O cérebro que não aceitou o não

Doze médicos, aproximadamente trinta clínicas de fisioterapia e cinco anos sem conseguir colocar um lençol sobre o próprio pé. Esse era o currículo que não aparecia na biografia de Andre Cruz. Desde que se conhece, ele amava esportes: hipismo, corrida de aventura, paraquedismo, mergulho, corrida, natação, ciclismo e triathlon. Treinava duas vezes por dia e mantinha 6,5% de gordura corporal. O esporte funcionava como laboratório para mente e corpo, ensinando desde cedo a aliar resistência mental e física.

Continua após a publicidade

Antes de prosseguir, é importante destacar que este não é um depoimento fatalista ou triste. Pelo contrário, trata-se de uma história de superação e comprovação do poder do cérebro. Voltando aos treinos de triathlon, uma dor crescente surgiu e foi ignorada até se tornar insuportável. O diagnóstico apontou uma calosidade no ossículo chamado os trigonum. “Cirurgia simples”, disseram. E era, mas não foi bem assim.

Seis meses depois, a estabilidade começou a falhar e as quedas se tornaram frequentes. Dor crônica. Doze especialistas. O laudo: “erro médico”. Esse erro alterou tudo. O cirurgião seccionou parcialmente o nervo plantar, responsável pelo equilíbrio. Andre perdeu dois terços do movimento no pé direito. Prognóstico: esquecer o esporte e mal conseguir andar normalmente. Choque. Sem equilíbrio, sem estabilidade. A rotina passou a ser medida em número de passos, e esse número era muito baixo.

Continua após a publicidade

Cinco anos assim. Uma segunda cirurgia. Vinte quilos a mais. Depressão. Remédios para tudo. Quem convive com dor crônica sabe que o emocional se desgasta: perde-se estima, força de vontade e amigos. Quando um atleta precisa parar de treinar abruptamente, ocorrem mudanças rápidas em vários sistemas – cardiorrespiratório, muscular, hormonal, metabólico e cerebral. Esse fenômeno é chamado de detraining. O humor é afetado, a ansiedade aumenta, surge uma sensação de abstinência que impacta energia, sono, motivação e qualidade de vida. Ocorre perda de massa muscular e ganho de peso. Além da sensação de vazio. O cérebro de Andre travou, arrastando junto o corpo e quase a vida.

‘Coloca o pé aqui’

Ele se viu em uma bifurcação: aceitar ou não o veredicto, sem meio-termo. Disse a si mesmo: “Eu não aceito o não antes de tentar”. Recusou a bengala. Abandonou parte dos remédios que o tiravam da realidade. Começou a treinar o cérebro. Dez passos viraram quinze, que viraram vinte. Desconforto puro, mas o único caminho. Já estudava neurociência, mas ela foi pivotada da teoria para a prática, assim como a neuroplasticidade. Neurociência é o campo que estuda o sistema nervoso – estrutura, função, bioquímica, desenvolvimento e alterações – abrangendo desde o funcionamento dos neurônios até a consciência humana. A neuroplasticidade, um fenômeno dentro da neurociência, é a capacidade do cérebro de se modificar, criar novas conexões e reorganizar circuitos ao longo da vida. Se a neurociência é o mapa, a neuroplasticidade é o caminho.

Pois bem, aquele “não aceito o não antes de tentar” foi a chave. Andre descobriu que havia perdido não só o movimento, mas a memória motora de andar – aquele padrão automático e inconsciente. Ele racionalizava cada passo, pensando “agora coloca o pé aqui”. Foi Guilherme, fisioterapeuta que o acompanha até hoje, quem o fez voltar a andar. Primeiro, fez o cérebro reaprender a andar; depois, o corpo executar de forma inconsciente. Anos de fisioterapia. Aprendia na clínica, praticava em casa, no trabalho, em todo lugar. Foi obstinado. Não tinha dia nem horário. A cada repetição, uma nova memória era escrita – porque a memória não se apaga, ela se subscreve.

Dessa maneira, construiu um novo padrão mental, com método. Oito anos depois, começou a pensar em qual esporte retomaria, já que corridas longas ou esportes de extremo impacto não eram mais viáveis. A resposta veio naturalmente: alta montanha. Escalar uma montanha não é apenas físico; é um jogo mental de altíssima demanda cerebral. Em altitude, a hipóxia afeta negativamente a memória, a atenção e o julgamento. O estresse físico intenso e prolongado faz a amígdala gritar para parar. Exige decisões rápidas sob risco real de vida, sobrecarregando o córtex pré-frontal. É preciso lidar com gestão de medo real e antecipatório, fadiga física intensa e privações sensoriais. E responder com método, respiração, foco, microdecisões e presença total, diferenciando dor de alerta de dor de lesão. A montanha mostra quem manda. E isso tem tudo a ver com Andre, com a Neura, com ele como um todo.

Montanhas e vulcões

Foram anos de preparo e treinamento. Em outubro de 2024, doze dias escalando várias montanhas em Ushuaia. Em outubro de 2025, quatro vulcões no Equador em dez dias de expedição, chegando a 6.310 metros com sensação térmica de -20 °C. Escalar muda mais do que o corpo – muda o cérebro. Andre sente dor diariamente e faz fisioterapia até hoje, mas a dor não o comanda mais. A maioria dos médicos não acredita no que ele faz e não tem ideia do que ainda fará. Ele se provocou, porque provocar é causar impacto, mas transformar é sustentar esse impacto com consistência. É biologia aplicada, que começa dentro do cérebro. É a neuroplasticidade saindo do papel e impactando a vida real. A dor virou método e a curiosidade virou ciência.

O maior ativo não é a dor superada, mas o que foi decidido fazer com ela. Andre aprendeu a usar caos, ruído, tensão e conflito como diagnóstico do sistema. A partir daí, construiu uma nova ordem que faz sentido no cérebro (atenção e memória), na cultura (significado) e na operação (execução). O que aprendeu no corpo, aplica nas organizações. A transformação acontece quando se intervém onde o cérebro decide: percepção, hábito e memória. Muitas vezes, o automático vira achismo travestido de dado, decisão reativa, estratégia que vira slide. O problema dele é real, físico e permanente. Entendeu o que tinha, aplicou a neuroplasticidade e ressignificou a lesão.

Não se engane: a potência não é dom, é construção cerebral. O cérebro é plástico e está em permanente transformação. O diferencial humano está na capacidade de reorganizá-lo com intenção. Ninguém nasce potente – torna-se. E isso é ciência. Potência não é o que se tem hoje, mas o que se pode construir com o cérebro que se tem.

Muita gente atravessa a dor. Pouca gente converte essa travessia em ciência, linguagem e ferramenta. A história de Andre não é um capítulo pessoal; é uma plataforma de estudo. Você também pode reescrever sua trajetória, mesmo quando disserem que não. Nunca aceite o não antes de tentar.

Continua após a publicidade
Redação
Redação
Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
22ºC
Máxima
23ºC
Mínima
21ºC
HOJE
01/08 - Sáb
Amanhecer
06:11 am
Anoitecer
05:23 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
2.38 km/h

Média
21.5ºC
Máxima
24ºC
Mínima
19ºC
AMANHÃ
02/08 - Dom
Amanhecer
06:10 am
Anoitecer
05:23 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
6.99 km/h

O futuro da arquitetura não é a IA, é o profissional...

Marcos Paulo Bastos

Leia também