com certeza acontecem muito mais coisas no ser humano do que a ciência pode descrever ou do que o homem possa compreender.”

Por que desacelerar é tão difícil

O estresse contínuo deixa o organismo em estado de vigília e afeta funções como batimentos cardíacos, pressão arterial e sono. Por esse motivo, decidir conscientemente que chegou a hora de descansar não garante que o corpo mude de ritmo na mesma hora. Após temporadas prolongadas de tensão, até a sensação de relaxamento pode parecer estranha.

O yoga restaurativo favorece essa transição por meio da permanência nas posturas, do apoio do corpo e da respiração. Nas palavras de Priscila: “quando o yoga restaurativo atua, conseguimos baixar esses hormônios e regular as funções vitais do organismo. Hoje em dia o nível de alerta constante altera pressão sanguínea, batimentos cardíacos e etc., corroendo nossa saúde de forma silenciosa. Na medida em que ocorre a regulação dos hormônios, o estresse crônico é liberado, restaurando o equilíbrio físico e mental.”

Pesquisas sobre práticas contemplativas e métodos de relaxamento indicam relações com a diminuição do estresse e com alterações na atividade do sistema nervoso autônomo. No yoga restaurativo, a ideia é promover esse estado com posições confortáveis e mantidas, sem demandar uma reação física vigorosa.

É nesse ponto que a prática se diferencia de outras atividades físicas. Quando a meta é descansar, não faz sentido elevar a intensidade do exercício. O corpo ganha suporte para ficar imóvel por alguns minutos e, gradualmente, abandonar o estado de alerta.

O que pode mudar no corpo e na mente

Os efeitos atribuídos ao yoga restaurativo estão ligados sobretudo à redução da tensão e ao relaxamento. Priscila menciona benefícios que podem surgir em diferentes esferas:

  • Alívio de dores físicas, principalmente em locais que costumam acumular tensão, como lombar, cervical, ombros, mandíbula, músculos da face e região craniana;
  • Melhora da qualidade do sono, conforme o corpo se habitua a estados de repouso;
  • Redução da ansiedade e da sensação de tensão;
  • Melhora da digestão, ligada ao funcionamento do organismo em situações de maior relaxamento;
  • Maior percepção corporal, auxiliando na identificação de padrões de tensão;
  • Desenvolvimento de recursos para lidar com emoções difíceis.

Priscila ainda associa o descanso ao desempenho do sistema imunológico. “Quando os hormônios trabalham de forma regulada, nossas defesas naturais são fortalecidas nesses pequenos momentos de descanso profundo”, diz.

Os ganhos não devem ser vistos como consequências automáticas de cada posição. O resultado da prática depende da combinação de diversos fatores, incluindo respiração, tempo de permanência, conforto e diminuição de estímulos externos. Também é essencial distinguir o yoga restaurativo de um tratamento médico. A prática pode integrar uma rotina de autocuidado, mas não substitui o acompanhamento profissional diante de quadros de saúde que exigem intervenção específica.

Para quem é indicado e por onde começar

O yoga restaurativo dispensa qualquer experiência prévia com yoga, flexibilidade ou preparo físico. Os acessórios permitem ajustar as posturas e encontrar posições em que o corpo consiga permanecer, ampliando o acesso a pessoas com diferentes graus de mobilidade.

Priscila avalia que a modalidade é particularmente recomendada para “pessoas com esgotamento físico ou mental, idosos, gestantes, iniciantes e indivíduos em reabilitação de lesões”. Em casos de lesão ou durante a gravidez, no entanto, é fundamental que as posições sejam adaptadas e, se preciso, conduzidas por um profissional qualificado.

O conforto ocupa um lugar central na proposta. Almofadas, mantas e blocos auxiliam no suporte do corpo, evitando que a pessoa faça força para se manter na postura. O propósito, conforme Priscila, é “dar espaço, tempo e segurança para o praticante soltar as tensões e recuperar a energia vital”.

Para experimentar o yoga restaurativo em casa, não é necessário preparar um ambiente exclusivo nem adquirir todos os itens utilizados em uma aula. Travesseiros firmes, almofadas de sofá e cobertores dobrados já funcionam como apoio. No vestuário, roupas largas e confortáveis são suficientes.

Vale ainda diminuir os estímulos ao redor. Luz suave, notificações silenciadas e alguns minutos sem interrupções contribuem para um contexto mais propício ao descanso. Na primeira sessão, duas ou três posturas já bastam, principalmente se forem realizadas sob a orientação de um professor.

Entre as posições indicadas por Priscila está a Viparita Karani, também chamada de “pernas na parede”. O praticante se deita de costas, aproxima os glúteos da parede e apoia as pernas esticadas na superfície vertical. Um travesseiro pode ser posicionado sob o quadril e uma manta dobrada sob a cabeça, com os braços relaxados ao lado do corpo e as palmas voltadas para cima.

Essa postura pode ser mantida por cinco a dez minutos, com respiração serena. Quem estiver à vontade pode cobrir os olhos. O corpo precisa continuar apoiado e livre de dor. Caso surja algum incômodo, a posição deve ser ajustada ou encerrada.

O que está sendo restaurado

O termo restaurativo remete à recuperação. A prática abre um intervalo no qual o corpo consegue desacelerar e vivenciar uma condição distinta daquela que marca grande parte do dia a dia.

Isso não quer dizer eliminar o estresse ou achar uma resposta rápida para a dificuldade de repousar. O yoga restaurativo propõe uma maneira organizada de ficar em descanso, com suporte adequado para que esse instante não se torne mais uma obrigação.

Dez minutos talvez pareçam insuficientes diante de uma rotina atribulada. Mesmo assim, separar esse período para permanecer em uma posição confortável, respirar com tranquilidade e diminuir os estímulos já representa uma mudança relevante frente ao ritmo comum. Para aqueles que têm dificuldade em desacelerar, pode ser um ponto de partida viável.

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