A bola desliza sob os pés do atleta, rapidamente conduzida em um drible e dirigida ao gol com um chute preciso que a eleva sobre as cabeças dos defensores que tentam formar a barreira. O balanço das redes confirma o ponto marcado. Festa geral.
Essa cena deve se repetir nas próximas semanas enquanto o mundo volta sua atenção para os estádios do México, Canadá e Estados Unidos durante a Copa do Mundo de Futebol.
Habilidades como tempo de reação mais rápido, ampla visão periférica e precisão na tomada de decisão são diferenciais importantes para atletas de elite, como os jogadores das seleções.
Essas mesmas características são observadas em pessoas com altas habilidades e superdotação, revelando que as grandes capacidades do cérebro não se manifestam apenas por meio de aptidões intelectuais, mas também por destreza motora excepcional, criatividade intensa e elevada excitabilidade sensorial e afetiva.
A superdotação invisível
Tendemos a esperar, de maneira equivocada, que uma criança ou adulto superdotado seja excêntrico, que fale de forma rebuscada e passe o dia divagando sobre teoremas. Isso pode acontecer, mas não é a regra.
O mais comum é que a superdotação permaneça invisível para a maior parte das pessoas, inclusive para os próprios superdotados, apesar de sua agudeza de visão e capacidade de aprendizado — como alguém que tivesse a visão embaçada cada vez que se olhasse no espelho.
Esse problema é tão difundido que, hoje, dos 4 a 10 milhões de superdotados estimados no Brasil, apenas pouco mais de 56 mil estudantes foram identificados, segundo o censo de 2025.
Imaginemos a quantidade de artistas, esportistas, engenheiros, médicos, terapeutas, empresários, mas também pedreiros, cozinheiros, líderes comunitários, estagiários, motoboys e cabeleireiros que sequer sabem que podem fazer parte desse grupo, embora notem, desde crianças, que são diferentes, mesmo sem saber o motivo.
Superdotados estão em todo o país e em todas as classes sociais. São pessoas de todas as idades. Os preconceitos que cultivamos invisibilizam essa condição.
O projeto de lei que pode mudar o jogo
Esse cenário deve se alterar com o Projeto de Lei 1049/26, que já tramitou na Câmara e no Senado e segue para sanção presidencial. A proposta busca modificar essa realidade, criando um cadastro nacional alimentado pela identificação precoce, com foco em aspectos socioemocionais e não apenas na desenvoltura cognitiva.
A dupla-excepcionalidade — ou seja, a presença de uma ou mais neurodivergências associadas à superdotação (autismo, TDAH, dislexia, discalculia e outros transtornos de aprendizado) — deve ser ativamente investigada por meio de avaliação clínica biopsicossocial ou neuropsicológica.
O Projeto de Lei também trata da aceleração e flexibilidade de ensino, que devem se adaptar às aptidões, necessidades, interesses e limites da pessoa superdotada. Um trabalho dessa magnitude demanda a estruturação de centros de referência que formarão uma rede nacional para cumprir essa tarefa monumental.
Quantas pessoas ainda estão fora deste jogo?
Talentos do futebol são buscados ativamente por olheiros. O que está sendo criado no país é algo que pode ampliar nossa visão e nos ajudar a revelar os múltiplos matizes de expressão das capacidades das pessoas superdotadas.
No dia em que isso acontecer, lotaríamos mais de 50 estádios do Maracanã, numa projeção tímida de 4 milhões de pessoas, e quiçá mais de 120 arenas cheias, se pudéssemos encontrar todos os 10 milhões de brasileiras e brasileiros excepcionalmente sensíveis e inteligentes.
Hoje ocupamos pouco mais da metade das arquibancadas. Quantas pessoas ainda estarão fora deste jogo?







