As razões por trás da proibição de pisar na grama
Necessito de afeto
Porque desejo ser compreendido
Preciso saber em que dia e horário ela passa por aqui
E se ela ainda sente afeto por mim
Preciso descobrir com urgência
Por que é vedado pisar no gramado.
Fragmento da canção “Porque é proibido pisar na grama”
A existência nos leva a indagar diversas razões, entre a curiosidade de compreendê-la e as demandas diárias, transitamos próximos e afastados das respostas possíveis.
Jorge Ben apresenta, na canção, demandas objetivas e subjetivas, que abrangem obrigações e encargos da fase adulta e também nossos anseios e afetos enquanto indivíduos. Oscilando entre o prático e o pessoal, surge a indagação “Por que é proibido pisar na grama?”. Uma questão que se pode imaginar vindo dos lábios de uma criança, como uma daquelas curiosidades que, à medida que amadurecemos, nos habituamos a deixar sem solução.
A indagação vai além dessas palavras, que ilustram claramente os obstáculos existentes em todas as situações. Uma leitura possível seria: “O que está me impedindo?” ou, mais precisamente, “Por que está me impedindo?”.
O mundo dá sinais antes que compreendamos
Ao longo da existência, deparamo-nos com inúmeras sinalizações que jamais lemos, porém que aprendemos a seguir automaticamente. Umas nos resguardam, outras unicamente nos limitam. Para compreender mais a fundo esse mecanismo, o psicanalista José Milton Castan Junior localiza o começo desse aprendizado em uma memória bastante específica.
“Eu tinha por volta de sete ou oito anos, sentado no balanço do parque, e diante de mim uma placa enorme: ‘proibido para maiores de sete anos’. Essa é a minha recordação mais antiga de uma restrição que não vinha da minha mãe, pai ou professor. Vinha do mundo”, recorda.
O que chama a atenção é que essas placas jamais informavam o que era permitido. Conforme ele, toda a comunicação que recebemos desde a infância costuma vir nesse formato negativo, como um limite traçado pelo que não podemos realizar.
É com base nesse tipo de sinalização, espalhada em frases fragmentadas do dia a dia, que a psique vai se estruturando. Castan reúne exemplos como “menino, não faça isso” e “agradeça sua tia” para ilustrar como, gradualmente, regras e imposições culturais e religiosas se aglomeram em algo similar a um estatuto pessoal, um conjunto de normas a serem seguidas sob a ameaça tácita de punição.
“O tempo avança e essa mesma lógica vai modelando, vai ajustando nosso caráter, aquilo que podemos sentir, desejar ou manifestar.”
A lembrança mais impactante que ele revela sobre esse processo, no entanto, não está relacionada a uma placa, mas a uma colega de escola.
“Helena era a mais bonita da escola. Estávamos na fase de olhar para as meninas. E foi crescendo um forte desejo de convidá-la para namorar. Fiquei imaginando como fazer, o que dizer e quando dizer, mas apenas o ato de pensar sobre isso me aterrorizava, porque na minha escola, que era elitizada, eu era um dos que não se encaixavam. Eu vivia escondendo a manga amarela desgastada do meu casaco. Era o medo de não estar à altura de Helena e ser rejeitado. Nunca consegui convidá-la para namorar”, relata.
O impedimento, nessa situação, não proveio de nenhuma placa visível. Surgiu de uma disparidade social internalizada como vergonha, e foi o bastante para bloquear um desejo inteiro por anos.
Castan recorre a Freud para elucidadar a lógica subjacente a esses episódios. Em “Além do Princípio do Prazer”, o criador da psicanálise descreve a procura pelo prazer e a esquiva da dor como o eixo que estrutura quase toda conduta humana. Segundo ele, é esse balanço, ajustado individualmente pelo aprendizado de cada um, que determina o que iremos buscar e o que evitaremos ao longo da vida.
Onde o limite resguarda, onde a repressão pressiona
Se toda essa sinalização estrutura o caráter, surge uma questão inevitável: saber quando esses limites desempenham uma função saudável e quando passam a atuar como mera repressão. Castan diferencia os dois conceitos. “Os limites são organizadores da nossa sociedade. Sem eles, o egocentrismo inerente a todo ser vivo pode prejudicar ou causar danos ao outro. Sua liberdade termina onde começa a minha”, declara. Ele menciona o semáforo vermelho e a ética profissional como exemplos de restrições que, embora incômodas, sustentam a convivência.
A repressão, conforme ele, situa-se em outro nível completamente. “Repressão possui um caráter punitivo, inibitório ou de supressão de direitos. Limite e repressão são ambos restrições, uma legal e legítima, a outra indevida e ilegal”, explica.
A distinção não reside no desconforto que ambas geram, uma vez que tanto o limite quanto a repressão podem causar dor ou frustração, mas sim na função que exercem. Um favorece a convivência entre indivíduos diversos. O outro apenas diminui alguém.
