Talvez você já tenha ouvido a expressão de que guardar mágoa prejudica mais quem sente do que quem causou a dor. Nesse sentido, perdoar pode ser encarado como uma escolha de autocuidado, uma forma de impedir que o passado ou outra pessoa dominem o presente e de abrir espaço para que o coração viva com mais serenidade.
O Ho’oponopono, cujo significado é restabelecer a harmonia ou corrigir o que está errado, é um método ancestral voltado à limpeza de memórias retidas no subconsciente, que geram sofrimento e impedem a vida de se afirmar no presente. A prática se originou entre os povos nativos do Havaí, transmitida oralmente por gerações, com o propósito de solucionar conflitos, reconhecer responsabilidades e restaurar a harmonia. Segundo Amanda Dreher, autora de “O Verdadeiro Ho’oponopono”, essa filosofia pode ser praticada por pessoas de diferentes crenças, e até por quem não segue religião alguma, desde que exista abertura para acreditar em uma inteligência maior, seja chamada de Universo, Deus ou Fonte Divina, e para reconhecer que somos mais do que corpo ou cérebro, uma alma vivendo uma experiência material.
A filosofia sustenta que tudo no universo físico é manifestação do mundo interno. Segundo Amanda, nada existe realmente lá fora, tudo existiria como pensamentos e sentimentos na mente de cada pessoa, e a realidade externa funcionaria como espelho daquilo que carregamos dentro de nós. Por isso, dentro dessa visão, nada do que acontece externamente teria poder de controlar a vida de alguém, já que cada pessoa seria responsável por criar a própria experiência, e vibrar amor, gratidão e paz ajudaria a manifestar uma vida mais leve e harmoniosa.
A autora também explica que, segundo essa perspectiva, todas as pessoas estão ligadas por laços energéticos chamados cordas aka. Quando existe um conflito com alguém da família, por exemplo, o problema não estaria na outra pessoa, mas na memória de dor compartilhada através desse elo. Ao lidar com esse sentimento internamente, o padrão de conflito se romperia, sem que existam vítimas ou vilões nesse processo, apenas a oportunidade de assumir a responsabilidade pelo próprio sentimento e limpar a memória de dor compartilhada.
A prática ocorre em três passos contínuos, limpar, desapegar e conectar. O primeiro consiste em perceber quais sentimentos, lembranças e padrões negativos uma situação desperta, olhando para o que aquele conflito provoca internamente, em vez de colocar toda a culpa no outro. Nessa etapa, usam-se quatro frases. Sinto muito reconhece que existe uma dor ou memória atuando naquele momento, sem significar assumir culpa pelo comportamento alheio. Me perdoe é dirigido à própria consciência ou à parte de si que carrega aquela dor, um pedido de ajuda à energia do amor para deixar de repetir o mesmo padrão. Eu te amo serve para acolher o que surgiu, em vez de reagir com raiva ou rejeição, já que o amor seria a força capaz de transformar as memórias dolorosas. Já sou grato expressa confiança de que o processo vai se resolver, mesmo sem saber ainda como.
Amanda alerta que não basta repetir essas frases de forma automática, é preciso compreender a quem elas são dirigidas, seja uma energia vital do Universo, Deus ou outra representação de fé, e entender por que são repetidas, o que pressupõe acreditar que a realidade material é moldada pela forma como pensamos e sentimos.
O segundo passo é desapegar, deixando de tentar controlar a situação ou buscar uma solução específica, sem ficar preso à expectativa de que o outro mude ou peça desculpas, cuidando apenas daquilo que está ao alcance de cada um. Por fim, o terceiro passo é conectar-se consigo mesmo, voltando a atenção para dentro em busca de autoconhecimento, calma e clareza, o que dentro dessa filosofia representaria uma forma de aproximação com a própria divindade interior.
Segundo a autora, a prática não deve se limitar a momentos de meditação, repetição de mantras ou oração, precisando ser aplicada também aos pensamentos, sentimentos, escolhas e ações do dia a dia, unindo as ferramentas de cura à vivência prática dos princípios dessa filosofia.







