Enchente deixa marcas na saúde mental

Quando as águas recuam, começa uma nova etapa para quem enfrentou uma enchente. É hora de limpar a residência, recuperar documentos, reconstruir o que se perdeu e buscar a volta à normalidade. No entanto, para muita gente, o fim do alagamento não significa o fim do perigo. O receio de uma nova inundação, as recordações do ocorrido e as perdas sofridas podem seguir presentes por vários meses.

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O som da chuva, a subida do nível dos rios ou mesmo notícias sobre o volume de precipitação são capazes de reavivar memórias da tragédia e sustentar o estado de alerta, ainda que não exista perigo próximo de um novo alagamento. O dia a dia, que antes seguia com atividades comuns, agora é cortado pela sensação de que tudo pode se repetir a qualquer instante.

O corpo e a mente seguem vigilantes aos indícios de perigo, enquanto o medo, a ansiedade e a insegurança se estendem no tempo. É nesse intervalo, quando a emergência acabou mas os efeitos emocionais ainda estão ativos, que diversas reações podem aparecer.

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Respostas do corpo

A psicóloga Geli Cardoso Eidelwein (CRP 17303) destaca que, nas primeiras 72 horas depois de um desastre, ocorre a chamada fase aguda. Nesse momento, o estresse e a ansiedade podem aparecer ou se agravar, principalmente em quem já convivia com algum sofrimento psíquico. Os prejuízos materiais, as pessoas desaparecidas, os deslocamentos forçados e a falta de orientação sobre onde procurar auxílio também tendem a ampliar o abalo emocional.

“São inúmeras circunstâncias que afetam a saúde mental, indo além dos prejuízos materiais e das demais consequências de um desastre. Trata-se de uma resposta diante de algo que rompe por completo com aquilo que a pessoa conhecia até então.”

Conforme a especialista, nos 30 dias seguintes ocorre uma fase de assimilação, caracterizada também pela revivência do ocorrido. Nesse intervalo, certas situações podem fazer a pessoa relembrar o episódio e provocar novamente reações de ansiedade.

“Por essa razão, ela tende a evitar certos locais ou circunstâncias, exatamente porque isso gera uma resposta ansiosa. Diante desses estímulos, algumas pessoas ainda podem se sentir paralisadas, sem saber o que fazer.”

Após essa etapa inicial, parte das pessoas pode seguir com sintomas ligados ao que viveram. De acordo com a psicóloga, a continuidade desses sinais pode ser um indicativo de transtorno de estresse pós-traumático e prejudicar a vida diária. “Existe toda uma carga de recordações e perdas que ela carrega. Então, aquilo permanece vivo, ainda que o perigo já tenha passado.”

Geli ressalta, no entanto, que nem todo mundo que vive uma enchente vai desenvolver um trauma. A reação emocional muda conforme a vivência de cada um e o modo como cada pessoa atravessou a catástrofe.

A elevação do rio reacende o medo de quem já viveu enchentes e mantém moradores em estado de alerta

Estado de alerta

A realidade se torna ainda mais árdua para quem continua morando em regiões propensas a novos alagamentos. Nesse cenário, cada alerta de chuva ou novo evento climático extremo pode servir como um gatilho e despertar o medo e a ansiedade ligados às vivências passadas.

Dona de um bar histórico no Centro de Lajeado, Alaerci Gross convive com as cheias do Rio Taquari há muitos anos. A partir de setembro de 2023, porém, sua relação com as enchentes se transformou. Em maio de 2024, quando outra grande inundação atingiu a região, esse sentimento ficou ainda mais forte, aumentando o receio e a percepção de vulnerabilidade diante da força das águas.

“A situação está muito complicada. Fico aflita, ansiosa e me sinto desamparada, pois noto que o nível de inundação baixa cada vez mais. Preciso ficar sempre alerta para retirar todos os móveis do comércio. Na última enchente, às 4h da madrugada, precisei sair da cama e procurar um caminhão”, relata.

Atualmente, a empresária vive em uma região segura e vai até o local principalmente para cuidar do comércio. A mudança, contudo, acrescentou mais uma camada aos impactos das enchentes: a distância dos laços e das referências construídos durante toda a vida.

“Morei neste lugar a vida inteira, conheço todo mundo e via meus vizinhos como uma extensão da minha família. Tive de sair da minha casa e, nesse novo endereço, as coisas são diferentes. As pessoas são mais fechadas e não parecem tão receptivas”, conta.

Alaerci mantém o bar como um vínculo com a história construída no local, mesmo após deixar a área de risco

Esse cenário pode ser ainda mais complicado para quem segue vivendo em uma área sujeita a novos alagamentos. Nessa condição, cada previsão de chuva ou ocorrência climática extrema pode atuar como um detonador de sofrimento.

Geli afirma que atendeu pessoas que, por causa da recorrência das inundações, começaram a pensar em deixar a região, já que não aguentavam mais a possibilidade de passar por aquilo outra vez.

Irmão de Alaerci, Vanderlei Gross espera se mudar para um lugar fora da área alagável enquanto aguarda a negociação da casa. “Vivo aqui há 40 anos, mas os episódios de 2023 e 2024 deixaram tudo mais preocupante. Em maio, tivemos de sair pelo telhado com a família. Não dá mais para continuar vivendo desse jeito”, desabafa.

Cuidado multidisciplinar

O abalo emocional causado por uma enchente não pode ser tratado somente pela área da saúde. Para Geli, o acolhimento deve ser coordenado entre diversos setores — assistência social, Defesa Civil e órgãos de proteção — a fim de que as necessidades da população sejam reconhecidas e direcionadas conforme cada caso.

Nesse cenário, o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) é um dos serviços capazes de receber pessoas em sofrimento, mas não deve ser encarado como a única via de acesso ao cuidado em saúde mental.

A especialista ressalta que ser acolhido no serviço não implica, obrigatoriamente, um acompanhamento contínuo. Conforme a avaliação, o paciente pode seguir sob cuidados da atenção básica, enquanto outras necessidades pedem o acionamento da assistência social ou de outros equipamentos públicos.

“Quando alguém chega com essa demanda, precisamos enxergar a questão intersetorial: quais recursos essa pessoa precisa acessar? Se for o caso do CRAS, por exemplo, orientamos a procurar a assistência social diante daquela situação específica. Isso também ultrapassa o que conseguimos fazer na saúde.”

Para Geli, o cuidado deve estar espalhado por uma rede que consiga dar conta dos diferentes graus de sofrimento, sem reunir todas as demandas nos serviços especializados.

Dessa forma, enquanto as situações mais severas podem demandar um atendimento específico, a atenção básica e as referências comunitárias são essenciais para receber a maior parte das pessoas e ajudar na retomada do cotidiano depois da tragédia.

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Redação
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