Hospital conhecido por “Holocausto Brasileiro” fecha as portas

Hospital Colônia encerra atividades após 123 anos

Um dos episódios mais trágicos da história da saúde mental brasileira chegou ao fim no final do mês de maio. O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, situado no interior de Minas Gerais, encaminhou seus últimos 14 pacientes para uma nova unidade gerida pela prefeitura, encerrando oficialmente um ciclo de 123 anos de funcionamento.

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Conhecido popularmente como Hospital Colônia, o local tornou-se tristemente célebre ao longo do século XX como o maior manicômio do Brasil, marcado por reiteradas acusações de superlotação e violência. Os maus-tratos resultaram na morte de inúmeros internos. As graves infrações aos direitos humanos cometidas em Barbacena foram determinantes para impulsionar o movimento antimanicomial no país.

O contexto do “Holocausto Brasileiro”

Fundado em 1903 com o propósito de acolher e tratar pessoas com transtornos psiquiátricos, o Hospital Colônia logo se desviou dessa missão. A superlotação, a negligência e a violência explícita contra os pacientes tornaram-se práticas corriqueiras. Em vez de ser um espaço de cuidado, o manicômio funcionou como um “depósito” de indivíduos, muitos deles sem qualquer diagnóstico formal de doença mental.

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O regime de internação compulsória atingia qualquer um que fosse rotulado como socialmente “indesejável”, sem a devida supervisão dos motivos que justificavam o confinamento, tampouco uma forma de saída legal do local. Depoimentos numerosos indicam que o espaço serviu para segregar pessoas com deficiências físicas ou intelectuais, homossexuais, ativistas políticos incômodos às autoridades, moradores de rua e até mulheres que haviam perdido a virgindade antes do casamento.

Diante de tanta indiferença, as fatalidades se multiplicaram. No livro-reportagem “Holocausto Brasileiro” (2013), a jornalista Daniela Arbex estimou que cerca de 60 mil pessoas podem ter perdido a vida no Hospital Colônia. Além disso, os corpos de algumas vítimas foram comercializados sem autorização para estudos em universidades.

A partir da década de 1970, as atrocidades cometidas no local começaram a se tornar amplamente conhecidas fora de seus muros, gerando comparações com campos de concentração nazistas. Essa história foi retratada no documentário “Holocausto Brasileiro” (HBO, 2016) e na série ficcional “Colônia” (Globoplay, 2021).

Um marco para o movimento antimanicomial

O hospital de Barbacena personificou tudo o que o movimento antimanicomial buscava combater. Com a evolução dos conceitos sobre saúde mental, a instituição passou por um processo gradual de adaptação e desativação, iniciado nos anos 1980. A desinstitucionalização dos pacientes foi acelerada nos últimos anos, com transferências para residenciais terapêuticos e unidades especializadas.

O último grupo de internos, composto por 14 idosos com idade média de 73 anos (o mais velho tem 91), foi transferido recentemente. Parte dessas pessoas vivia no local desde a adolescência. O encerramento das atividades ocorreu logo após o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, comemorado em 18 de maio.

O fechamento do hospital não implica o apagamento de seu passado. No antigo prédio, continuará em funcionamento o Museu da Loucura, criado em 1996 para preservar a história da psiquiatria no Brasil. A entrada é gratuita, e o museu recebe visitantes de terça a domingo, das 9h às 17h, e às segundas-feiras, das 13h às 17h.

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