Um gramado cercado pode proteger uma muda recém-plantada, manter a beleza compartilhada de uma praça, ou simplesmente existir porque alguém, em algum momento, determinou que aquele espaço pertencia mais ao símbolo do que às pessoas.
A letra jamais elucida qual dessas situações está em questão, e talvez essa ambiguidade seja o aspecto mais sincero da música. Grande parte das proibições que carregamos também não é acompanhada de explicação. Aprendemos a obedecer primeiro, e apenas muito depois, se é que acontece, paramos para indagar o motivo.
Barreiras que construímos sozinhos
Contudo, nem toda limitação provém de uma placa concreta. O psicanalista apresenta uma distinção que considera essencial para entender por que tantas pessoas se sentem bloqueadas mesmo sem nenhuma proibição aparente: a diferença entre o fato e a interpretação do fato.
“Subir ao palco e fazer uma apresentação é um fato. Para alguns, é o sustento de um palestrante, por exemplo. Para outros, é morrer de medo. O que varia é como cada um atribui significado, valor ou interpretação ao fato”, afirma.
Esse procedimento de atribuição de significado inicia-se muito cedo e raramente é imparcial. O psicanalista emprega o conceito que denomina mensagens bruxas para designar frases repetidas na infância que, décadas mais tarde, moldam reações automáticas diante de contextos completamente distintos.
Uma criança que ouviu reiteradamente algo como “você fala demais” tende a interiorizar que falar não é bem-vindo. Anos depois, ao se deparar com um microfone ou uma plateia, essa pessoa reencontra, inconscientemente, o eco daquela mensagem antiga. A barreira que sente diante do palco não se origina no palco. Origina-se de uma frase que ela carrega sem alarde, sem nenhum indicador visível para os outros.
A culpa como indicativo, e não como condenação
Um dos aspectos mais sensíveis dessa análise refere-se à culpa, especialmente aquela que surge exatamente quando alguém finalmente opta por algo que deseja. Castan rejeita qualquer resposta única para o tema e prefere decompô-lo em níveis.
“Se for um desejo legítimo e a escolha acarretar algum prejuízo, dano, problema ou mal, essa culpa irá estruturar as próximas decisões. A partir dessa dor, dessa culpa, aprende-se que tal desejo, embora legítimo, não deve ser concretizado por ter gerado consequências negativas”, explica.
Nesse primeiro caso, a culpa atua quase como uma ferramenta de aprendizado, incômoda, porém operacional.
Há um segundo cenário, descrito por ele como o do desejo ilegítimo, no qual a dor surge simplesmente do ato de transgredir algo que a sociedade, os costumes, a moral ou a lei não permitem. Existe ainda um terceiro caso, que Castan considera o mais difícil de identificar e também o mais frequente nos consultórios.
“O desejo é legítimo, não trará, na prática, nenhum prejuízo como consequência, mas algo internamente o bloqueia. Esse é um bom assunto para ser abordado em terapia, pois processos que ocorrem no inconsciente são agentes dessas culpas”, afirma.
Segundo ele, esse terceiro tipo geralmente remonta a uma criação marcada por pais castradores, que, sem necessariamente ter consciência, transmitiram à criança frases como “não posso depender”, “não posso fracassar”, “não posso parecer frágil” ou “não posso decepcionar”. O resultado, conforme ele, costuma ser um adulto com autoestima frágil, que carrega culpa por desejos que, analisados de fora, não causariam mal a ninguém.
O que resta quando o desejo persiste
Essa pessoa, marcada desde cedo por uma culpa que não corresponde a nenhum dano real, geralmente aprende a reprimir o que sente em vez de externalizar. É justamente nesse ponto que reside o problema seguinte, segundo Castan, porque essa capacidade de repressão também tem um limite. Manter a frustração por tempo excessivo passa a funcionar como estresse contínuo, e esse tipo de estresse abre caminho para quadros de ansiedade e depressão, especialmente em pessoas com predisposição genética para condições psiquiátricas.
A solução que ele sugere não é eliminar todos os limites, mas revisá-los periodicamente. “Questionar-se quais limites ainda são pertinentes e quais apenas reproduzem receios antigos. A liberdade psíquica não consiste em fazer tudo o que se deseja. É ser capaz de reconhecer o que se sente, compreender a origem desse desejo ou dessa proibição, e escolher de forma mais consciente o que fazer com isso”, afirma.
A canção de Jorge Ben jamais responde por que é proibido pisar na grama. Termina exatamente na pergunta, repetida, sem solução. E a realidade é que nem todas as questões têm respostas. A maior parte das barreiras que erguemos internamente também ficou sem explicação. O que se altera, com o tempo e com algum trabalho interior, não é necessariamente a barreira em si, mas a reação ao parar diante dela e questionar se ainda protege algo ou se já faz tempo que apenas te impede.







